domingo, 19 de outubro de 2014

Mrs. Brown

"A infância é como a água que desce da bica, e nunca mais sobe."


Camilo Castelo Branco


"E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós"

Alvaro de campos








Arde-me nos olhos o aroma inconfundível das castanhas assadas no carvão. Tusso com o fumo e salivo ao mesmo tempo por gulosa antecipação. Sou louquinha por castanhas.

O meu Avô , trajando um robe de chambre verde ervilha, sentava-se à mesa da cozinha com uma imensa malga  cheia de castanhas fumegantes que tinha acabado de assar naquela ânfora de barro com buracos no fundo. Despia-as cuidadosamente, fazendo estalar a casca enfarruscada sob a suave pressão dos dedos , abria-as com desvelo pelo golpe transversal e colocava um pedaço loiro de manteiga, daquela quarta que a avó tinha trazido da leitaria embrulhada num papel vegetal. Repartíamos. "Toma" dizia, "Prova assim, é muito bom". E era, era delicioso e fantástico aparar na ponta da língua  gotas divinais de manteiga derretida e apressar-me para que o calor da castanha a não dissolvesse por completo.

Depois, depois chegava a Bisavó Júlia a arfar de cansaço,  com um enorme pão escuro dentro dum saco de pano que tinha um bordado a ponto de cruz e que ainda cheirava a quente. Cortava uma fatia que barrava com o doce de tomate que a Avó Adelaide tinha naquele armário escuro, o da enorme porta de madeira amarela, sempre cheio de frascos com letras, e então era um toca a lambuzar.

A Mãe era mestre em castanhas cozidas, com sal, açúcar e muita erva doce e costumava pô-las já sem casca na minha cestinha da merenda, dento de um saquinho de guardanapo com uma flor e a letra D bordadas a azul e amarelo. Adorava sentar-me num banquinho debaixo da pérgula grande no Jardim Botânico da Ajuda, com o fraco sol outonal a brincar-me com as pernas, a merendar o pãozinho com marmelada e as castanhas da minha Mãe. A água gelada no repuxo do bebedouro completava aquele festim sempre tão reconfortante.

 Perdeu-se a mística dos magustos de S. Martinho onde o Pai era presença emblemática , sempre com a sua acompanhante preferida. Perdeu-se mesmo a tradição das castanhas no dia 11 de Novembro , acompanhadas pela prova do vinho novo, ou da água pé, ou até mesmo da jeropiga na qual que me deixavam por o dedo gordo e provar o ardor.

Provavelmente a minha cada vez mais próxima mudança de estado  - sim, porque ser avó é seguramente  o supremo estado de graça na vida de uma mulher resolvida- faz-me recuar no tempo e regressar aos dias mais felizes da minha vida. Recordo-os com muita frequência, muita saudade, nostalgia e alguma tristeza. Pelos que foram, pelo que eu fui, pelo que se perdeu.

Passei metade da minha vida num correr constante onde o tempo nunca me deixou tempo para parar.
Cadenciarei o passo. Impõe-se um abrandamento. Não posso deixar o tempo continuar  a correr  veloz como um pé de vento tornado furacão,   que me desenraíze de vez . Quero poder mostrar à Alice que as coisas que são como são, nem sempre foram assim. Ja foram diferentes, e boas, e felizes.

Acredito que a minha neta irá gostar de viajar na máquina do tempo das minhas memórias.





             

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Carrossel

"A  coisa  mais impressionante  que existe são os olhos dos cavalos  de carrossel , olhos  que parecem estar gritando  " avante ! " -  enquanto  eles ,nos  altibaixos  do galope , jamais podem sair  do mesmo círculo ." 
Mário Quintana




Todos os dias os encontro. Evito-os.
 Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles.
 Já não me confrangem.
 Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer.
 Vençam lá, à vontade.
 Sobretudo, vençam sem me chatear. 

Alexandre O'Neill










A música não é sequer musical, não é melodiosa, não flui no ar como bolhas de sabão que reflectem rostos contentes e arco-íris de satisfação. É mais um som de ruidoso contentamento, misturado com tinir de vidros e porcelanas, risos e choros de crianças, gargalhadas e reclamações de indignação.
A luz é doce e difusa, entrecortada permanentemente pelas sombras dos que sobem e dos que descem, sombras grandes, pequenas, largas, estreitas, amargas ou confortadas. 
É a magia do carrossel, no seu esplendor centenário, que atrai as idades como insectos para luz , em filas intermináveis e ordeiras, todos expectantes e entusiasmados, todos contando os minutos ao segundo, todos desejando chegar rápido a sua vez de subir no carrossel.

A velha que carrega no botão olha-os a todos já sem os ver. São tantos, tantos anos, , tantas caras, tantas vozes, tantas e tão diferentes auras de emoção. Vão entrando e ocupando os lugares , a cavalo num alazão de madeira, numa girafa ou num leão, numa carruagem sem corcel, numa chávena de chá que rodopia incessante. A velha faz soar a buzina e começa mais uma volta. São minutos de deleite em que a realidade fica à porta e a fantasia se segura pelas rédeas daquela crina de palha. São momentos para saborear, para degustar com a sensibilidade e a pureza da infância, que se intromete por um instante e abafa a acrimónia da soberba e a alienação da existência.

A velha não precisa de ver para saber. O carrossel é antigo , mas é sólido. Como qualquer carrossel que se preze, ondula pelos altos e baixos do seu percurso fixo naquele mastro central, transportando os seus passageiros num arrebatamento de doçura e emoção, com pequenos objectos espelhados,  reflectindo trejeitos mélicos de bulício colorido e adocicado.
A velha sabe que os tempos são outros e que todos querem a atenção dispensada a monarcas, sentar-se em tronos de reis,  que as vénias não demorem e que se lhes afague o ego com aquele unto repelente que segregam e os torna semi-deuses no seu feudo particular.

A velha sabe que não há tronos no carrossel. É para todos, para todas as bolsas, para todas as cores, para todas as greis. Mas a velha também sabe que a ilusão da felicidade se obtém em dando a todos o que cada um pensa que o faz feliz. É por isso que a velha murmura, sorri e inventa tronos em montes de pedras.

Dias há em que os auto-reis se crêem sentados no carrossel em cadeirões magistrais de veludo bordado a ouro. Então a velha sabe que esteve bem,  apesar de não poder deixar de pensar no quão ocas e tristes de viver serão aquelas  vidas arrogantes.



                                   

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A Alice ainda não mora aqui...

"Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era,mas acho que já mudei muitas vezes desde então"
Lewis Carroll



 " - Quanto tempo dura o eterno?"
"- As vezes apenas um segundo!"

Lewis Carroll








Quero contar-te de mim, enquanto tens a pureza necessária para ouvir dos idosos e das suas excentricidades de velhos.
Ainda não chegaste, por isso o mundo ainda não te atingiu, não foste tocada pela dormência do consumismo, da falsidade, da intransigência e da desinformação informada. A falta de moral e de compaixão, a vaidade e o egocentrismo ainda não estenderam a pata negra e vil na tua direcção. 
Vai acontecer. Acontece sempre. É a realidade... Podem tentar, podem, conseguir é que eu duvido.

Deixa que me apresente: Eu sou a avó D. Sou mãe da tua mãe.
Adorei-te desde o momento em que soube que do zigoto se fez gente pelo milagre do amor.
Estas coisas do amor são difíceis de explicar, mas garanto-te que a tua mãe e o teu pai se querem tanto bem, que decidiram criar a mais bela extensão que pode existir desse bem-querer e que essa criação és tu, minha flor.

Confesso que no princípio queria um neto homem. Não fiques triste, porque é uma daquelas excentricidades de pessoa antiga, de que falei acima. Sabes, esta tua avó teve duas filhas, duas meninas lindas, não tão lindas como tu, mas bonitinhas, vá. Gostava de ter um neto homem, para o ver crescer a ensinar a marcar golos, como o pai, ou a deslumbrar os alunos com a sua beleza e oratória, como a mãe, mas principalmente para lhe transmitir os meus valores de velha avó sobre as coisas da vida, para lhe ensinar que os olhos nem sempre vêm o essencial e que as mulheres são a oitava maravilha do mundo e que como tal devem ser tratadas. 
Há uma regra fundamental que faz funcionar o universo : Mãe é a palavra sagrada, o ventre que gera, a fonte da vida.
Todos somos filhos do cálice da concepção e como tal ligados no nascimento pela dor e pelo sangue. Sofremos igual, não precisamos infligir mais sofrimento.

Tu, quando te juntares a nós, já trarás toda esta informação gravada no teu ADN; é assim com as mulheres, sabemos as coisas que ninguém nos ensinou porque somos tão especiais,  mas a tua Mãe, a tua  avó D,  a tua avó M e a tua bisavó I tratarão de te ensinar a aplicar bem toda a sabedoria feminina  que  o teu genoma traz na bagagem.

Pronto, pronto, não bocejes mais, que termino azinha, piquena apressada! Eu sou muito teimosa, muito mesmo. Chata também, e refilona, e mandona, e barulhenta... mas no fundo sou mole como o mel e doce como uma nuvem grande e fofa, que está lá no alto, sempre vigilante. Tenho dois braços em concha e um colo grande; sempre que precisares de aconchego, a avó está aqui para ti, desde o primeiro segundo até à eternidade.

Quero também informar-te que te vou estragar com mimos, mas suspeito que já sabes. As mulheres tem um faro especial para estas coisas.


"A única forma de chegar ao impossível, é acreditar que é possível."
Lewis Carroll


Acredita, Alice, acredita sempre, minha princesa!