quarta-feira, 13 de abril de 2016

A Leitora

"As paixões são os ventos que enfunam as velas dos barcos, elas fazem-nos naufragar, por vezes, mas sem elas, eles não poderiam singrar."

Voltaire





A leitora abre o espaço num sopro subtil. 
Lê na violência e no espanto da brancura. 
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa. 
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco. 
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra. 

António Ramos Rosa





Não me recordo sem um livro.

Conta a minha mãe que eu decorava tudo o que me liam e repetia como se estivesse eu própria a ler, o que era uma proeza para uma criança de colo. 

Uma fingidora, era o que que era.
Fingia saber ler.

Decidiram por mim quando deixaria de fingir. Foi das poucas coisas boas que alguém decidiu da minha vida sem eu ter voto na matéria.
Aprendi mais depressa o B-A-BA do que a contar até cinco.

Lembro-me de livros a três dimensões em que os personagens mexiam através de tiras de cartão, de inventar histórias dentro da história e passar horas a brincar. Nunca fui muito de bonecas.

É este meu espírito irrequieto que não dorme nem a dormir, que me leva tantas vezes a procurar viver um livro para além do tomo. É o desafio do temerário companheiro de muitas décadas que me faz desligar a ficha, despir os dias iguais , colocar o manto da aventura e voar por aí.





Estamos quase. Pois estamos. Ele já sabe que eu nas vésperas estou absorta em tudo e em nada.
Vovó, mamão ! Vamos , anda que o avô lava a mão. A avó hoje não está cá. Tatáá ! 
Desculpa, o quê ? Ele sorri e leva a pequena para chapinhar mais uma vez. Conhece-me tão bem.

Olho para o relógio e respiro profundamente. Uma vez. Outra vez.

Quem não souber, com tanto suspiro ainda pensará que estou apaixonada.

Pensa bem.








                                                         








quinta-feira, 31 de março de 2016

Pingos de memória

Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.

Carlos Drummond de Andrade



... ou quem sabe em gotas de chuva fria ?





As gotas de água caiam esparsas mas pesadas, ploc ploc, no nariz, na cabeça, na boca aberta, escancarada num meio sorriso que me rejuvenesce meio século.

Algures nas entranhas da mala que me oscila no ombro, daquele alforge de bufarinheiro que me é tão característico, conservo trezentos e sessenta e cinco dias por ano,  um projecto de guarda-chuva, encolhido e amarfanhado, nunca se sabe, digo, quando me criticam ... é bem verdade que a mala pesa arrobas e que eu não sei precisar com exactidão o que por lá vai...

Penso um nanososegundo e continuo à chuva.  A senhora quer "boleia" no meu chapéu? Não, pequeno, obrigada, estou bem assim, faz-me remoçar. Ele riu... remoçar, pois sim.

Preguiça ou vontade de me molhar? Nem eu sei ao certo, mas que sabe bem... uma poça à frente, pulo? Ora, se já estou molhada, porque não ? Fico encharcada até aos joelhos. O rapaz olha para mim atónito ... nunca, mas nunca... que coisa esta !? Quer esperar aqui enquanto vou buscar o carro ? Ficou lá em cima no largo. Não, vou contigo, não quero ficar aqui sozinha à chuva a esta hora da noite. Mas é sempre a subir. Não faz mal.

Respirei fundo e arrepiei caminho, calçada a cima. Tentei acompanhar a passada. O rapaz é maratonista e eu apenas anafada... controlar a respiração... não sou atleta, cruzes... Inspira pelo nariz... expira pela boca... raio, será que o maldito carro ainda está longe ? Isto de não dar parte de fraca é complicado.

Trauteei mentalmente o " Joana come a Papa", provavelmente por ser um, dois três, uma colher de cada vez... Finalmente ! Deslizei o mais levemente que consegui para o banco. A música metálica jorrava rádio afora e os decibéis  disfarçaram o abalo de Richter provocado pelos meus batimentos cardíacos. 

O carro cheirava a novo e eu a saltar pocinhas... não admira que o rapaz olhasse de lado aquela mostra de infantilidades nimbosas.


                                                         

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Sem norte em si

"Não há último adeus, senão aquele que se não diz"


Alexandre Dumas









Viajar, num sentido profundo, é morrer. É deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilusão, em saudade, em cansaço, em movimento, pelo mundo além.

Miguel Torga









Más novas são como drones sinistros, que acoitados nas sombras de um céu carregado, deflagram desolação por toda a parte onde caia a tristeza que pulverizam na sua umbrífera viagem pelo éter dos sentidos.


A onda de choque propaga-se velozmente em vagas de densa e fria  incredulidade , que embarga qualquer acção. Faz-se breu. Faz-se dor.

Não posso crer, diz com o mar prestes  a despencar em catadupas frente a uma córnea já vermelha de aflição. Desde miúdo, desde miúdo. Olho-o sem o ver. Temos que ir. Posso jurar que a janela baila à minha frente e o meu estomago a acompanha numa rumba silenciosa, enovelando-se mais e mais a cada passo. Uma corrida. Uma partida.

Rumar ao norte sem norte. Fixo pontos no caminho. Não são cardeais, mas é para lá que seguimos.

Os segundos somam minutos que dão lugar a horas que parecem não querer passar.

Não penses, descansa. Como, com este filme  que se desenrola inexorável a cada pestanejar ?
Com calma. Com força. Com o respeito que lhe devemos.

A circunstância é sempre igual. A tristeza não tem unidade de medida, porque é grande demais.
Cumpre-se o ritual. Fecha-se mais um ciclo de vida, de uma vida rica, plena , doce e sensata. Corta-se o fio prematuramente, mas as lembranças, essas perdurarão através da prole e das memórias felizes das pessoas que tocou na fugaz passagem.

É noite. Está frio e as poucas pessoas que cruzam os caminhos de sombras cruas não têm rosto, são manchas sem sentido num momento de dor.