quinta-feira, 10 de julho de 2014

Falareis de nós como de um sonho ...

  "Falareis de nós como de um sonho."
Jorge de Sena 





Eu gosto das aldeias socegadas, 
Com seu aspecto calmo e pastoril, 
Erguidas nas collinas azuladas - 
Mais frescas que as manhãs finas d'Abril. 

António Gomes Leal



(o Avô Zé Roque, o Tio Manuel da Moca e o Tio Daniel)


Para mim "Ir à Terra" era sinónimo de aventura, avançar pelo desconhecido, fazer-me forte quando o medo vinha, chorar à noite e fechar os olhos receosos dos monstros que se escondiam por detrás de cada sombra da janela.
Eu e a Mãe somos alfacinhas, mas o pai, albicastrense de gema, primogénito de uma família numerosa de Gaviãozinho, Santo André das Tojeiras , desenvolveu as costelas de Alis Ubbo quando, com apenas um ano de idade, veio viver com os padrinhos para a capital.

Os avós continuaram no seu pacato vilarejo à beira da Ribeira do Ocreza, na sua pequena casa térrea com um sótão escuro, lareiras em cada quarto, um jardinzinho murado e um anexo com um forno de cúpula alva e redonda, onde se cozia o pão e se preparavam todos os doces e cozinhados importantes das festas.
Os bolos da Avó Hortense, com erva doce, azeite puro e mel, eram famosos nas redondezas.

Não havia estrada para lá chegar, só um caminho com frequentes lombas de grandes pedregulhos negros, barreiras naturais difíceis de ultrapassar pelos automóveis de então.
O percurso fazia-se de comboio até Castelo Branco, onde o Avô Zé Roque e o tio Manuel da Moca e mais dois ou três compadres, nos esperavam com uma  récua bem selada que fazia o transporte até ao Gaviãozinho.
O perfume das estevas em flor na beleza agreste da paisagem,  foi marcado a ferro e fogo na minha memória de criança. Passe o tempo que passar, uma fragãncia leve, vindo sabe-se lá de onde,  acorda a recordação e tenho outra vez 4 anos e grito do colo da Mãe "Arre macho!" e ela ri, com aquele sorriso tão lindo e tão jovem, o mesmo que ainda hoje conserva nos lábios enrugados.

O Avô saia cedo, tratar dos animais, regar os campos, colher diospiros que me dava às colheradas e que ainda hoje adoro comer... A Avó preparava o mata-bicho e seguia com a merenda que aprontara a juntar-se a ele. A mãe cozinhava o almoço para os de fora e só os voltávamos a ver à tardinha, quando regressavam do campo , sempre com um afago e uma flor para a menina. Conversávamos e riamos à mesa do jantar, à luz de candeeiros a petróleo com os vidros desenfarruscados que brilhavam uma luz quente e difusa.  Juntavam-se tios e primos, uns que conhecia , muitos que nunca vira na vida. Conversavam e cantavam, com o avô a dedilhar a guitarra. No fim, as mulheres como era costume, arrumavam as loiças que iam lavar em grandes alguidares de barro, os homens iam fumar e conversar para o jardim,  e o Avô Zé pegava-me ao colo e levava-me a ver as figuras no céu, que era branco de luzes numa noite de breu.


( A pequena D, adorava os banhos de rio, ao colo  da Mãe)


Tomar banho no rio era uma festa; "as de Lisboa", de fato de banho e touca, eram uma visão do paraíso para os moçoilos habituados a saias compridas e colarinhos apertados. A Tia Adelaide, que acompanhava sempre estas expedições e não vestia fato de banho, ria a bandeiras despregadas e tão intensamente, que se chegava a pensar que a sua saia molhada, não o fora pelas águas do Ocreza.
O rio era frio , mas tão transparente que se viam os peixinhos curiosos debicar junto aos nossos pés. Lembro-me de ter uma cuequinha de banho vermelha com bolinhas brancas e muitos folhos, que me almofadavam o assento e eu chapinhava feliz.

Devia andar pelos meus oito anos, quando a Avó Hortense desenvolveu um problema grave e incurável de bronquite asmática, que juntamente a uma condição cardíaca pré-existente não lhe permitiria viver muito tempo se continuasse no Gaviãozinho.
Venderam-se terras na "terra" e comprou-se uma quinta com casa e estábulo na Barra Cheia , perto da Moita, para os avós se poderem mudar e terem alguma qualidade de vida.
Foi como trazer uma bela planta silvestre  e transplantá-la para um vaso, numa terra distante. Pegou, floriu, mas perdeu o viço, a cor e o cheiro, e os Avós nunca mais foram os mesmos. Estavam por cá, mais saudáveis, mais cuidados, perto dos filhos e dos netos , mas a alegria da sua alma, essa ficara naquele vilarejo da Beira Baixa, enterrada numa sepultura triste e sem nome, onde nunca mais ninguém lhe descobriu o rasto.


                                
(Precious Memories, by Bob Dylan & Willie Nelson)

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Aprender o b-a-ba

"Pegamos o telefone que o menino fez com duas caixas de papelão e pedimos uma ligação com a infância."
Millôr Fernandes



Muitos não sabem quanto tempo e fadiga custa a aprender a ler. Trabalhei nisso 80 anos e não posso dizer que o tenha conseguido.

Johann Goethe






Não me lembro se já vos contei  que comecei a falar com 6 meses( foi há tanto tempo...).
 Não fui aquilo a que na altura se chamava um bebé Nestlé, não tinha  aquele atractivo olhar azul cristalino e bochechas rosadas, encimados por fulvos e brilhantes caracóis. Era uma trinca-espinhas normal com grandes olhos castanhos e cabelo da mesma cor, que nasceu com o condão de repetir tudo o que ouvia desde tenra idade.
Claro está que em competição com uma arara decerto não levaria a melhor, mas rezam as crónicas que falava pelos cotovelos e que desde que pronunciei a minha primeira palavra - guardanapo - nunca mais me calei. A Mãe conta orgulhosa que houve entrevistas à família para o jornal local e que com 10 meses, contei para um gravador de bobina ( inovação tecnológica da altura) a história do Lobo e dos Sete Cabritinhos, recostada no sofá vermelho da avó com o livro no colo, virando as páginas e modulando as respirações e os compassos de espera, como uma verdadeira profissional da oratória Grimiana.

Como é óbvio, não tenho qualquer recordação dos meus tempos de vedeta de bairro e se algo me ficou do meu génio oratório, foi a paixão pelas palavras, sobretudo pela palavra escrita. 
Mesmo nos meus anos académicos, a minha retórica era largamente suplantada pelos jogos de letras, que os meus dedos faziam deslizar pelo papel como pequenas peças de puzzles coloridos e harmoniosos, num bailado singelo e preciso, até formarem o desenho que a minha imaginação pintara.

Lembro-me como se fosse hoje da mala castanha com fivelas, do estojo de madeira com uma tampa deslizante que fazia as vezes de régua e que continha um lápis, uma borracha e um apara-lápis, lembro-te tão bem da sebenta cor de papel pardo com um estudante na capa, do caderno de duas linhas e da Cartilha Maternal João de Deus. 
As letras eram velhas conhecidas, como desenhos e formas. A sua sonoridade, o valor de cada uma e a ciência de saber juntá-las em dissílabos e polissílabos , formar palavras, frases, parágrafos e textos, foi a cartilha do b-a-ba que me ensinou. 

A primeira vez que li sozinha uma notícia de jornal, inchei de orgulho. Toda a vizinhança ficou a saber que a Feira Internacional de Lisboa estava transformada numa galeria de arte infantil por ter em exposição os trabalhes de "O Natal visto pelas crianças", e quando perguntavam como sabia eu disso, retorquía toda lampeira "Li no jornal, ora essa!"

Da cartilha depressa passei aos livros escolares que tinham capas patrióticas e crianças de braço estendido e sorrisos perfeitos, acrescentei ao material escolar um frasquinho de tinta permanente, uma caneta de aparo, um caderno pautado, um quadriculado e um de desenho, uma folha de mata-borrão e uma caixa com seis lápis de cor Viarco. Quando completei a quarta classe com vinte valores, o Pai ofereceu-me uma caneta Shaffer numa caixinha forrada a cetim, que passou a ser o meu maior tesouro. Também me deu autorização para tirar livros das estantes e ler.

Mal ele sabia que acendera o rastilho da minha maior e mais explosiva paixão, aquela que dura e durará tantos dias quantos os que me for permitido andar pelas bandas de cá.

                            

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Três-Cinco-Cinco-Zulu-Tango- Foxtrot

"No meio da dificuldade encontra-se a oportunidade."
Albert Einstein


"O divórcio entre o progresso e as pessoas, a impossibilidade que a maioria já mostra para o acompanhar, alheando-se da realidade, será um sinal de que está perto o dia em que já não será possível acelerar mais. Para uns será o Apocalipse; para outros simplesmente o início de uma nova era."

José António Saraiva




Três-Cinco-Cinco-Zulu-Tango-Foxtrot, repito , Três-Cinco-Cinco-Zulu-Tango-Foxtrot, ... zzzzzzt zzzzzt...nada, só estática, white noise, nada se propaga pelo éter nas frequências que tentei. E ainda tentei algumas com as quais me lembro  ter conseguido excelentes DX nos meus tempos áureos da Banda do Cidadão.

Nunca ninguém deu muito crédito às previsões apocalípticas que se vêm tornando cada vez mais frequentes à medida que o tempo passa, mas acredito que a NASA, a ESA e os chineses  sabiam que a tempestade solar geomagnética iria dar cabo dos satélites, anulando todo e qualquer tipo de comunicação sem fios e atirando-nos de novo para a pré-história da globalização. Era previsível que acontecesse mais tarde ou mais cedo e os altos dignitários da informação espacial optaram por não informar do "bloqueio temporário" para não criar o caos e levar ao o pânico das massas e a tragédias de proporções inimagináveis.

 Já passaram sete meses e não acredito como não enlouqueci.

 Felizmente há luz eléctrica à noite, mas tive que comprar um pequeno fogão a gás para cozinhar uma refeição quente diária. Só uma por dia, porque o gás está a ser racionado e eu quero que dure enquanto durar o "bloqueio temporário". Olho com tristeza para o meu tablet, companheiro de tantas horas de chats em todas as redes sociais onde estava registada... eram tantas, tantos amigos, tantos LOLs, tantos likes, tantas apps que ligavam os gadgets entre si para me manter sempre actualizada, sempre online.
Carrego-os todos à noite quando chega a luz e a primeira coisa que faço quando chego a casa é verificar se já funcionam para que eu também possa voltar a funcionar.

Escrevinho e guardo os meus escritos sempre na esperança que possa fazer um post ou dois no dia seguinte, ou ligar-me à rede por breves minutos, até segundos... preciso, preciso tanto de falar pelos dedos ,  só eu e o meu teclado virtual e toda a world wide web onde passei metade da minha vida de adulta.

Pego num livro todas as noites e leio meia dúzia de páginas... ajuda à privação mas não é o bastante. Diz que o tempo também remedeia, mas não me parece para aí virado. Passa lenta e penosamente. As horas transformam-se em dias, os dias em meses e continuo à espera que acabe a provação, porque quero sentir-me viva de novo, preciso respirar a normalidade da vida que interrompi abruptamente há sete meses atrás.

Sinto-me regredir, embruteci. Estou mais magra mas com algum tónus , musculada e agradável  de tanto subir e descer escadas com um elevador parado no rés do chão. Todos os dias trago a fruta ,os legumes e a proteína que consegui arranjar na fila para a comida fresca e dou graças pela minha psicose - assim diziam - de ter uma dispensa farta. Faço dois ou três pães à noite para não estar mais outra hora na fila; leite, guardo-o em pó . Olho tristemente os meus pacotes de café em grão; são uma relíquia e tenho 4. Tinha seis, quando começou o "bloqueio temporário". Noite sim, noite não tomo um, acabado de moer, escuro, aromático, sem açúcar. Sabe-me pela vida... 

Não consigo impedir as lágrimas de correr. Ainda ninguém recuperou do choque, mas a vida continua e temos que nos habituar. Temo que a situação seja para durar e que dias mais difíceis virão. O desalento deu lugar àquela força instintiva que nos impele à sobrevivência. As notícias que nos chegam com a luz à noite, são sempre animadoras... como quase sempre o foram nos últimos 15 anos, mas pelo menos ainda estamos vivos e o céu que nos cobre é a fantasia de qualquer poeta e sonho de qualquer pintor.

Três-Cinco-Cinco-Zulu- Tango- Foxtrot, repito , Três-Cinco-Cinco-Zulu- Tango- Foxtrot, ... zzzzzzt zzzzzt...