sábado, 28 de junho de 2014

A Céu aberto


 "O meio! Eles é que são o meio, assim perdidos, duplos, comprometidos com a podridão até à raiz "
Miguel Torga. 




Vai ter olhos onde ninguém os veja 
mãozinhas cautelosas 
enredos quase inocentes 
ouvidos não só nas paredes 
mas também no chão 
no tecto 
no murmúrio dos esgotos 
e talvez até (cautela!) 
ouvidos nos teus ouvidos 

Alexandre O'Neill




És o conhecimento que não quero ter, o ar tóxico que me fede nas papilas, o odor a viscosidade que me agonia no estrépido do caudal em decomposição. Não quero sentir-te,  nunca mais.


 Nem sei se o pior é o que não dizes  ou se a verborreia que proferes com a mesma violência cega de pedras afiadas que projectas no ar, lapidares e contundentes, tão cheias daquela tua razão de esgoto putrefacto, contra a qual é inútil contrapor.


És tu quem sabe de tudo, és tu aquele a quem a escola da vida ensinou mais que mil canudos, aquele que tem sempre opinião formada até sobre o que não conhece, mas que se gruda à suas convicções canónicas como se fossem as únicas, as puras verdades imutáveis que o criador de todos os mundos no expoente máximo da sua ubiquidade, decidiu transmitir a ti e a ti unicamente.

Vives naquele mundo que criaste à tua imagem, onde todos são ignorantes e cegas ovelhas e tu o poderoso Polifemo Rex, a estagnada grande autoridade na matéria, toda ela. 

Como um Morlock desprezível tentas incutir através de insidiosa osmose  a tua visão distorcida da realidade a todo e qualquer incauto Eloi que desconheça o teu poder de devorador de almas, que trituras , esmagas e moldas à tua empáfia  para logo  descartares como lixo, excremento, porcaria, tão depressa chegue uma nesga de  luz àquele  buraco negro onde encarceras as suas mentes por ti re-formadas e deformadas.

Como um vírus peçonhento, contagias tudo e todos, traiçoeiro, viperino, rastejante e nojento,  vives do alheio que respiras e que alimenta a tua soberba, e que te faz salivar de prazer à medida que o vicias e contaminas .
És o conhecimento que recuso conhecer. Um monstruoso e fétido esgoto que corre a céu aberto para um oceano saturado de podridão.


                            

terça-feira, 24 de junho de 2014

Livros

"Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro." 
Jorge Luis Borges





Vi um livro no lixo e arrepiei-me pensando que há livros que nascem mortos. Pode-se viver sem ler ? [...]Os livros são janelas. Hoje vou abrir uma delas.


Vasco Pinto de Magalhães







Gostava de viver num livro.
O livro é aquele companheiro silencioso que tem o poder de te abstrair do espaço e do tempo, de te transportar na crista de uma onda, cabelos ao ar e borrifos salgados de mar e sangue, alvoroço e aventura,  por entre troar de canhões,  gritos e mastros quebrados  que tombam  gementes, arrastando consigo as cruzes derrotadas , trapos rasgados e sujos que o orgulho oco não insuflará mais. 
Os meus livros falam comigo. Abrem-me portas para o espaço brilhante de nebulosas prenhes de mundos esdrúxulos tão atípicos e monumentais como as criaturas que neles habitam e que, como o livro que seguro, comunicam sem falar, sem som nem movimento,  límpida e cristalinamente como se eu fosse um naufrago sequioso de saber e o conhecimento a única panaceia. 
Aquele terceiro na estante acompanhou-me na caravana de mercadores que atravessou meio mundo até Cathay e Manji; dois tomos a seguir sorri-me o que me levou à ilha dos homens pequenos e de regresso pela terra dos gigantes. Na prateleira de cima sinto o cheiro das Ramblas à noite , de Macondo ao entardecer e oiço o pregão das bahianas coloridas com perfume de cravo na areia do agreste.
Baixo-me e retiro o último do trasmontano dos países baixos, que me intriga pela objectividade da escrita, que me faz sempre pensar em biografia, sempre, sempre que o leio.
Lá no alto, inacessíveis e ostensivos, estão os grandes. Os maiores em tamanho e preferência também. O que canta o peito ilustre lusitano ao lado duma série de lombadas iguais em cor e diferentes em tamanho, todos da família daquele  que nos mostra o interior austero do Ramalhete. Com um pequeno busto do cego a separá-los ressalta a sua própria obra épica, bem como o clássico do romano que lhe dá seguimento. Este último confidenciou-me que o amor é algo terrível , que destrói corações e leva à loucura e à morte. Os russos, na prateleira abaixo confirmam que sim,  que a confidência do colega é exacta, basta lê-los também. 
São tantos, tão  interessantes e fartos no saber das coisas que  contam, que me encantam e fazem desejar mais e mais, cada ver mais, dezenas, centenas, muralhas de cultura e fantasia, camaradas de muitas horas,  amigos de sempre.
Os meus livros falam comigo, contam-me coisas, fazem-me rir, chorar, ficar suspensa dum gesto, reter a respiração, acelerar a pulsação, encantar o coração.
Viver num livro é viver muitas vidas, é enganar o tempo e renascer continuamente, no mar nos céus, nos desertos, com o sol ou com a lua, em descrições tão vivas como quadros renascentistas ou fotos de alta definição.
Sem palavras sonoras, só com a magia e a emoção que te sussurra ao olhar enquanto a seguras e avidamente mudas a página.



                             


São 500 os amigos que seguem os escritos deste blog. 
Obrigada e bem hajam.

sábado, 21 de junho de 2014

Enigma

"Se fazes questão em reflectir sobre o enigma da vida e do universo, vê se te despachas depressa, que a espécie humana qualquer dia acaba."
Vergílio Ferreira



"Quem só tem o espírito da história não compreendeu a lição da vida e tem sempre de retomá-la.
 É em ti mesmo que se coloca o enigma da existência: ninguém o pode resolver senão tu!"

 Friedrich Nietzsche





São os enigmas mistérios ? São os mistérios enigmas?
Será um mistério mais enigmático quanto mais misterioso se apresentar, ou vice versa, como diz Newton com a sua encriptção do calculo  6accdae13eff7i3l9n4o4qrr4s8t12vx ?
A ambiguidade do inexplicável explica que a explicação é um simples anagrama cuja cifra decifrada diz que "Data aequatione quotcunque fluentes quantitates involvente, fluxiones invenire; et vice versa"( “Dada uma equação que contenha um número qualquer de quantidades fluentes, encontrar as fluxões, e vice-versa”) , o que para muitos continuará a ser o enigma dos enigmas.

Será mais misterioso o enigma da Esfinge ou mais enigmático o mistério dos rapanuis ?
Será a Enigma criptográfica e decifradora mais um dos mistérios da criação humana ?
Será o amor um enigma repleto de mistério, ou o mistério mais enigmático de quantos mistérios existem ?
Será o mistério indecifrável duns olhos negros o enigma - chave do códice duma alma em ebulição ?
Será o enigma da sombra de um sorriso um dos mistérios maiores dos iluminados renascentistas ? 

"Misteriosos são os caminhos do senhor" diz a enigmática frase que à luz do sagrado explica ao profano o enigma da existência, como se fosse o bastante para aplacar a inquietude e a dor.

Se a vida for um enigma e a morte um mistério, como explicaremos o Mistério do Ovo, o que apareceu no quintal, o que não era da porca, ou da gata ou da coelha e estava cheio de vida ?
E o que dizer do enigma das pirâmides que eram túmulos que glorificavam a morte?

E que direi eu de refeições light onde pululam verduras enigmáticas e moles,  de paladar duvidoso e indefinido , que misteriosamente me fazem ganhar o peso que deveria de perder? Se amanheci com 4 pernas e conquistei o uso de duas, gostaria de conseguir  alcançar tranquilamente o crepúsculo da terceira sem ser a rebolar, mas esse mistério é um enigma de palavras tão cruzadas, que por muito que desencruze não sei se saberei se será o bastante para me cruciar.