domingo, 27 de julho de 2014

Meu, Minha.

"Guie uma criança pelo caminho que ela deve seguir e guie-se por ela de vez em quando." 

Josh Billings




Apesar da idade, não me acostumar à vida.
 Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca.
 Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição.
 Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento.
 Esquecer em cada poente o do dia anterior.
 Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória.
 Nascer todas as manhãs.

Miguel Torga



   Este pode estar um pouco mais desfocado, mas é o real deal e  não o fui buscar à internet :)



Levo-te a vida de avanço. Tive pressa de viver depressa, não quis parar mais cedo para te esperar.
Agora espero. Aguardo expectante, ansiosa, impaciente.

Quero-te tanto que tenho medo de te querer aqui.

Aqui não é lugar para ti. Não é um lugar bom , não é um lugar de paz e entendimento. Não há leite nem mel, nem beleza em cada amanhecer e os arco-íris expelem convulsivamente o fumo negro que os envolve cada vez mais. 
A felicidade que vem, chega  em pequenas gotas e esfuma-se na secura da raiva e no calor do ódio.

Quero-te tanto que tenho medo de te querer aqui.

Todos os dias são às dezenas, ás centenas, talvez mesmo aos milhares os rios de lágrimas de dor e desespero a engrossar lagos de mágoas que espelham nuvens de tempestade, em que a violência se anuncia em cada atroar e cada clarão .
A fogueira da impotência é sufocada pelo ar que se esvai por entre os dedos e deixa presas na garganta as palavras que não conseguimos pronunciar.

Quero gritar que te quero, que te quero tanto que tenho medo de te querer aqui, mas o som foge como num eco longínquo que não te dá retorno nem esperança.
Que te posso eu oferecer, como te poderei proteger, se a única pertença férrea que me é intrínseca é a minha vontade e até ela tem vacilado demais...

Quero-te tanto que tenho medo de te querer aqui, porque te amo, projecto do meu fruto, sangue do meu sangue, amo-te sem te conhecer, porque és meu também e como te levei a vida de avanço, dou-te de presente a que resta, porque vou vivê-la para ti.


                                   

terça-feira, 22 de julho de 2014

Till Death do me (a)part...

"Pedirei a abolição da pena de morte até que me demonstrem a infalibilidade do julgamento humano" 

Marquês de Lafayette



[...] A segunda categoria é composta por aqueles que infringem as leis,
 os destruidores e os propensos a isso, a julgar pelas suas qualidades.
 Os crimes destes são, naturalmente, relativos e muito diferentes;
 na sua maior parte exigem, segundo os mais diversos métodos, a destruição do presente em nome de qualquer coisa melhor.
 Mas se necessitarem, para o bem de sua teoria, saltar ainda que seja por cima de um cadáver,
 por cima do sangue, então, no seu íntimo, na sua consciência, eles podem, em minha opinião,
 conceder a si próprios a autorização para saltarem por cima do sangue[...]

Dostoievsky







Desde que me conheço, sempre fui contra a pena de morte.

Nas leis dos homens e nos métodos de obtenção de provas tem sempre uma percentagem de falibilidade, as culpas nem sempre são provadas sem qualquer sombra de dúvida e já passámos há muitos séculos a selvajaria dos primeiros legisladores, que apesar de sábios governantes, eram violentos e sanguinários. A Lei de Talião o, Apocalipse 13:10 ou o Código de Hamurabi, deveriam ser estudados como a pré-história das regras de justiça em sociedade e não continuarem a ser aplicadas e aprimoradas na sua adaptação aos tempos modernos, estes, os da cólera que transforma homens em seres irracionais, vingativos e maus. 
Estamos a pouco menos de 600 anos de  entrar naquele estágio superior de conhecimento, aquilo a que se chama a Era de Aquárius, onde tudo é fraterno e simples, a igualdade social é um facto, dominaremos  num nível espiritual, intelectual e centificamente superior a todo o entendimento até então alcançado.
Será possível que tenhamos que esmagar mais de dois mil anos de existência para aniquilarmos trevas com  trevas e  alcançarmos a luz?

Com o evoluir dos acontecimentos neste presente que nos foi dado a viver, em que numa base diária Ucranianos, Russos, Ruandeses, Al Quaedas, Israelitas, Palestinianos do Hamas,  Somalis, Mcveighs, Breiviks, Demirovics , ou até mesmo Harris e Klebolds, jogam  vidas numa insana roleta russa com armas compradas na internet a pessoas tão ou mais desprezíveis do que os próprios criminosos, porque os armam com arsenais destruidores, conhecendo-lhes bem  o fim e embolsando lucros que fariam de Cresus um pobre diabo, pergunto-me sobre o amanhã.
Vem-me à ideia uma frase de Nietzsche :

"Aquele que luta com monstros deve cautelar-se para não se tornar também um monstro.
Quando olhas muito tempo para o abismo, o abismo devolve-te o olhar."

Continuo a achar que tornarmo-nos assassinos de assassinos não resolve nada, não devolverá ninguém à vida,  mas não será o único meio de conseguir o tão precioso desfecho, o encerramento, o fim tão necessário à sanidade mental de quem passou as piores provações?

Nunca serei a favor da pena de morte, mas será que terei a coragem necessária para desviar o olhar em silêncio , quando ouvir o ranger das dobradiças e o alçapão do cadafalso se abrir para o vazio ?




                                     

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Em queda Livre

"Então os três espíritos os reuniram no lugar que, em hebraico, é chamado Armagedom."




Por detrás das árvores não se escondem faunos, não. 

Por detrás das árvores escondem-se os soldados 

com granadas de mão. [...]

[...]Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar. 
São os silvos das balas cortando a espessura do ar. 

António Gedeão







O Capital, o Poder  e a Loucura , filhos ingénitos dos originais quatro cavaleiros bíblicos, apoderaram-se do pensar dos homens. Atulhados de ideais obsoletos e podres,  debilitados pela Idade da Corrupção depois de eras de pecados em que os sete primordiais, os ditos mortais, se multiplicaram à velocidade da mutação de um SARS tresloucado e vingativo, não ofereceram os humanos qualquer tipo de resistência, deixando-se apoderar, almas negras invadidas pela Loucura do Poder que o Capital providencia aos quilolitros e cuja alcoologia ultrapassa qualquer graduação convencional e inebria até à total inconsciência.
Não há memória de tempos assim. 
Não há memória do valor duma vida humana não ter referência positiva, seja no NIKKEI, Dow Jones ou DAX : ou  está em queda livre permanente ou então é abatida, como hoje  aconteceu.
Vidas perdidas, esfumadas, desfeitas... vidas ceifadas antes de serem vividas... aquilo a que comummente se chama danos colaterais. 
Como poderemos ter sequer a veleidade de nos auto-proclamarmos a raça superior ? Nós os humanos, o único animal que mata pelo prazer do sangue e não por qualquer outro instinto inscrito no seu código genético que o impele a sobreviver ? 
Assusta-me fechar os olhos e não sentir nada, nem pesar, nem raiva, só a apatia de quem já está habituado a estas corriqueirices.