domingo, 12 de julho de 2015

My Bat Life - The Bat Nights

"O que importa não é passear de noite mas deixar a noite passear-se em nós. "

Mia Couto








Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
 vago e belo e voluptuoso,
 num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos
                                                                                  [e quedos.
 Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
 deixai que os caminhos da noite,
 cegos e rectos como o destino,
 suspensos como uma nuvem,
 sejam os caminhos dos poetas
 que lhes decoraram o nome.
 Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
 Esconde a vida no seio de uma estrela
 e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
 para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

Fernando Namora




















Saio para a rua.
A noite é terna e afaga-me o pensamento cansado
Envolve-me naquele abraço , amigo de tantos anos
São incontáveis as vezes que a noite e eu nos juntámos em silêncio e sorrimos aquele sorriso de reconhecimento mútuo.
Eu sei , sei sempre que vamos estar juntas e creio que ela sabe também.






Acima da minha cabeça sinto o restolhar das asitas de um pequeno morcego. Deve ser o trineto duma linhagem que nos saúda , a mim e à noite, todos os anos por esta altura.

Sinto-me mole, apetece-me encostar à brisa que sopra do mar e deixar-me embalar no seu arrepio morno, mas não consigo; mesmo querendo é impossível.
 A noite é ainda uma criança e conta comigo para atravessar a luz vazia até próxima manhã, assim como eu conto com ela para me deixar acordar. E recordar. A noite tem medo do escuro mas é no escuro que se transcende.

Sou uma mancha,  sou uma sombra, sou o silêncio e o ruido surdo .
A noite é minha e as duas somos uma só numa fascinante e antiga dança de  sombras que nos prende naquela nesga de espaço onde a luz não está.











                                                         

sexta-feira, 10 de julho de 2015

E a vida fica para trás....

“Working gets in the way of living.”


Omar Sharif


 "Portanto, nada de contenção exagerada. O seu discernimento deve ser o seu guia. Ajuste o gesto à palavra, a palavra ao gesto, e cuide de não perder a simples naturalidade. Pois tudo o que é forçado foge do propósito da actuação, cuja finalidade, tanto na origem como agora, era e é erguer um espelho diante da natureza. Mostrar à virtude as suas feições; ao orgulho, o desprezo, e a cada época e geração, sua figura e estampa. O exagero e a imperícia podem divertir os incultos, mas causam apenas desconforto aos judiciosos; àqueles cuja censura, ainda que de um só, deve pesar mais em sua estima que toda uma plateia de ignorantes.





William Shakespeare, in "Hamlet"










"I don't like people who have never fallen or stumbled. Their virtue is lifeless and it isn't of much value. Life hasn't revealed its beauty to them"


Zhivago





"In time to come, I tell them, we'll be equal
 to any living now. If cripples, then
 no matter; we shall just have been run over
 by 'New Man' in the wagon of his 'Plan'."

Zhivago's Poems












De entre os filmes da minha vida , destaco sem grandes demoras Dr. Zhivago e Lawrence of Arabia, duas obras grandiosas desse excelente director que foi David Lean, ambas protagonizadas por Omar Sharif.

Omar Sharif deixou-nos hoje com 83 anos. Sofria de alzheimer.
Creio que todos os que o viram como Yuri Zhivago ou Sherif Ali, nunca o esquecerão. Ele já se esquecera de si próprio e das grandiosas histórias da história de que fez parte.


Estará sempre na memória de todos aqueles que ainda gostam de bom cinema e para quem a História Mundial não é apenas um passatempo, é um registo da vida.












"Does it surprise you, Mr Bentley? Surely, you know the Arabs are a barbarous people. Barbarous and cruel. Who but they! Who but they! "


Sherif Ali


"Truly, for some men nothing is written unless THEY write it."


Sherif Ali



Até sempre, egípcio misterioso. Que Alá te guie até ao poço onde beberás e te refrescarás para a tua última viagem




PS: Nem sei se alguém se lembra de eu ter contado que o meu primeiro animal de estimação foi um cágado, a quem muito apaixonadamente chamei Omar Lombrando :)

sábado, 20 de junho de 2015

O Borrão

"Em vez de pintar coisas puseram-se a pintar ideias."


Ortega y Gasset







Tempo — definição da angústia.
 Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
 Ao coração pulsátil dum poema!
 Era o devir eterno em harmonia.
 Mas foges das vogais, como a frescura
 Da tinta com que escrevo.




Miguel Torga










Divago no vazio do olhar que preguiça, volto a olhar e não me chegam os detalhes, não os sinto, não me falam. Baixo a mão desanimada que segura o pincel e reparo que os braços disformes que marcam o tempo indicam que já passou muito.

Que perda de tempo estar a olhar tanto tempo para o vazio, para aquela terra de ninguém, onde nem as ideias se esboçam arquitectadas em pensamentos ou fantasias.

Também quem me manda aceitar pintar  ideias dentro de um prazo ?

Eu que nem sei a forma que um prazo tem e agora há prazos para tudo. Como garantir que não pintarei qualquer ideia já fora de prazo dentro do prazo que me deram ?

Comecei bem, cheia de ideias. Chegavam-me aos molhos, em  catadupas, ouvia-as fervilhar-me ao ouvido, bem dentro do pensamento. Depois foi-se instalando a inevitável inquisição sobre a qualidade, a prioridade, a assertividade, a originalidade,  a validade,  ... sobre toda e qualquer idade em que se cria e desenvolve uma ideia...

Pincelada aqui, dripping ali, frottage acolá, a ideia foi ganhando cor e dimensão. Durante breves momentos,  cheguei a senti-la corpórea e poderosa.

Deve ter sido uma noite desesperada aquela em que não consegui segurar a ideia e ela desapareceu.

Agora para aqui estou, a olhar o infinito na parede crua meia dúzia de palmos à minha frente, presa a um pincel de tinta escura,  a criar profundidades tristes como abismos vagos de ideias.

Ping !

Então? Então? 

Ainda entorpecida pela inação noto que um pingo negro se desprende displicente mas veloz do pincel que equilibro relaxadamente nos dedos.

Olho, procuro, vasculho... nada !

Atento na coluna da direita, onde estão os magos das letras e noto uma sombra sobre o Delito. Pode ser só opinião minha, mas o marafado do pingo fugiu pelo link . Esperto que só ele, pensou que poderia esconder-se naquela floresta densa e colorida de ideias, ideais e opiniões, megalómano como ele só, cogitou no seu íntimo que uma mancha poderia ascender aos píncaros da cultura em toda a sua magnitude. Que mesquinhez querer elevar um borrão ao estrelato!

Encontrei-o anichado entre o Pedro Correia , a Francisca Prieto e o Rui Rocha, a tentar acinzentar-lhes a prosa, não fosse para tal necessário muito mais do que uma simples nódoa. Esmaguei-lhe a intenção com a manga da camisa. Não causara dano.

Foi então que a ideia entrou de rompante, como aquele pé de vento naquele Domingo à tarde que virou tudo de pantanas e ninguém deu por ele:
Vou pintar esta ideia sobre a ascensão e queda de um borrão egocêntrico, insolente, prepotente e atrevido, sobre uma nódoa de alma de sombra negra em todas as suas nuances e tonalidades.


Grande ideia esta!

Até já lhe sinto as cores ! 

Aposto que nunca na história da humanidade surgiu ideia mais original !