segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O alquimista da vida

"O amor tem a virtude, não apenas de desnudar dois amantes um em face do outro, mas também cada um deles diante de si próprio."
Cesare Pavese





[...] E abraçam-se de novo, já sem asas. 
Homens apenas. Vivos como brasas, 
A queimar o que resta da inocência. 

Miguel Torga







Acordou indisposta e ansiosa. Quem sabe nem tenha sequer dormido. Estava cada vez mais pesada e os enjoos e as tonturas atacavam quando menos esperava. 

Como ansiava que aquele dia terminasse... 

Para quê tudo aquilo, tanta preparação, tanta gente, tanta confusão? 
Bastar-lhe-ia ele, ambos de mãos dadas, olhos brilhantes e fé no futuro.

Mas não. Não podia sair-se assim tão airosamente depois do infame pecado da luxúria. A vergonha, o desrespeito, a rebeldia... A família olhava-a de soslaio, balançados ainda na decisão da letra escarlate ao peito. Não fora o receio de que o estigma da infâmia os alcançasse também, certamente a marcariam ostensiva e garridamente,  para poderem lavar a honra na praça pública, na boca das comadres, dos alcoviteiros e alcoviteiras profissionais, dos que dizem cobras e lagartos e dos outros que, por não terem o que fazer, tecem teias de vulgaridade, onde a ignomínia e a maldade pura e simples se entrelaçam em pontos laboriosos e intrincados e onde a vida dos demais ganha a forma que as línguas viperinas moldam no asco das mãos que gesticulam imparáveis, apontando a dedo todos os caídos em desgraça.

Deixou que a levassem no torvelinho da insanidade. Fez-se formosa e segura, afivelou um sorriso complacente e deixou-se guiar pelo braço do pai, ingénuo pai aquele, que a olhou com a adoração que só a ignorância poderia permitir.

Ele esperava, traído pelos nervos, olhos brilhantes com lágrimas mal contidas, igualmente desejoso daquele ocaso. Ouviram surdos todas a palavras, repetiram-nas como sorridentes bonecos de corda a quem se puxara a argola presa ao fio  que lhes pende das costas. Trocaram juras mecânicas. Sorriram-se cúmplices. Sorriram-se cúmplices durante todo o tempo em que a luz brilhou, até aquele momento em que a lua rasgou as nuvens e se perderam nos braços um do outro, sem fingimentos, nem falsidades. Eram  finalmente eles próprios, finalmente sós, os três. Finalmente felizes. 
Passaram 34 anos. Ela sorri com aquela conformação agridoce, à falta que lhe fazem os que já não estão. Pensa nos que virão e aí o sorriso rasga-se com o brilho fulgente de milhares de sóis.
Jurou nunca julgar, criticar, amesquinhar quem pecasse por amor. Até porque amar não é pecado, é a suprema alquimia, a única criação do homem que vale realmente a pena.




                                

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Torn Curtain

"Cresce junto o que foi criado para estar junto"

Willy Brandt



“Havia uma palavra no escuro. Minúscula. Ignorada. Martelava no escuro. Martelava no chão da água. Do fundo do tempo, martelava. contra o Muro. Uma palavra. No escuro. Que me chamava.” 


Eugénio de Andrade







Nasci em ti
Vivi para ti
Respirei a tua voz
Bebi cada mandamento com a sede da convicção.
Dei-me a ti
Dei-me a mim
Dei-te os frutos da minha árvore
Pensei os teus pensamentos
Foi sempre tua a minha vontade
Obedeço-te porque te pertenço
Porque me enclausuras ?
Porque me amordaças com as farpas do arame que me cerca?
Porque me agrilhoas ao betão que me empareda?
Porque não me amas como sempre a ti  amei?




O Braço de Ferro que mantinha firme a cortina psicológica, a mesma que serpenteava abjecta, infame e obscena por mais de 65 quilómetros de agonia, como um corte pútrido, uma fissura longa e inflamada que dividia a alma de um povo, começou a ceder.
Foi Schabowski, sinónimo de a partir de agora, quem sem querer abriu um rasgo, uma pequena fresta que  alargou pela força do perfume a liberdade que a aragem fresca transportava do lado de lá. 
E as asas presas em décadas de opressão , encontraram espaço e voaram exultantes e libertas.
Foi ontem, há 25 anos atrás



                               

sábado, 1 de novembro de 2014

The Russians are comming , the Russians are comming !

"Uma das grandes lições da vida é que os tolos às vezes estão certos." 

Winston Churchill



"O erro está nos meios, bem mais do que nos princípios." 

Napoleão Bonaparte






Não sei o que pensareis vós acerca destas notícias sobre as incursões russas a oeste. Até porque nem as entendo bem:  a oeste já faz tempo que não há nada de novo.

Estarão seguramente a cumprir ordens, estes filhos de um Putin que pariu este novo conceito de passeio de MIG à zona exclusiva da NATO? Em assim sendo, para quê o bombardeiro ? Não estaremos nós cansados de ser incessantemente bombardeados com notícias como esta, verdadeiras, sem dúvida, mas canibalizadas até à medula para conseguirem  suscitar o alarmismo necessário que eleva fracas audiências à potência máxima?

"Às armas! Às armas! sobre a terra e sobre o mar..." subentende o decrépito General, o maior especialista militar do rectângulo, do tempo em que as buchas e a estopa eram de carregar pela boca dos mosquetes, que agora estão às moscas.
Quedei-me a ouvir, sem saber o que pensar. A história sustenta-lhe as palavras criteriosamente escolhidas, que desencadeiam a desenfreada produção da adrenalina imperiosa ao alerta vermelho que desponta em todos e cada um de nós.

Em segundos, passamos do alerta laranja em que apascentamos vai para quatro anos, directamente para o alerta vermelho que indefine o porvir, atentos, advertidos, vigilantes. Se já aconteceu vai para 75 anos, numa conjuntura deficitária, obra de um insurgente alienado e do seu séquito de fanáticos, é absolutamente legítimo pensar que a história se possa repetir mais uma vez, em circunstâncias de idêntica fragilidade.

Conforta-me o irónico pensamento que, de casa arrombada,   rotos ,  esfomeados e praticamente despidos de riqueza, não seremos decerto presa cobiçada por pretensos invasores,  seja qual for a sua cor.

É a guerra ! É a guerra !... ou é chegar, ver e fugir?