"Os avarentos não crêem numa vida por
vir, para eles o presente é tudo.
Honoré de Balzac
Puxando um avarento de um pataco
Para pagar a tampa de um buraco
Que tinha já nas abas do casaco,
Levanta os olhos, vê o céu opaco[...]
Para pagar a tampa de um buraco
Que tinha já nas abas do casaco,
Levanta os olhos, vê o céu opaco[...]
João de Deus
Quando Dickens escreveu o Conto de Natal, inspirou-se
seguramente no modelo Tia Adelaide. A Tia Adelaide, irmã do Avô Américo e filha
da Bisavó Júlia era uma mulher e pêras. Não era uma beleza e sempre foi “adoentada”,
recitando o seu rol de maleitas a todos os que com ela privassem, mas sobreviveu
a dois maridos, a uma crise económica com consequências financeiras desastrosas
, à tuberculose e ao tempo.
Nasceu com a
República em 1910 e cresceu com as dificuldades comuns às pequenas famílias das
classes trabalhadoras de então. Foi servir para um palacete na Lapa com 9 anos
de idade. Com 13 foi trabalhar para o Confeiteiro ( a Antiga Confeitaria de
Belém) a embrulhar rebuçados. Aos 18 casou com o Tio João, dono de mercearias e
bem na vida. Aos 22 era viúva, sem dinheiro e sem saúde, sobrevivente à consunção
que lhe levou o marido.
Era prima direita da Rosalina e do querido Francisco Gomes, e as noitadas de fado com a Amália deram-lhe animo e forte determinação. Ganhou forças para seguir em frente e começou a vender frutas
e legumes numa pequena banca do Mercado de Algés. O negócio depressa prosperou e
a vida floresceu de novo, tendo contraído segundas núpcias com o Tio Marcelino,
excelente pessoa mas mais dado ao descanso do que ao trabalho, o que tornou a Tia
Adelaide num Scrooge de saias, que administrava a casa e os negócios com mão de
ferro e unha de fome.
Como família tradicional,
passávamos os Natais sempre todos juntos, sempre às dezenas, sempre com muito barulho, sempre com muito comer e sempre com uma panóplia de aromas fantásticos.
Um Natal, há muitos, muitos anos, o Pai foi presenteado com
um estupendo peru , que tinha tão
somente o pequeno problema de estar vivo. Claro está que a Tia Adelaide - A Velha Máquina, como era carinhosamente apelidada - se
propôs logo a tratar da saúde ao bicho. Munida duma garrafa de bagaço, alguns
jornais, uma faca e um alguidar ( como nos romances eheheh ), fechou-se com a
imensa ave na marquise da casa de Belém. Ainda a vi dispor os instrumentos de
degola qual Dexter avicida, e literalmente montar o bicho. Depois só ouvi. Ouvi o estrondo, o espalhafato, a gritaria, a
tragédia, o horror… Então segundo rezam os anais, foi bem sucedida na
decapitação e no sangramento da ave, mas não esperava que depois de morto, o
peru se revoltasse e corresse pela varanda fora sem cabeça, aspergindo gotas
vermelhas de vida por todo o lado e num último torpor vingativo, entornasse o
alguidar do sangue que correu livremente pelo ralo para o quintal da vizinha,
pintando um dripping digno de meter qualquer Pollock num chinelo. Aquele não
foi com certeza um Natal Branco, mas foi bem lavadinho.
Mesmo com a família a diminuir, a tradição manteve-se e
continuámos a passar Natais juntos, com peru na mesa , mas de preferência assado (um mimo de crustáceo cozinhado com muito amor e paciência ), bem acompanhado com
Roupa Velha, Arroz de Miúdos, batatas novas com alho, alecrim e mel, castanhas
e esparregado com puré de alho.
A Tia Adelaide marcou presença enquanto a deixaram as suas 95 primaveras,
levando-nos às lágrimas com as suas tiradas filosóficas enquanto ruminava vorazmente
sem qualquer dente ( placa, só para a fotografia...) vários pratos de comida. Aceitava alegremente todas as
partidas que lhe faziam (como a Mousse de chocolate com azeitonas, na qual
achava os pinhões muito rijos…)… era uma personagem e tanto. Agora é mais uma
linda recordação no Panteão das Memórias Felizes da nossa vida.







