"Não mudamos com a idade na estrutura do que somos. Apenas, como na música, somo-lo noutro tom."
Vergílio Ferreira
É bom envelhecer!
Sentir cair o tempo,
magro fio de areia,
numa ampulheta inexistente!
Saul Dias
Chamam-lhe terceira idade. Não acredites em tudo o que para aí dizem.
Pode ser verdade que , como num bom livro, a capa se deteriore com o manuseamento constante da procura de muitas passagens, mas o que conta realmente é o que está para lá do impactante desgaste que o encerra. O que é de valor é a graciosidade e a excelsitude do que contém o seu interior.
És assim, tu
Uma primeira edição, um tomo semi secular com um ou outro sinal da erosão de muitos dias, mas valioso e único.
És sim, para mim és único.
Se fráguas passaste, o tempo deu-te leveza no transpor, trouxe-te a maturidade, a sabedoria e a candura de um avô e a elegância de viver que só quem alcança os sessenta anos com um sorriso de menino consegue entender.
Sempre me entendeste e apoiaste, mesmo naquelas insanidades que viram uma existência do avesso. Hoje como antes, ris-te de ti, ris-te de mim, e juntos rimo-nos de nós e levamos a vida com um sorriso. Sorrir é fundamental. Rir é catártico. Sempre soubeste. Sempre riste e soubeste fazer-me sorrir.
Sempre me deixaste ao leme do barco, enxertando-me com tua força quando as ondas escoiceavam selvagens . Se tempestades desabavam , na segurança dos teus braços enxuguei com ternura a água que me escorria do rosto e eu sabia ali, naquele segundo, que tudo iria ficar bem.
Tal como sei hoje. Sei. Sei-te de cor.
Quando estendes a mão e me levas à estratosfera do esplendor, eu deixo-me levar por ti. Até ao fim do mundo, se quiseres. Porque sei que me trarás de volta ao meu aconchego. Ao nosso borralho.
E é ou não verdade que o que é antigo tem mais valor e sempre muita beleza ?
"Tornas-te eternamente responsável por tudo aquilo que cativas"
Antoine de Saint Exupery
Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.
Antoine de Saint Exupery
Ter um blog dá trabalho.
Ter um blog é quase como ter um filho que necessita muita da nossa atenção.
Eu sou um raio de uma mãe desnaturada. Não tenho ligado muito ao catraio.
Ultimamente tenho praticado o que vi e ouvi na minha juventude em Nandufe: " é deixá-los andar, deixá-los livres, soltos e alegres, que medram felizes e homens de bem."
Contudo há que lhes alimentar a alma, porque corpo airoso sem alma, definha e perece e não ressurge nem nas lembranças de quem fica quanto mais nas de quem passa.
Não gosto de encher chouriços. Já o fiz tantas vezes sem me aperceber, outras conscientemente, na prática e in loco, na verdadeira acepção da coisa, como escrevi em Porcos e Maus, no Paleolítico das minhas lides blogosféricas.
Nunca me defini como a escritora que não sou, nem como a blogger que gostaria de ser. Sou apenas uma piquena entradota que escreve coisas quando tem uns minutos a mais no cronómetro milimétrico dos seus muitos afazeres.
Quantas vezes não me esfalfo para me recompensar com o almejado intervalo, me sento à secretária, olho o monitor e não sai nada... eu bem espremo, a sério, mas são demasiadas as vezes que a atenção me chama para outra realidade.
Até a cabeça anda por outras paragens, mais arejada, mais calma, mais adaptada á nova dimensão das coisas... eu bem tento fazê-la descer à terra e extrair-lhe ideias divergentes, cadentes, luminosas que, como estrelas num céu escuro, consigam compor a tiara brilhante que por fim iluminará a triste sina deste enteado que criei como filho e depois votei ao esquecimento e ao abandono.
Tem dias que lhe dou algum tempo e lhe estendo a mão, qual soberba rodeada de órfãos que agracia com sorrisos e a moeda que compra pão mas nunca afecto. E eu gosto dele, do meu blog, é meu... mas quero senti-lo, quero amá-lo, não quero que seja a obrigação que move o dedo que prime a tecla. Não o quero o meu sem abrigo particular.
Quero que quem leia me encontre aqui, em cada letra, cada ponto, cada virgula, cada sorriso ou em cada lágrima.