domingo, 27 de setembro de 2015

Agora escolha

Se consciência significa memória e antecipação, é porque consciência é sinónimo de escolha.

Henri Bergson






A angústia invade quer o inquieto,
 exclusivamente deslumbrado por aquilo que arde com uma luz vaga,
 quer o poeta cheio de amor pelos poemas que nunca escreveu o seu,
 quer a mulher apaixonada pelo amor,
 mas incapaz de devir por não saber escolher.[...]
[...]E o insensato, que vem censurar a esta velha o seu bordado, 
sob o pretexto de que ela poderia ter tecido outra coisa,
 demonstra com isso que prefere o nada à criação.

Antoine de Saint-Exupéry









O pensamento isolado não nos liberta, pelo contrário, atraca-nos a vida com grossas amarras no ponto onde a linha do horizonte se embacia ao olhar










É complicado escolher ? É e não é.




Todos os dias fazemos escolhas, que de tão dilutas nas nossas rotinas pouco ou nada nos apercebemos delas. Escolhemos a hora de acordar, o que vestir, o que calçar, o que comer, se tomamos a medicação para a tensão arterial ou para a artrite...

Todas as escolhas que fazemos são forjadas no nosso livre arbítrio, na liberdade de poder dizer, de poder fazer, de poder pensar.

Temos vontade própria e alforria de ideais e ideias. 
É certo que somos gregários e que as sociedades nos impõem as suas leis. Mas no epílogo das nossas decisões, as escolhas foram sempre nossas.
Qualquer acção e consequente reacção, mais não foram do que consequências das nossas decisões.








Podemos fugir do medo
Podemos ficar e combatê-lo
Podemos viver com medo
Podemos morrer a combatê-lo

Chegará o momento de olhar para ver
Ver com olhos de ver
E escolher
Escolhi viver sem medo
O medo manieta a liberdade
Sou livre
Vou à luta. Optei por lutar

Escolhi assim




( Todas as fotos de MD Roque)




                                                    

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Willkommen Bienvenue Welcome

"Sob a lua, a sombra que se alonga é uma só."


Jorge Luis Borges



Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 
Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 
E roda a melancolia 

seu interminável fuso! 

Cecília Meireles








A Sombra sou eu, pois que tenho luas e sou de luas.
Oiço-a, oiço-a sim, 
Que é ela quem comanda as minhas noites
O calor e loucura que parecem não ter fim









Bem vindos à minha Lua! 
Escolham uma, tenho tantas, de tantas cores e feitios
Tomam-me durante os estios, enredam-me, vestem-me nua
Endoidam-me em desvarios





Sombração na minha pele, arrepio de pensamento
Murmúrio a todo o momento, força que atrai e repele
Bem vindos à minha Lua!
Projector do meu tablado, luz que ilumina o meu fado











Feitiço de noites loucas, são tantas e são tão poucas
Muitas falas , vozes roucas, muita gente sem idade
Na ira, na alacridade
No que se pede e se traz, dás-me a loucura das noites
Dás-me o silêncio e a paz.


( Todas as fotos por MD Roque)








                                                       

domingo, 19 de julho de 2015

Robbing Souls

"A melhor coisa sobre uma fotografia, é que ela não muda mesmo quando as pessoas mudam"

Andy Warhol




O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio.


Machado de Assis








É fantástico olhar um céu azul pontuado de flocos brancos que vão adquirindo tonalidades espantosas com o passar da hora do dia ao sabor do sol,  de nascente a poente.







Mal acordo , olho o horizonte delimitado por telhados escuros , onde, levemente à esquerda,  uma promessa de luz começa a despontar. Capturo a imagem. Sorrio. Depois do estímulo da cafeína olho o horizonte do outro lado e sorrio sempre ao quadro, aquela pintura todos os dias diferente, parte daqueles jogos de luz e sombra, que conferem tonalidades diversas ao mar e acordam a cor da terra à medida que a luz avança.

Capturo mais uma imagem. São todas iguais à  primeira vista, mas um segundo olhar mais atento , um pormenor mais detalhado, revelará que não há duas imagens iguais.









Capturar um momento de luz é fantástico, seja ele qual for. A luz que brinca na espuma branca de uma onda que marulha , naquele papel que voa em incansáveis piruetas, na copa de uma arvore que ondula ao vento, no cristalino de uma iris garça, nas asas de um pardalito acromático que voa em contraluz...





























Em algumas culturas acreditava-se que as fotos roubavam as almas. Eu também acredito, acredito que roubem e guardem infinitamente a alma daquele nanosegundo em que se fez luz, uma luz diferente e esplendida.



Uma pedra, uma fresta,  uma flor, uma paisagem de cortar a respiração. Muitas são as vezes que a procuro, á beleza que me faz roubar a alma do tempo. Outas tantas é o acaso que a enquadra na periferia das imagens que a minha retina inverte.





Rever instantes é reviver emoções. É querer mais e tentar a todo o custo voltar aquele momento de felicidade. É mentira que nunca se deve voltar onde se foi feliz. Eu volto. Volto muitas vezes.







 Encontro o tempo parado no tempo,  a girar feito louco naquela mudança que muito poucos têm a felicidade de reconhecer.




Anseio pelo porvir, pelos anos dourados em que nadarei em rios de tempo manso e poderei decidi-lo a meu bel prazer.

Anseio criar, mas não tendo alma de artista, contento-me em poder revelar momentos da criação. Quero aprender a roubar almas, muitas, deliciar o mundo com elas. Deliciar-me a mim.





Só me entristece pensar que depois da travessia do meu Êxodo laboral, possa ter Canaã à vista e que seja apenas a miragem do meu sonho; como insondáveis e misteriosos são os caminhos de Deus,  seja eu mais um Moisés, como foi o meu pai antes de mim.





( Todas as Fotos de MD Roque)