terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Visitante do Barulho


O silêncio só existe em contraste com o barulho. Se não há barulho a contrastar, é ele próprio barulhento. E então apetece o ruído para ele ser menos ruidoso

Vergilio Ferreira








Fecho os olhos e viajo até ao século passado, quando eu era um pedaço de mim, uma forma esguia que os anos foram moldando e continuam a moldar até alcançar o produto final, provavelmente deteriorado e longe da perfeição, mas o eu completo que me foi permitido encarnar.

Tinha dezasseis anos feitos de fresco há dois dias. Estava em Piccadilly Circus e lá estava ele.
Tocava e cantava o Yellow Submarine e creio que poucos havia que não acompanhassem aquela energia em lalala, humhumhum ou com letra e música até.

Era bizarro e estrondoso. Tocava uma panóplia de instrumentos ao mesmo tempo, mais ruído do que música, à qual somente o vocalizo conferia o reconhecimento necessário.

É uma recordação grata. 

Na ultima semana tem morado na minha cabeça, apenas ele , o ruidoso, o estrondoso, o barulhento. Não para de ribombar a sua desconjuntada filarmónica,  acrescentando passos e batida stomp, que volteia , sapateia e faz guinchar um sonoro turbulento nas minhas trompas auriculares. 
Latejo. É o bombo traseiro incessante na sua crepitosa batida ...
... " o trompete protesta, ratatatata, ratatatata tarara,  e quanto aos timbales , só têm dois sons : sol dó, dó sol, boom boom boom boom boom" ... dezasseis anos, quinze, talvez....

O livro que seguro não se segura e deixa as letras acompanhar o ritmo desconcertado.
O músico, multifacetado como é, está seguramente a tocar picareta.
Fecho os olhos cansados desta dor de cabeça residente e penso no Brexit.