segunda-feira, 12 de junho de 2017

Upa lá !


"Ó meu rico Santo António,
 Tu és um demónio,
 Tu és um judeu,
 Ó santinho da pedincha,
 Foste uma pechincha
 Que nos apareceu!
 Até mesmo os pobrezinhos
 Dão cinco reizinhos P"ra te dar a ti!
 És um santo milagroso,
 De pau carunchoso,
 Como eu nunca vi!
 Tive uma devota,
 Que era já velhota,
 E veio até mim rezar:
 Ó Santo Antoninho, Dá-me um rapazinho,
 Que eu também quero casar."

        ( Trocadilho Popular muito em voga, que a Avó Júlia cantava)






Vá, agora seguras assim e enrolas com linha à volta, dizia a minha Madrinha, sentada comigo no pial de pedra da entrada, ambas entretidas a dispor em arranjos coloridos, espécies enviesadas de flores de papel que enfeitavam arcos de arames ferrugentos forrados a corda de amarrar serapilheiras e papel de seda. Eu queria era brincar com os "harmónios" que a Madrinha chamava balões não sei porquê, pois até tinham lá dentro uma cruzeta de madeira com um prego, onde espetavam uma vela, mas não podia ser, porque não chegavam para pendurar nos arcos todos.
A ti' Antónia da Fava Rica andava com a Almerinda aos gavetos na quinta depois de saltado o muro, para os amontoarem bem no meio do Largo do Carvoeiro, onde mais tarde se acenderia a fogueira.

A fogueira.

O fogo  tem o fascínio do ouro e a beleza de uma besta indomável e irrequieta que brilha no escuro com fulgências e tonalidades mais rebuscadas do que a mais louca das fantasias.
Era absolutamente fantástico ficar virada para o muro da quinta, de costas para a fogueira. As sombras agigantavam-se e moviam-se loucas e sinuosas, eminências pardas de um reino negro e luzente que crescia e se agitava a cada crepitar da acha, criando miragens de fumo e calor ondulante que cheirava a resina e a verão.

O avô chegava-me à beira do fogaréu e upa! Já está ! E eu ria feliz e corada , seguindo com o olhar as faúlhas que se libertavam e que eu acreditava seguirem directamente para o céu, para se juntarem aos outros pontinhos brilhantes.

Havia concertina e guitarra e vinho. Havia cantigas. Havia a marcha de braço dado, toques de pele e trocas de olhares. Havia pão e bolos e limonada... e pirulitos com bola !

Sardinhas, só mais tarde.

Havia amizade e bailarico até os pés não poderem mais sustentar tanta folia.

O Carvoeiro é agora uma oficina fechada. No largo, os moradores só se conhecem do bom dia, boa tarde.
Será que sabem o que é um trono de Santo António ?
E uma fogueira comunitária ?

Passei lá o mês passado. Ainda ecoavam os risos daquela noite em que a Vizinha Custódia calculou mal o salto e o fogo, matreiro que só ele, ferrou-se-lhe à combinação de renda estreada para a ocasião, e lambiscou-lhe metade, sem que ela desse por isso.










2 comentários:

  1. A nossa versão do Cupido.
    Boa semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Viva Pedro. Uma memória bonita que sempre me acompanhou, o fogo as labaredas, as sombras e o fumo...
      Não consigo ainda resolver na minha cabeça se o fogo é apenas odioso e a memória apenas mais uma...
      Abraço

      Eliminar

É aqui que me mandas dar uma curva