segunda-feira, 28 de abril de 2014

Do Prazer do Som

"Descansa do som no silêncio, e do silêncio digna-te tornar ao som."
 Victor Segalen



Da Música

A musica derrama-se 
no corpo terroso 
da palavra. Inclina-se 
no mundo em mutação 
do poema. 

[...]

A música rompe um rio de lava 
por si mesmo criado. Lágrima 
endurecida 
onde cabem o mar 
e a morte.


Casimiro de Brito









É já depois de amanhã.
Depois de  quase 20 dias em travessia neste deserto repleto de gente, ruído, confusão, problemas, tristezas e alegrias, chega finalmente avalon. 
Eu sei que estou a ser precipitada, que estou a salivar por antecipação, que estou a criar demasiadas expectativas, mas pensar nesse porvir tão perto, tão alcançável, tão apetecível e precioso ,torna-me mais leve, mais alegre e bem disposta. 
Hoje ouvi música.
Oiço música todos os dias. As falas são música, os motores são música,  o tinir do vidro que choca levemente, os cliques dos obturadores que fecham e abrem... passos apressados são música, o som do vento que sopra, o cristal da água que corre, o crepitar do doce aroma  fervente, tudo é beleza, som e música... Leio música nas palavras e oiço palavras na música que folheio e que sigo religiosamente dia após dia.

Hoje ouvi a minha música, aquela que me fala aos sentidos e provoca sentimentos e que tomo como minha, porque me pertence, me preenche e me faz vibrar. Deixo o som invadir-me, elevar-me o espírito, tomar-me nos braços e falar-me de mansinho tudo aquilo que eu quero ouvir. Fecho os olhos , vejo o filme da minha vida a preto e branco, sinto o a luz refractar-se , cheiro a proximidade da cor que me cobre, como um bálsamo e expludo em lágrimas de cansaço e sorrisos de gratidão.
Mais poderoso que o som do silêncio, só o som da tua vida. 
É já depois de amanhã que soltarei  notas ao vento e inalarei profundamente os acordes que a luz do sol fará entrar por aquela fresta minúscula,  onde num rodopio  as claves tensas dedilharão cordas insanas e eu, esfomeada de mim, mergulharei no frenesim do prazer dos sons e  serei una outra vez.




                                

OMD- Souvenir

sábado, 26 de abril de 2014

Soledad...

"Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém – é a isto que é preciso chegar." 

Al Berto




[...]A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade.
 Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade.
 Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.[...]


Arthur Schopenhauer









Irrompem com a fúria da madrugada que se torna manhã,  vêm às catervas, aos  bandos,  dezenas,  centenas, milhares, turbas alacres  numa arrazoada  constante, numa babel de sons e tons, dialectos , cores e formas.
São a música de fundo da minha vida, a trilha sonora do filme no qual sou a actriz principal e eles, os actores secundários que todos os dias me invadem o olhar e o ouvir, são como anti-corpos  batalhadores,  travando constante e feroz combate contra o antígeno da calmaria, até o conseguirem erradicar por completo.
É neste mar revolto em ondas de caos organizado que passo os meus dias, é aqui que o tal tempo que me acompanha tem lugar cativo e sorri para mim, desdenhoso da minha azáfama, do meu cansaço, da minha confusão.
Despida a couraça que me cinge e avara de paz, busco  o meu soldo  para correr à locanda mais próxima e me embriagar com solidão. Tomo-a avidamente, encharco-me nela,  em goles fartos,  sequiosa, apressada, temerosa que não me chegue... quero mais e mais, até deixar de sentir, até me invadir aquela dormência sonolenta da inconsciência que chega. As pessoas são vultos borrados e escuros, as luzes, pequenos pontos que se desvanecem e o som, lento e desfasado,  enrola-se  na ressonância do silêncio e desliza num mutismo de acordes surdos até calar por completo a voz.
É no entorpecimento que me encontro ; oiço a minha voz e abraço-a com força, com aquela saudade de quem se sente distante e só no meio dum dilúvio de indivíduos ecléticos e cacofónicos,  todos os minutos dum tempo que ainda é seu.
Como um naufrago à deriva, agarro a tábua que flutua e deixo-me levar com a maré, ansiando a hora em que a letargia chegue, me embale e me traga consigo para me poder reencontrar na minha solidão.


                                   

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Falar Liberdade

"Ser pela liberdade não é apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros."Nelson Mandela



Dizer Não

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Vergílio Ferreira






"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado.
 Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos.
 Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos!
 De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto.
 Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui! "


Por onde andava MD Roque naquele dia,  há quarenta anos 


Não era a Nini, mas tinha quinze anos. Bonita e recatada que só eu, vivia num ambiente engraçado cheio de frases à boca pequena e segundos sentidos que eu nem sempre conseguia alcançar. O Pai e a Mãe trabalhavam e eu e os mais pequenos desempenhávamos o melhor que podíamos e sabíamos a nossa função na sociedade: éramos  estudantes obedientes,  lentes doutos e subordinados, nas nossas filas indianas aos pares, nas nossas canções com dezenas de bocas a uma só voz, com os nossos fatinhos onde despontava o emblema da mocidade que representávamos tão bem, a de Portugal, a patriótica, que enchia o concelho de ministros de orgulho, um bando de ditadores velhos carunchosos, manobrados pelo maior e mais inteligente de todos, que nos presenteavam com a sua visita nas escolas, onde os professores se desfaziam em gentilezas de ocasião, vazias e tristes, e éramos quase sempre agraciadas com uma festa na cabeça, ou em dias especiais, uma beijoca repenicada na bochecha. Lá íamos, cantado e rindo, tão indiferentes à realidade que nos rodeava, como nos encontramos ainda nos dias de hoje, mas isso agora não vem ao caso.
Naquele dia de Abril, o sol amanheceu fresco e um tanto envergonhado, comi a torrada com o Ovomaltine e fui para o Liceu a pé, para poder gastar os dois escudos dos transportes em guloseimas no Confeiteiro.
A aula das oito horas era de Ciências da Natureza e a professora não apareceu. Passámos meia hora num forrobodó daqueles inenarráveis,  que só acontecem quando ninguém está a observar.
Uma contínua com olhos de choro veio à sala e mandou-nos ir para o ginásio, onde uma directora a tremer como varas verdes nos informou que não teríamos aulas, mas só poderíamos sair do Liceu se nos fossem buscar. A mãe foi buscar os mais pequenos e um vizinho foi buscar-me a mim.
Em casa, a mãe estava lívida e chorava sem parar. Não sabia do Pai, que era um pachola inconveniente e já tinha tido espírito santo de orelha por mais de que uma vez.
O Pai demorou a chegar; vinha vermelho e eufórico. Agarrou-nos aos quatro num abraço sentido e falou " agora já podemos falar à vontade ! Nem mais um soldado para o Ultramar"
O telefone fartou-se de tocar, juntou-se imensa gente lá em casa e eu fui ler para o quarto as "Viagens na Minha Terra " e  o "Frei Luis de Sousa" que eram matéria do teste sobre Garrett marcado para o dia seguinte. Escusado será dizer que não acontecu.

Assim chegou o advento da democracia, da liberdade, do socialismo. 
E foi lindo ver marés vermelhas agitadas pelos ventos da mudança, cantar em plenos pulmões músicas de intervenção que estavam acorrentadas a sons mudos , sentir asas e poder deixar a imaginação voar.
Que emoção indescritível, para uma miúda de 15 anos, rato de biblioteca e pouco habituada a cavalarias altas...
Durou pouco e como tudo o que se toma  em demasia, causou uma ressaca bruta e brutal.
Embriagados pela liberdade, esquecemo-mos que só somos realmente livres se o nosso conceito de liberdade não colidir com os ideais dos demais.
Foi nessa altura que li Animal Farm  e 1984 e tive o meu primeiro vislumbre do que é realmente a política. 
O desencanto não demorou. Já o contei e cantei...
Na alvorada de uma nova realidade, madrugou-me o pensar, acordei para a vida e vi.