sábado, 21 de fevereiro de 2015

Fiel Amigo

"Responsabilidade: um fardo descartável e facilmente transferido para os ombros de Deus, do Destino, da Sina, da Sorte, ou do nosso vizinho. Nos tempos da astrologia, era comum descarregá-lo para cima de uma estrela"

Ambrose Bierce




(...)Serei talvez isso tudo…
E depois ? Em que me hei-de dar? 
Gira o tempo, gira a vida,
E tudo sempre a mudar !
Quem sabe lá os destinos
Que Deus tem para nos dar

Arminda Frade ( do meu livro da 3ª classe)









Apesar de ser um ideia de valor e a considerar seriamente em futuro próximo, não serão estas linhas uma dissertação sobre as propriedades e qualidades do bacalhau, como proteína de eleição na mesa dos portugueses, prato principal obrigatório de muitas consoadas, típico na patanisca e bom no pastel, fonte de inesgotável ómega 3, essa gordura poli-insaturada imprescindível na diminuição dos níveis de triglicerídeos e LDL e consequente promotora de gentes saudáveis. Acrescentei-o à minha to do list, quem sabe não inspirará no mínimo um soneto ou uma ode.

Sendo eu pessoa mais ligada a astronomias do que a astrologias, acredito que o universo se rege e nos rege de algum modo misterioso e insondável, mas que somos mais afectados pelas decisões que tomamos e caminhos que seguimos, do que pela constelação em ascendente no dia e hora em que respirámos ar pela primeira vez.

Na elíptica celeste do Zodíaco, tenho, ao que parece, a vida governada pelo astro rei e o mau feitio do fulvo felino de quatro patas e dito rei da bicharada. Por outro lado, noutras leituras celestes, estas em anos lunares, calhei de brotar para a vida num ano sob a influência do melhor amigo do homem.

É inevitável que se me afigure que até os astros se conjugam em qualquer das leituras para me pôr de quatro com a vida, mas parece que afinal até é bom, que são aparentados quadrúpedes, muito dados às artes e ao saber, com brilho e modéstia qb.

E eis-me assim, meio doce, meio selvagem... agridoce, portanto : "odeio  a injustiça, com um coração nobre que me leva a lutar contra o que considero injusto e tirânico, no entanto não sou muito conflituosa e prefiro sempre o caminho diplomático sobre a opção violenta, sou adaptável e sei aceitar as limitações da vida "...  mas atenção! : "Sou criativa e extrovertida,  prepotente e mandona, serei  até uma pessoa arrogante, orgulhosa e com muito mau génio. Posso ser intolerante e dogmática, mas em geral sou boa, idealista e inteligente."

Confesso que leio os horóscopos. Não os procuro. Leio por ler, se casualmente me deparo com eles e sorrio sempre com a leitura. É naturalíssimo que adivinhe algo de mim em todo aquele emaranhado de contra-sensos.
Mas no novelo de qualidades e defeitos que compõem a personalidade da nativa de muitos sois e tantas luas, há algo comum que considero acertado: sou responsável, sou alegre, sou fiel e sou amiga. 
Sou sim e basta-me saber que sou constante como a primeira estrela, o anjo da manhã que saúda a aurora e recebe o ocaso.





                                                        

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

De mim, para mim.


"Quando procuro o que há de fundamental em mim, é o gosto da felicidade que eu encontro."
Camus






(...)Gosto, como os animais das florestas e dos mares,
 De me perder durante um grande pedaço,
 Acocorar-me a sonhar num deserto encantador,
 E forçar-me a regressar de longe aos meus penates,
 Atrair-me a mim próprio... para mim.


Friedrich Nietzsche






Depois de mais uma noite com o jetlag da Alice a reaparecer assim do nada, como um post-it do subconsciente a relembrar que as intermitências do descanso e do cansaço andam de mãos dadas e são inseparáveis univitelinas, saltei do calor que já sentia quente demais para a amenidade do tapete afegão, provavelmente contrafeito no Afeganistão e vendido aos incautos num saldo fantástico, um autêntico negócio da China, como acreditei na altura.

Bem empantufada, dou de caras comigo a olhar para mim, como uma expressão de desdém trocista, como que a chamar-me a atenção para a minha própria figura de matrona de cabelo grisalho desgrenhado, encafuada num robe polar, por cima de um pijama polar , pálpebras inchadas e boca seca,  numa  ruidosa tentativa de fazer entrar algum ar pelas fossas nasais intumescidas com a proverbial sinusite ... um figuraço.

 Mesmo ao lado, o meu Dorian Gray olhava-me do alto, fabuloso nos seus 18 anos de mulher esbelta de grandes olhos castanhos e farta cabeleira escura . Deve sofrer horrores todos os dias, sem conseguir perceber qual o passe de mágica ou o bruxedo que resultou naquela deformidade.

Acode-me a lembrança das vaporosas camisas de noite em cetim negro delgadas como um traço fino num retrato a carvão.
Sorrio para mim, com aquele sorriso conformado de quem sabe que não pode alterar uma escultura que o tempo vem cinzelando devagar. Tentar mudar-lhe a forma, seria descaracterizá-la por completo e não representaria a mim própria nem a ninguém.

Se eu pudesse escolher ser alguém diferente, tenho a forte convicção que escolheria ser a MD Roque, com o seu mais de meio século nas ancas, com todas as partidas que a força da gravidade lhe pregou, com os mesmos olhos castanhos que não perderam o brilho e falam com quem os souber entender e com todo o saber que de tanto não é nada na realidade, mas que me faz feliz por o saber comigo.

Aqui só para nós, acho que até gosto de mim. 
Quero-me assim









                                 

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Novidade

"O que mais importa não é o novo que se vê mas o que se vê de novo no que já tínhamos visto."

Vergílo Ferreira





The News



Here is The News:


'Two incredible shoes.


Two incredible shoes.
That's The News.

When it rains
they walk down drains.

They glow
in the snow.

They grizzle
in a drizzle.

They sneeze
in a breeze.

They get warm
in a storm.(...)





M. Rosen












Não sei ao certo em que altura da  vida se iniciou o meu processo de mecanização.
Deve ter acontecido entre o adormecer numa noite escura e fria e o acordar num dia triste e cinzento, com o som amargo do despertador a chamar para mais uma realidade diluída nos anos que já passaram comigo aqui. Resmunga-se o grunhido habitual à alvorada que ainda não despontou e vai-se a ver se chove.
O meu andamento ritmado toca diariamente as mesmas notas, toada descomposta de som e de cor, batida constante e cadenciada, mecânica, igual. É a minha normalidade. É o que dá o tom ás horas que compõem os meus dias, todos diferentes e sempre tão iguais entre si em cada minuto que passa. Não passa nada. É bom. É normal.

Não sei ao certo em que altura da vida criogenizei os pensamentos e opiniões para servirem o advento da minha imortalidade futura. Sempre acreditei que enquanto de mim houver memória numa memória do porvir, o nome da minha identidade terá a imortalidade fugaz que a minha normalidade conferiu à minha existência.

Mas sei precisar ao milésimo de segundo o momento da vida em que a minha normalidade sofreu o mais forte abalo telúrico de sempre. Um bomba feita gente pequena que mexeu com os meus dias, revolveu as minhas horas, revirou os meus minutos, os meus tons e os meus sons.
No degelo dos ideais, encontrei uma verdade maior e um sentido único com derivações de cor e sabor a vida nova.