quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Willkommen Bienvenue Welcome

"Sob a lua, a sombra que se alonga é uma só."


Jorge Luis Borges



Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 
Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 
E roda a melancolia 

seu interminável fuso! 

Cecília Meireles








A Sombra sou eu, pois que tenho luas e sou de luas.
Oiço-a, oiço-a sim, 
Que é ela quem comanda as minhas noites
O calor e loucura que parecem não ter fim









Bem vindos à minha Lua! 
Escolham uma, tenho tantas, de tantas cores e feitios
Tomam-me durante os estios, enredam-me, vestem-me nua
Endoidam-me em desvarios





Sombração na minha pele, arrepio de pensamento
Murmúrio a todo o momento, força que atrai e repele
Bem vindos à minha Lua!
Projector do meu tablado, luz que ilumina o meu fado











Feitiço de noites loucas, são tantas e são tão poucas
Muitas falas , vozes roucas, muita gente sem idade
Na ira, na alacridade
No que se pede e se traz, dás-me a loucura das noites
Dás-me o silêncio e a paz.


( Todas as fotos por MD Roque)








                                                       

domingo, 19 de julho de 2015

Robbing Souls

"A melhor coisa sobre uma fotografia, é que ela não muda mesmo quando as pessoas mudam"

Andy Warhol




O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio.


Machado de Assis








É fantástico olhar um céu azul pontuado de flocos brancos que vão adquirindo tonalidades espantosas com o passar da hora do dia ao sabor do sol,  de nascente a poente.







Mal acordo , olho o horizonte delimitado por telhados escuros , onde, levemente à esquerda,  uma promessa de luz começa a despontar. Capturo a imagem. Sorrio. Depois do estímulo da cafeína olho o horizonte do outro lado e sorrio sempre ao quadro, aquela pintura todos os dias diferente, parte daqueles jogos de luz e sombra, que conferem tonalidades diversas ao mar e acordam a cor da terra à medida que a luz avança.

Capturo mais uma imagem. São todas iguais à  primeira vista, mas um segundo olhar mais atento , um pormenor mais detalhado, revelará que não há duas imagens iguais.









Capturar um momento de luz é fantástico, seja ele qual for. A luz que brinca na espuma branca de uma onda que marulha , naquele papel que voa em incansáveis piruetas, na copa de uma arvore que ondula ao vento, no cristalino de uma iris garça, nas asas de um pardalito acromático que voa em contraluz...





























Em algumas culturas acreditava-se que as fotos roubavam as almas. Eu também acredito, acredito que roubem e guardem infinitamente a alma daquele nanosegundo em que se fez luz, uma luz diferente e esplendida.



Uma pedra, uma fresta,  uma flor, uma paisagem de cortar a respiração. Muitas são as vezes que a procuro, á beleza que me faz roubar a alma do tempo. Outas tantas é o acaso que a enquadra na periferia das imagens que a minha retina inverte.





Rever instantes é reviver emoções. É querer mais e tentar a todo o custo voltar aquele momento de felicidade. É mentira que nunca se deve voltar onde se foi feliz. Eu volto. Volto muitas vezes.







 Encontro o tempo parado no tempo,  a girar feito louco naquela mudança que muito poucos têm a felicidade de reconhecer.




Anseio pelo porvir, pelos anos dourados em que nadarei em rios de tempo manso e poderei decidi-lo a meu bel prazer.

Anseio criar, mas não tendo alma de artista, contento-me em poder revelar momentos da criação. Quero aprender a roubar almas, muitas, deliciar o mundo com elas. Deliciar-me a mim.





Só me entristece pensar que depois da travessia do meu Êxodo laboral, possa ter Canaã à vista e que seja apenas a miragem do meu sonho; como insondáveis e misteriosos são os caminhos de Deus,  seja eu mais um Moisés, como foi o meu pai antes de mim.





( Todas as Fotos de MD Roque)
                        





domingo, 12 de julho de 2015

My Bat Life - The Bat Nights

"O que importa não é passear de noite mas deixar a noite passear-se em nós. "

Mia Couto








Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
 vago e belo e voluptuoso,
 num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos
                                                                                  [e quedos.
 Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
 deixai que os caminhos da noite,
 cegos e rectos como o destino,
 suspensos como uma nuvem,
 sejam os caminhos dos poetas
 que lhes decoraram o nome.
 Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
 Esconde a vida no seio de uma estrela
 e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
 para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

Fernando Namora




















Saio para a rua.
A noite é terna e afaga-me o pensamento cansado
Envolve-me naquele abraço , amigo de tantos anos
São incontáveis as vezes que a noite e eu nos juntámos em silêncio e sorrimos aquele sorriso de reconhecimento mútuo.
Eu sei , sei sempre que vamos estar juntas e creio que ela sabe também.






Acima da minha cabeça sinto o restolhar das asitas de um pequeno morcego. Deve ser o trineto duma linhagem que nos saúda , a mim e à noite, todos os anos por esta altura.

Sinto-me mole, apetece-me encostar à brisa que sopra do mar e deixar-me embalar no seu arrepio morno, mas não consigo; mesmo querendo é impossível.
 A noite é ainda uma criança e conta comigo para atravessar a luz vazia até próxima manhã, assim como eu conto com ela para me deixar acordar. E recordar. A noite tem medo do escuro mas é no escuro que se transcende.

Sou uma mancha,  sou uma sombra, sou o silêncio e o ruido surdo .
A noite é minha e as duas somos uma só numa fascinante e antiga dança de  sombras que nos prende naquela nesga de espaço onde a luz não está.