quinta-feira, 15 de março de 2018

Separação



"Morrer — dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar "...






Não me lembro de ter nascido, mas agora que penso que existo, é porque seguramente nasci.

O nascimento vem quase sempre associado à dor da separação.

As dores do parto (agora completamente desvalorizadas com o advento das epidurais que desconheço), e as dores do neonato, aflitivas e desesperadas de quem não aprendeu a respirar gasoso e  quer desesperadamente voltar para o seu aconchego. 

Devo ter chorado também, mas tinha o peito quente da minha mãe em meu aguardo, o bater daquele coração que certamente me embalou durante os nove meses em que me abrigou no seu ventre, e a voz, aquela voz que acariciava, acalmava e ungia amor.

Desde que tenho memória, nas minhas memórias existe sempre um par de olhos cor do mar, sorridentes e meigos, afagos ternos que enchiam o coração de felicidade e um colo sereno para desabafar alegrias e tristezas.

Foi sempre assim. Mesmo quando ambas colidíamos  como fogosos meteoritos nas nossas opiniões de mulheres de signo do fogo, acabávamos sempre a rir. Sempre. De tudo. De nada.

                                                                  ...

Quis o destino que na quinta feira resolvesses descansar um pouco naquela poltrona que teimaste trazer para a casa nova, porque era a poltrona do Pai. E adormeceste, Mãe.

Acredito que sonhaste com o Pai, que eram novos, belos, saudáveis e orgulhosos dos filhos, dos netos e da bisneta. E sentiste-te tão feliz, que não quiseste voltar.

Sempre que fecho os olhos, vejo-te lá, calma , serena, descansada. Só te faltava o calor do teu embalo, porque esse acompanhou-te para que lá de longe nos possas embalar.

Naquele dia negro de vento e chuva, no dia em que completariam , tu e o Pai, 60 anos de bodas de diamante, olhando para o fumo que subia da lúgubre chaminé e que contra a força de todos os elementos da Natureza subia direitinho até se diluir no éter, soube que ias ficar bem.

Não há dor maior, do que a dor da separação.

Olha por nós com o amor com que nos guiaste sempre e que com nos ensinaste a amar.


Beijos, minha Mãe.



26 comentários:

  1. Gostei tanto de ler e ficar a saber. Ocorreu-me: "é muito bonito!" mas nesta época de "cinco estrelas" em que tudo tem de ser "top" e "brutal" o bonito pareceu até pouco. E há pessoas que não gostam que se diga bonito e querem que se diga "belo" ou "maravilhoso". No entanto o "é muito bonito!" foi o que me ocorreu e o que senti aconchegado ao peito como um gatinho assustado, ou uma pequena ave que se quer libertar. Desejei beijos também.

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    1. Para mim está ainda muito verde. Escrevi, porque não sei se consigo falar. Deixei correr. Normalmente ecrever para mim é catártico, mas ainda não encontrei catarse que me retirasse o peso do peito, o nó da garganta ou o instantâneo gravado no cerrar das minhas pálpebras do momento em que rodei a chave e entrei.
      Agradeço que tenha achado bonito o que escrevi. Agradeço .

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  2. Leio o seu blog mas nunca comentei.
    Hoje tive que o fazer.
    Dia 4 de março morreu a minha mãe e não sei como lidar com esta falta. Todos os dias penso: tenho que telefonar à mãe; tenho que lhe dizer quem encontrei hoje. Ainda digo os meus pais, quando na verdade já só tenho o meu pai.
    E não consigo chorar.

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    1. Quem me dera poder dizer que a Ana vai ficar bem rapidamente. O meu pai foi como foi a minha mãe. Sentou-se pra ver TV e nâo acordou. Faz em Abril 24 anos.
      É um processo moroso e o vazio nunca fecha, não há nada que o preencha. O tempo vai esbatendo a angústia. As lágrimas virão, Ana, por vezes por algo tão insignificante como um par de peúgas.
      Os dias festivos vão ser um tormrnto, mas as memórias felizes irão seguramente ocupar em parte a lacuna.
      O regresso às rotinas diárias ajuda. Também ainda não sei para quem telefonar de manhã, à tarde e à noite...
      A maior parte das vezes, escrevo para não ter que falar nisso, porque talvez em proferindo as palavras em alta voz, torne tudo real, tudo aquilo que ainda parece mentira.
      Ana, os meus pêsames. A minha mãe foi dia 8 ter com o meu pai.
      A Ana tem que deixar o tempo diluir a tristeza em felizes recordações , viver para os que ficaram para trás do modo que a sua mãezinha gostaria que vivessem, com alegria e amor.
      Um beijo.

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    2. Muito obrigada pela sua resposta.
      Eu sei que vou ficar bem, mas agora, apesar de eu me esforçar muito por não o demonstrar, principalmente por causa do meu pai, custa muito.

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    3. Sabe que a Ana não demonstra o que lhe vai na alma mais por causa do seu pai e quem sabe o se pai faz exactamente o mesmo por sua (vossa) causa?. Lembo-me de um terde estar com a minha mãe um mês talvez após o meu pai partir, e começamos a falar dele, nemsei bem porquê... e falamos horas e chorámos e gritámos a raiva toda. Fez-nos bem. Passamos a sorrir de muitas coisas que nos traziam constantemente as lágrimas aos olhos.

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  3. Se existe mulher que amo é a minha mãe. Amei ler o texto que, reconheço. me comoveu.
    .
    * Se te amar for pecado ... Então sou um Pecador *
    .
    Cumprimentos poéticos

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    1. Perder a mãe é de algum modo ficar amputado e ter que reaprender tanta coisa, Gil.

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  4. Deixo um abraço apertado.

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  5. Os meus sentidos pêsames.
    Que a sua mãe repouse em paz.

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  6. Uma crueldade da vida a morte de uma mãe. Sinto muito. Um texto muito belo de homenagem.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Faz parte Graça. Assinamos o contracto em dor, sangue e lágrimas no segundo em que o ar nos engasga pela primeira vez.
      Doi. Doi muito e não está a se fácil.
      Beijo Graça

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  7. Siento mucho vuestra pérdida, sin duda es lo más doloroso que hay.
    Has escrito un bello homenaje, aunque todas las palabras se quedan cortas para describir el amor de una madre.
    Es y será una buena guía ya que todo el amor que os ha dado no se ha perdido, no ha hecho más que comenzar a crecer.
    Un abrazo muy grande.

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  8. Hola Raquel. Gracias. Es muy dificile hablar. Escribo solamente.
    Abrazos

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  9. Não sei se será maior, mas que dói, dói.
    É certo, tal como é certo que vai passando.
    beijos

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  10. Um texto em forma de homenagem à mãe e à dor da sua partida.
    Muito emocionante, mas a Mãe do lugar onde está, deve ser orgulho na semente que deixou.
    Boas Páscoas
    Beijos
    :)

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    1. Quero crer que teve uma vida feliz e que está tranquila agora.
      Obrigada

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  11. Passando a fim de conferir uma excelente publicação.
    Morre a matéria, nunca morre a alma.
    .
    *Mulher; Flores e Borboletas, em sintonia poética (Poetizando) *
    .
    Votos de um dia feliz.

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    1. Quero acreditar que o breve período de tempo que por aqui não seja tudo,porque que sentido então faria tetmos vivido?

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  12. .
    Olá. Visitando, vendo, lendo, admirando, e gostando muito das suas publicações
    .
    * Foi nosso amor ... deslapidada loucura. *
    .
    Deixando votos de felicidades

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  13. Já o disse em ocasiões, mais ou menos, assim. Não é a Morte que me impressiona, é morrer. E, depois, há a Dor. Mas enquanto a dor, por vezes, se mitiga, até quando é pública, a impressão de morrer é sempre solitária. Não sei se não irá mais fundo do que a dor. Porque confunde.
    Essa dimensão a Vida encarrega-se de lhe achar o bálsamo. Porque é disso que se ela própria se faz. Nós, apenas temos o privilégio de assistir.
    (li, um pouco de viés, aqui e ali e gostei; por isso parei, aqui, mesmo que sem saber bem o que dizer. É que nos é confuso achar beleza na Morte. Mas às vezes...)
    Cumprimentos,

    jorge

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    1. A morte é a queda do pano da pequena representação que foi a vida ? Acabou a peça, mas se valeu a pena, todos os que assistiram nunca a esquecerão.
      Só podemos associar beleza à morte se não houver sofrimento, mas os poetas sem sofrimento não produzem maravilhas, por isso a morte tem a sua poesia muito própria .

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É aqui que me mandas dar uma curva