sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Madness


"É uma infelicidade da época, que os doidos guiem os cegos."- William Shakespeare


Todos temos a nossa dose de loucura, que passamos a vida toda a tentar rastrear, conhecer,  manobrar e conviver.
O que é que nos faz diferentes e ao mesmo tempo tão iguais ,não é o conhecimento, nem a habilidade, nem a agilidade, mas sim a capacidade de controlar o animal que somos, de domesticar a selvajaria que nos assola, de reprimir a raiva que nos sufoca. O ténue verniz da civilização que nos reveste, estala ao mais pequeno toque  e a bestialidade que vive sob o polimento solta-se e vocifera e mata e esfola e grita e espuma e arranha…


O que é que nos faz rir incontrolavelmente de coisa nenhuma, o que é que nos faz chorar convulsivamente por nada, o que é que nos faz gritar desvarios a plenos pulmões sem  qualquer razão ?
Na era da tecnologia, onde tudo está ao alcance dum clique, ainda não há como medir a loucura, e o clique é por vezes o bastante para virar tudo de pernas para o ar.



Se eu hoje aventar uma opinião considerada polémica, sou rotulada de louca. Amanhã, noutra latitude, a mesma opinião com toda a controvérsia inerente, pode ser considerada uma tirada genial


"A ciência não averiguou ainda se a loucura é ou não a mais sublime das inteligências." – Edgar Allan Poe


O louco mais louco, debaixo da sua capa de sanidade, é provavelmente menos suspeito de ser louco do que os reconhecidamente loucos, que não tentam sequer esconder a sua loucura .


"Afinal, quem é que tem a pretensão de não ser louca?... Loucos somos todos, e livre-me Deus dos verdadeiros ajuizados, que esses são piores que o diabo! "Apesar de tudo, a loucura não é assim uma coisa tão feia como muita gente julga. Há tantas loucas felizes!" – Florbela Espanca


Mais valia não ter escrito nada, do que estar para aqui a extravasar loucuras…


“Se o cavalo tivesse conhecimento da sua força, seria tão louco que se sujeitasse ao jugo, como acontece ? Mas, caso ele se tornasse sensato e se libertasse, então dir-se-ia que tinha enlouquecido.”- August Strindberg

terça-feira, 20 de novembro de 2012

I love the smell of napalm ....


We skipped the light fandango
turned cartwheels 'cross the floor
I was feeling kinda seasick
but the crowd called out for more
The room was humming harder
as the ceiling flew away
When we called out for another drink
the waiter brought a tray
And so it was that later
as the miller told his tale
that her face, at first just ghostly,
turned a whiter shade of pale


O dia de ontem na Minha Guerra foi quase de trégua total. Um daqueles dias em que os soldados dão uns tirinhos e depois de verem que não há resposta “de lá”, aguardam que chegue a contra-ofensiva, que se afigurou esporádica e fraca, com umas investidas mais fortes aqui e ali, mas basicamente frouxa, como se o inimigo não tivesse balas para gastar.

Estando eu de revista à messe, a minha presença é requerida na linha da frente, onde alguém pediu para falar com o oficial de dia.

Duas simpáticas senhoras aguardavam que lhes pudesse dar a informação necessária para uma acção de reconhecimento, situação que segundo as normas de serviço, deverá ser explicada e posteriormente remetida para as altas esferas no quartel general, donde sairá o parecer.
Uma das senhoras que trazia consigo publicidade institucional que ilustrava o pedido, quando separou o panfleto para mo entregar, deixou-o cair no chão e rapidamente se baixou para o recuperar.

 Foi aí que aconteceu…

Booom !!! Estourou um morteiro !

E perguntam vocês: “-Estourou um morteiro?!? “

E respondo eu:”-Pois foi… um traque monumental, ruidoso, e com um rasto de destruição que se podia cheirar a quilómetros”


Acredito que já tenha acontecido a toda a gente. Falo por mim, que já tive dois ou três episódios idênticos, e o embaraço foi tanto que acho que o arco íris não é suficiente para descrever as tonalidades de desespero que me ensombraram o semblante.

Como em tudo na vida, somos sempre compelidos a rir das desventuras dos outros. Quem nunca riu à gargalhada quando viu alguém estatelar-se ao comprido no chão ? Está bem que acorremos a ajudar quase de imediato, mas o primeiro impulso é rir, ou não é ??? …Nem acredito se me quiserem impingir o contrário !!! …É primário,  básico e incontrolável !!


E eu, como bom animal humano que sou, acredito que … sorri. Disfarcei, mas seguramente que devo ter exteriorizado o frémito interior. Também penso que me recompus depressa e bem, mas a pobre senhora não. Ficou de todas as cores, passando no espaço dum minuto do vermelho vivo ao pálido embaraço. 

Estávamos no único local da Guerra onde havia alguma acção, e o estrondoso episódio foi efectivamente presenciado por mais de trinta pessoas, e garanto que todas elas tinham estampado no rosto aquela expressão imbecil do “faz de conta que não dei por isso”. Eu constatei o facto; ela também .


Como é que se tranquiliza uma pessoa completamente transtornada por ter involuntariamente feito uma figura ridícula com uma plateia considerável a assistir ? Não sei, não faço ideia… até porque o que ficou no ar não foi o amor… mexia com o faro e não era nada agradável.



Atrapalhada, a senhora embrulhou rapidamente a situação e em posse dos contactos necessários saiu o mais rápido que conseguiu.



Num dia sem história, foi sem dúvida uma presença ATORDOANTE.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Noves fora, NADA !


"Os factos são teimosos." Vladimir Ilitch Ulianov

Não sou uma pessoa de trato fácil.

Sou uma tipa porreira e bonacheirona, tenho sentido de humor( muito negro, mas sempre muito), gosto de rir e fazer rir, de piadas inteligentes e trocadilhos, de conversar , de barafustar, de reclamar, de ralhar, mas sempre com conta peso e medida, e não, não tenho dois pesos e duas medidas. Muitas vezes, por mais que me custe, ou há igualdade, ou comem todos, sabendo de antemão que uns são mais todos que os outros, mas enfim, tem que ser, porque a justiça é cega, e eu considero-me uma pessoa justa.



O PM que nos assiste ( ou então não), visitou ontem a Minha Guerra.

Sonhei centenas de vezes com o que faria se tal acontecesse; ensaiei até as falas para que saíssem primorosamente, com todas as palavras bem pronunciadas, dicção perfeita e voz bem colocada.

… Acontece que ontem, assim como anteontem, foi dia santo: são os dois dias do descanso do guerreiro, os dois dias em que dispo a farda e deixo a pele do Panda do Kung Fu pendurada num cacifo do 2º andar, e me dedico àquelas coisas a que eu gosto de me dedicar quando não tenho que ir para a beira mar pelejar . 

E foi assim que eu perdi a oportunidade de dizer ao PM que eu ajudei a chegar ao poleiro do poder, aquilo que me roí por dentro, que me envenena a alma e tolda a razão. Gostava de poder encará-lo, olhos nos olhos, e dizer-lhe que ele é um puto irresponsável, que cresceu sem nunca saber o que são dificuldades, um fraco,um impreparado, que se rodeou de gente imprestável e incompetente, um embusteiro contumaz, e que há-de ficar na história pelas piores razões, ou então nem isso, porque é certo e sabido que dos fracos, não reza a história.

Acredito que se estivesse estado na Minha Guerra ontem teria tido o gosto de encarar o homem de frente … e não lhe teria dito nada… afinal um oficial tem que honrar a farda e não pode  ser polémico: deve ser apartidário, aclubista, agnóstico… deve ser profissional.
Tem que ser experiente e sábio... 

Tenho o conhecimento com que a minha idade e anos de trabalho me contemplaram, e acho que é muito fixe ser-se intelectual e ter-se a erudição conferida pela leitura de meia dúzia de livros que explicam as coisas da vida. Então e vivê-las na pele, não conta ?
Quem fala de ânimo leve sobre revolução, greves, manifestações, violência, direitos, termos que conhece tão bem da sua ficção literária e que em 74 e 75 ainda estaria seguramente no limbo da sua existência, não sabe MESMO o que é a realidade fora da simbologia das páginas de um qualquer tomo escrito por um qualquer génio de QI à potência N.

A realidade não se aprende em livros nem se explica por uma fórmula matemática. A realidade está lá fora e apodera-se de todos os outros sentidos que não só a visão... a tal, a dos livros que os autores XPTO escreveram no conforto dos seus sofás, a tal que ninguém percebe mas todos entendem, porque é fixe ser-se intectual e entender coisas sem nexo. 
A realidade é física, há que vivê-la, senti-la,  para poder tirar a prova dos nove… senão é mesmo “noves fora -  NADA