"Não há último adeus, senão aquele que se não diz"
Alexandre Dumas
Viajar, num sentido profundo, é morrer. É deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilusão, em saudade, em cansaço, em movimento, pelo mundo além.
Miguel Torga
Más novas são como drones sinistros, que acoitados nas sombras de um céu carregado, deflagram desolação por toda a parte onde caia a tristeza que pulverizam na sua umbrífera viagem pelo éter dos sentidos.
A onda de choque propaga-se velozmente em vagas de densa e fria incredulidade , que embarga qualquer acção. Faz-se breu. Faz-se dor.
Não posso crer, diz com o mar prestes a despencar em catadupas frente a uma córnea já vermelha de aflição. Desde miúdo, desde miúdo. Olho-o sem o ver. Temos que ir. Posso jurar que a janela baila à minha frente e o meu estomago a acompanha numa rumba silenciosa, enovelando-se mais e mais a cada passo. Uma corrida. Uma partida.
Rumar ao norte sem norte. Fixo pontos no caminho. Não são cardeais, mas é para lá que seguimos.
Os segundos somam minutos que dão lugar a horas que parecem não querer passar.
Não penses, descansa. Como, com este filme que se desenrola inexorável a cada pestanejar ?
Com calma. Com força. Com o respeito que lhe devemos.
A circunstância é sempre igual. A tristeza não tem unidade de medida, porque é grande demais.
Cumpre-se o ritual. Fecha-se mais um ciclo de vida, de uma vida rica, plena , doce e sensata. Corta-se o fio prematuramente, mas as lembranças, essas perdurarão através da prole e das memórias felizes das pessoas que tocou na fugaz passagem.
É noite. Está frio e as poucas pessoas que cruzam os caminhos de sombras cruas não têm rosto, são manchas sem sentido num momento de dor.
Era uma noite apressada depois de um dia tão lento. [...] Era afinal quase nada, e tudo parecia imenso!
David Mourão-Ferreira
Quem sabe, um sofá ou uma cadeira de recosto, ironiza cheio de razão.
Um duche, uma muda de roupa, uma chávena de chá.
Mal cheguei e faltam menos de duas horas para me preparar para voltar. Recosto-me, para dar descanso às pernas enquanto observo o chá fumegante condensar-se em cornucópias vaporosas que se desvanecem entrelaçadas no escuro . Olho o quarto minguante recortado em amarelo vivo no fundo escuro sobre as sombras rendilhadas das copas de Monsanto. Fecho os olhos e inspiro profundamente o sublime aroma do silêncio. É quanto basta. Alguns minutos de oblívio, no torpor breve de um sono que não chegou a acontecer completamente . Trinta e dois minutos. Volto a pestanejar , mas é escusado. Mataram a Cotovia provoca-me. Porque não ? Revisitar Scout, Jem, Dill... Submerjo parcos minutos em Maycomb. Cabeceio. As palavras enrolam as letras que se me agigantam olhos dentro e emerjo atarantada.
Já vais ? Não respondo. Ainda é cedo, mas já fui. Bem vistas as coisas, creio que, pelo menos em consciência, nem cheguei a regressar, deixei-me ficar por lá.
Os grão de café gemem com um perfume guloso e não me faço esperar. Sabe a manhãs sem luz. Sabe a ânimo. Sabe bem.
Oiço a juventude animada sob a luz dos faróis, sem frio, sem sono, riem na noite que se faz manhã. A estrela da manhã brilha intensamente. É um avião, diz. Pois é, que tolice. Afloro-lhe a testa com um sussurro. Até logo.
O táxi desliza pela humidade do asfalto . Rádio Amália . Os acordes do Barco Negro, a voz, a imagem de David Mourão-Ferreira intercalada nas luzes fugidias da rua.
Expiro profundamente. Reinicio-me. Ligo todos os sentidos.
"Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor"
Álvaro de Campos
Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar A tua dôce e angelica Figura, Esquecida, embebida num luar, Num enlêvo perfeito e graça pura! E á força de sorrir, de me encantar, Deante de ti, mimosa Creatura, Suavemente sentia-me apagar... E eu era sombra apenas e ternura
Teixeira de Pascoaes
Faz hoje um ano.
Nasceu apressada, a pequena amostra de gente, mas iluminou com o seu choro as lágrimas de alegria que corriam ansiosas pelas faces expectantes de quem esperava a boa nova.
Era uma trouxinha diminuta que cabia na cova de um braço, mas irradiava tanto amor como uma estrela à volta da qual gravitavam uma série de mundos próprios de cada um, porque cada um encerra em si o seu próprio mundo e são todos esses mundos juntos, que formam o universo de igualdades e diferenças a que chamamos humanidade.
Rapidamente nos tornámos heliocêntricos de carinhos e desvelos. Era vê-la brilhar radiante para nós.
Uma tarde, igual a tantas tardes em que conversávamos sobre tudo e sobre nada , o tsunami do horror irrompeu em cascatas sangrentas.
O telescópio côncavo da minha memória desse dia, teima em não me deixar recordar vividamente os pormenores.
O gelo das mãos dormentes, o rosto sem cor, uma fresta branca por onde saía o som " Não a deixes" " Sossega que não deixo". Não deixei.
Vi as luzes, ouvi a sirene, sempre com a trouxinha apertada contra o peito, alheia no seu pequeno mundo, ao que se passava com os outros mundos que orbitavam ao seu redor. Bendita inocência.
Foram dias terríveis. Foram dias de incertezas e de ignorância.
Não saber.
Não saber torna-nos impotentes perante tudo.
Eu queria estar lá e confortá-la, e sentá-la no colo e dizer-lhe que sim, que podia chorar, que chorar alivia , que iria ficar bem. "Tudo se vai compor, verás" falava para o éter do gadget que segurava nos dedos impessoais com a convicção que a insegurança e o medo não me deixavam imprimir às palavras.
Noites insones povoadas de fantasmas negros e esvoaçantes, aflitivos e dolorosos como espadas aguçadas , o fantasma da sepse, o fantasma da hemoglobina sem valores optimistas, o fantasma do surto e outros que reneguei como se de demónios se tratasse...
Noites em que as lágrimas se afogavam num lamaçal por onde corria o coração como um cavalo selvagem , cascos em riste, imparável, sempre em sobressalto .
A trouxinha, a estrelinha que já era a minha vida, passou a ser a única luz naqueles dias de trevas. Eramos só as duas, só nós e os nossos pensamentos.
Fiz as pazes com Deus, com quem deixara de conversar há algum tempo, por mirar para além dos horizontes que a vista alcança e não o encontrar . Um bom pai deve ser um pai presente. Tantas vezes no meio de tanta angústia e sofrimento, no meio de tanto mal, não lhe achei vestígio. Senti que desertara... ou quem sabe terei sido eu quem não quis procurar mais ?
Pedir perdão por pecar por omissão ? Fechei os olhos e rezei. Não me lembro de ter alguma vez rezado como rezei naqueles dias e naquelas noites.
E Deus ouviu. E ela veio para casa, fraca e combalida, mas com o mesmo brilho e a mesma determinação que eu sempre lhe conheci no olhar.
Voltou para a sua estrela e tudo recuperou a cor e o brilho que empalidecera.
Faz um ano um destes dias.
Hoje faz um ano que nasceu o nosso pequeno sol e que os nossos mundos pessoais reaprenderam as translações de outrora, agora com uma cadência diferente.
A alegria começa com A e comemora hoje o seu primeiro aniversário. Que possa ser o primeiro de muitos e que seja sempre feliz.