terça-feira, 14 de março de 2017

When She Was Good ( ... and still is )

Qualquer trabalho seria terrivelmente aborrecido se não jogássemos o jogo apaixonadamente.

Simone de Beauvoir







No século passado, com dezoito anos nenhuma senhorinha seria considerada propriamente uma miúda.
 Eramos cultas, responsáveis e educadas, viviamos os nossos amores e desamores e perseguíamos os nossos sonhos com a vitalidade e a esperança que só um jovem consegue manter acesa, independentemente da idade que o calendário lhe atribui.

Foi por aí que, cansada de esperar por um Serviço Cívico a abarrotar de candidatos, mas condição sine qua non para acesso ao ensino superior, parti para a descoberta do meu primeiro emprego.


Falava fluentemente três línguas  (e meia)  , era arguta e sagaz,  tinha um palminho de cara ... afinal seriam só três meses - uma Baixa de Parto (!!) - e era importante adquirir experiência na interacção com o público.

... Três meses... que mais me poderia acontecer senão enriquecer o meu conhecimento e ganhar tarimba ?

Ainda não consegui responder a esta pergunta hoje, no dia em que se completam 40 anos que aqui entrei pela primeira vez para trabalhar.


Aqui aprendi, estudei, casei , fui mãe, cresci interiormente ( e exteriormente também...)

Aqui me fiz a mulher que hoje sou, rica de conhecimentos que não se aprendem em livros nem se adquirem em outras universidades que não aquela em  que a vida nos forma, com pós-graduações em tantas áreas  tão dispares e fascinantes, que me sinto afortunada e agradecida por estes 40 anos, extenuantes e completamente loucos, mas extremamente gratificantes.

Aprendi a lutar. Sem paus nem pedras, apenas com silêncios e palavras. O tempo provou que fui um excelente aprendiz. Ganhei.

 Ganhei valor. Ganhei respeito.

Casados para a vida, temos uma relação conjugal tradicional, eu e o meu trabalho. Amamo-nos, detestamo-nos, mas acabamos por voltar sempre para nós.
 Pressinto que esta simbiose vai acompanhar-nos ad eternum  e, quando menos se esperar , serei eu num fugaz aroma a canela, num alegre trocadilho, numa fúria de aragem fria, numa lágrima rolante presa a um suspiro delicioso, no estalar de uma lasca folhada e crocante, na cremosa doçura de um subtil borrifo de açúcar ,  serei eu levemente  a pairar,    a debitar sussurradas sentenças do além,a desabrochar recordações ternas e arrepiantes... Como a Tia sempre diz, nothing is really over till the fat lady sings.

... E foi assim que aconteceu numa bela manhã de Março de 1977, um dia que se previa radioso e adocicado como o  perfume de uma primavera próxima, enquanto trauteava alegremente The Boxer , mais para esconder o nervosismo e descia decidida a Calçada do Galvão,  cabelo longo e irrequieto, blusa impaciente, olhos ansiosos, boca luminosa... ia iniciar um conúbio eterno , o tal que seria  por apenas três meses.