quinta-feira, 14 de abril de 2016

As janelas dos meus olhos

A nossa vida é aquilo que os nossos pensamentos fizerem dela.


Marco Aurélio




Dejé por ti todo lo que era mío.
Dame tú, Roma, a cambio de mis penas,
tanto como dejé para tenerte.

Rafael Alberti



O rio corre manso na tarde quente que convida à preguiça. Em frente o anjo dourado tenta-nos  a inércia.

Vamos ? Claro que sim, respondo sem grande convicção,  É só mais um pedacinho. Pareces um sapo ao sol. Muito romântico sem dúvida. Sorriu. Pequenas picardias  inofensivas , tão necessárias a dispôr-me à acção.

Vamos lá então subir escadas. Faz-te bem. O que faria muito melhor, seria outro gelado. Não podes entrar a comer. Pois não. Vá vamos, antes que me arrependa. 

Está mais do que claro que não me arrependi.
Abri as janelas dos meus olhos de par em par e deixei a luz entrar.

               


                       

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A Leitora

"As paixões são os ventos que enfunam as velas dos barcos, elas fazem-nos naufragar, por vezes, mas sem elas, eles não poderiam singrar."

Voltaire





A leitora abre o espaço num sopro subtil. 
Lê na violência e no espanto da brancura. 
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa. 
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco. 
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra. 

António Ramos Rosa





Não me recordo sem um livro.

Conta a minha mãe que eu decorava tudo o que me liam e repetia como se estivesse eu própria a ler, o que era uma proeza para uma criança de colo. 

Uma fingidora, era o que que era.
Fingia saber ler.

Decidiram por mim quando deixaria de fingir. Foi das poucas coisas boas que alguém decidiu da minha vida sem eu ter voto na matéria.
Aprendi mais depressa o B-A-BA do que a contar até cinco.

Lembro-me de livros a três dimensões em que os personagens mexiam através de tiras de cartão, de inventar histórias dentro da história e passar horas a brincar. Nunca fui muito de bonecas.

É este meu espírito irrequieto que não dorme nem a dormir, que me leva tantas vezes a procurar viver um livro para além do tomo. É o desafio do temerário companheiro de muitas décadas que me faz desligar a ficha, despir os dias iguais , colocar o manto da aventura e voar por aí.





Estamos quase. Pois estamos. Ele já sabe que eu nas vésperas estou absorta em tudo e em nada.
Vovó, mamão ! Vamos , anda que o avô lava a mão. A avó hoje não está cá. Tatáá ! 
Desculpa, o quê ? Ele sorri e leva a pequena para chapinhar mais uma vez. Conhece-me tão bem.

Olho para o relógio e respiro profundamente. Uma vez. Outra vez.

Quem não souber, com tanto suspiro ainda pensará que estou apaixonada.

Pensa bem.








                                                         








quinta-feira, 31 de março de 2016

Pingos de memória

Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.

Carlos Drummond de Andrade



... ou quem sabe em gotas de chuva fria ?





As gotas de água caiam esparsas mas pesadas, ploc ploc, no nariz, na cabeça, na boca aberta, escancarada num meio sorriso que me rejuvenesce meio século.

Algures nas entranhas da mala que me oscila no ombro, daquele alforge de bufarinheiro que me é tão característico, conservo trezentos e sessenta e cinco dias por ano,  um projecto de guarda-chuva, encolhido e amarfanhado, nunca se sabe, digo, quando me criticam ... é bem verdade que a mala pesa arrobas e que eu não sei precisar com exactidão o que por lá vai...

Penso um nanososegundo e continuo à chuva.  A senhora quer "boleia" no meu chapéu? Não, pequeno, obrigada, estou bem assim, faz-me remoçar. Ele riu... remoçar, pois sim.

Preguiça ou vontade de me molhar? Nem eu sei ao certo, mas que sabe bem... uma poça à frente, pulo? Ora, se já estou molhada, porque não ? Fico encharcada até aos joelhos. O rapaz olha para mim atónito ... nunca, mas nunca... que coisa esta !? Quer esperar aqui enquanto vou buscar o carro ? Ficou lá em cima no largo. Não, vou contigo, não quero ficar aqui sozinha à chuva a esta hora da noite. Mas é sempre a subir. Não faz mal.

Respirei fundo e arrepiei caminho, calçada a cima. Tentei acompanhar a passada. O rapaz é maratonista e eu apenas anafada... controlar a respiração... não sou atleta, cruzes... Inspira pelo nariz... expira pela boca... raio, será que o maldito carro ainda está longe ? Isto de não dar parte de fraca é complicado.

Trauteei mentalmente o " Joana come a Papa", provavelmente por ser um, dois três, uma colher de cada vez... Finalmente ! Deslizei o mais levemente que consegui para o banco. A música metálica jorrava rádio afora e os decibéis  disfarçaram o abalo de Richter provocado pelos meus batimentos cardíacos. 

O carro cheirava a novo e eu a saltar pocinhas... não admira que o rapaz olhasse de lado aquela mostra de infantilidades nimbosas.