"Mas a realidade é esta: não temos um projecto de país. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. As pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto. "
José Saramago
Um País de Canalhas
"Pensar Portugal. Nós somos um país de «elites», de indivíduos isolados que de repente se põem a ser gente.
Nós somos um país de «heróis» à Carlyle, de excepções, de singularidades,
que têm tomado às costas o fardo da nossa história.
Nós não temos sequer núcleos de grandes homens."
Vergílio Ferreira
Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta sim o que poderás fazer pelo teu país e obterás resposta igual para ambas as perguntas : nada.
Não esperes nada do teu País pois ele já nada tem para te dar.
Deu-te um berço, uma língua, uma identidade, a noção de pertença a algo grandioso que transcende éticas individuais. Deu-te a vã glória de integrares a história e as histórias daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando. Deu-te liberdade e democracia. Deu-te valor.
E tu retribuíste, com o teu percurso de inclusão social, com a tua aprendizagem , com o teu estudo, a tua qualificação, o teu trabalho, com o teu suor , até com as tuas lágrimas. É chavão, é cliché, é legítimo.
Poderia dizer-se que se igualaram no dar e no receber, não fora a oligarquia que escolheste para te guiar e formular as leis que regem cada minuto do teu dia ditar cada vez mais e o ditado ser cada vez mais draconiano e os mandos dos ditantes cada vez mais ditadores.
Olhas em volta e num hemiciclo de eleitos, não encontras um rosto que exprima rectidão, experiência, solução... tampouco honestidade cívica. Cada palavra é subliminar, repleta de sinónimos que são hiperónimos , hipónimos que são parónimos, antónimos que são homónimos.
E tu olhas mas não vês, escutas mas não ouves, tocas mas não agarras, falas e nada dizes, porque te perdeste dos sentidos e já não consegues sentir mais nada. Até o desespero ou a raiva já se conformaram e segues com o rebanho, sem pastor nem pastagem, sem bússola nem compasso, indiferente aos pontos cardeais, porque afinal o que és tu senão mais um ponto colateral perdido nestas linhas tortas que ninguém sabe endireitar.


