quinta-feira, 31 de março de 2016

Pingos de memória

Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.

Carlos Drummond de Andrade



... ou quem sabe em gotas de chuva fria ?





As gotas de água caiam esparsas mas pesadas, ploc ploc, no nariz, na cabeça, na boca aberta, escancarada num meio sorriso que me rejuvenesce meio século.

Algures nas entranhas da mala que me oscila no ombro, daquele alforge de bufarinheiro que me é tão característico, conservo trezentos e sessenta e cinco dias por ano,  um projecto de guarda-chuva, encolhido e amarfanhado, nunca se sabe, digo, quando me criticam ... é bem verdade que a mala pesa arrobas e que eu não sei precisar com exactidão o que por lá vai...

Penso um nanososegundo e continuo à chuva.  A senhora quer "boleia" no meu chapéu? Não, pequeno, obrigada, estou bem assim, faz-me remoçar. Ele riu... remoçar, pois sim.

Preguiça ou vontade de me molhar? Nem eu sei ao certo, mas que sabe bem... uma poça à frente, pulo? Ora, se já estou molhada, porque não ? Fico encharcada até aos joelhos. O rapaz olha para mim atónito ... nunca, mas nunca... que coisa esta !? Quer esperar aqui enquanto vou buscar o carro ? Ficou lá em cima no largo. Não, vou contigo, não quero ficar aqui sozinha à chuva a esta hora da noite. Mas é sempre a subir. Não faz mal.

Respirei fundo e arrepiei caminho, calçada a cima. Tentei acompanhar a passada. O rapaz é maratonista e eu apenas anafada... controlar a respiração... não sou atleta, cruzes... Inspira pelo nariz... expira pela boca... raio, será que o maldito carro ainda está longe ? Isto de não dar parte de fraca é complicado.

Trauteei mentalmente o " Joana come a Papa", provavelmente por ser um, dois três, uma colher de cada vez... Finalmente ! Deslizei o mais levemente que consegui para o banco. A música metálica jorrava rádio afora e os decibéis  disfarçaram o abalo de Richter provocado pelos meus batimentos cardíacos. 

O carro cheirava a novo e eu a saltar pocinhas... não admira que o rapaz olhasse de lado aquela mostra de infantilidades nimbosas.


                                                         

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Sem norte em si

"Não há último adeus, senão aquele que se não diz"


Alexandre Dumas









Viajar, num sentido profundo, é morrer. É deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilusão, em saudade, em cansaço, em movimento, pelo mundo além.

Miguel Torga









Más novas são como drones sinistros, que acoitados nas sombras de um céu carregado, deflagram desolação por toda a parte onde caia a tristeza que pulverizam na sua umbrífera viagem pelo éter dos sentidos.


A onda de choque propaga-se velozmente em vagas de densa e fria  incredulidade , que embarga qualquer acção. Faz-se breu. Faz-se dor.

Não posso crer, diz com o mar prestes  a despencar em catadupas frente a uma córnea já vermelha de aflição. Desde miúdo, desde miúdo. Olho-o sem o ver. Temos que ir. Posso jurar que a janela baila à minha frente e o meu estomago a acompanha numa rumba silenciosa, enovelando-se mais e mais a cada passo. Uma corrida. Uma partida.

Rumar ao norte sem norte. Fixo pontos no caminho. Não são cardeais, mas é para lá que seguimos.

Os segundos somam minutos que dão lugar a horas que parecem não querer passar.

Não penses, descansa. Como, com este filme  que se desenrola inexorável a cada pestanejar ?
Com calma. Com força. Com o respeito que lhe devemos.

A circunstância é sempre igual. A tristeza não tem unidade de medida, porque é grande demais.
Cumpre-se o ritual. Fecha-se mais um ciclo de vida, de uma vida rica, plena , doce e sensata. Corta-se o fio prematuramente, mas as lembranças, essas perdurarão através da prole e das memórias felizes das pessoas que tocou na fugaz passagem.

É noite. Está frio e as poucas pessoas que cruzam os caminhos de sombras cruas não têm rosto, são manchas sem sentido num momento de dor.









sábado, 30 de janeiro de 2016

Noite Apressada

"E por vezes as noites duram meses"


Era uma noite apressada
 depois de um dia tão lento.
[...]
Era afinal quase nada,
 e tudo parecia imenso!


David Mourão-Ferreira














Quem sabe, um sofá ou uma cadeira de recosto, ironiza cheio de razão.
Um duche, uma muda de roupa, uma chávena de chá. 
Mal cheguei e faltam menos de duas horas para me preparar para voltar. Recosto-me, para dar descanso às pernas enquanto observo o chá fumegante condensar-se em cornucópias vaporosas que se desvanecem entrelaçadas no escuro . Olho o quarto minguante recortado em amarelo vivo no fundo escuro sobre as sombras rendilhadas das copas de Monsanto. Fecho os olhos e inspiro profundamente o sublime aroma do silêncio. É quanto basta. Alguns minutos de oblívio, no torpor breve de um sono que não chegou a acontecer completamente . Trinta e dois minutos. Volto a pestanejar , mas é escusado. Mataram a Cotovia provoca-me. Porque não ? Revisitar Scout, Jem, Dill... Submerjo parcos minutos em Maycomb. Cabeceio. As palavras enrolam as letras que se me agigantam olhos dentro e emerjo atarantada.
Já vais ? Não respondo. Ainda é cedo, mas já fui. Bem vistas as coisas, creio que, pelo menos em consciência, nem cheguei a regressar, deixei-me ficar por lá.
Os grão de café gemem com um perfume guloso e não me faço esperar. Sabe a manhãs sem luz. Sabe a ânimo. Sabe bem.
Oiço a juventude animada sob a luz dos faróis, sem frio, sem sono, riem na noite que se faz manhã. A estrela da manhã brilha intensamente. É um avião, diz. Pois é, que tolice. Afloro-lhe a testa com um sussurro. Até logo.
O táxi desliza pela humidade do asfalto . Rádio Amália . Os acordes do Barco Negro, a voz, a imagem de David Mourão-Ferreira intercalada nas luzes fugidias da rua.
Expiro profundamente. Reinicio-me. Ligo todos os sentidos.
Chegou ao seu destino, diz o som mecânico.
É muito provavelmente a mais pura das verdades.