sexta-feira, 16 de junho de 2017

Ogre


"A estupidez coloca-se na primeira fila para ser vista; a inteligência coloca-se na rectaguarda para ver."


Bertrand Russel 







Conheci-o há um ror de anos, naqueles tempos em que o verbo era trabalhar.

Rufião e inculto, sabia tudo o que a universidade da vida lhe tinha ensinado e pretendia usar toda essa arte com a finura e a astúcia que compensavam largamente o que lhe faltara em educação. Um verdadeiro doutor em tudologia, como se diz nos tempos que correm, pós graduado em tudo e doutorado em nada.

Filho de um mastim do antigo regime que utilizava os seus privilégios conjugais como saco de box, cedo se viu entregue aos descuidos paternos, após ausência definitiva da   progenitora em parte incerta.

Cresceu na rua. Fez-se homem. Poderia ter-se feito um bom homem e uma excelente pessoa  se quisesse. Não quis.

Não olhou a meios para atingir os fins, insinuando-se em enredos e farsas sempre com o cuidado de apresentar a fachada  tão em voga do bom rapaz trabalhador. Nunca se coibindo de espezinhar inimigos ou  amigos,  conseguiu ludibriar os mais incautos cuja apetência à função era verde e bebiam sofregamente daquela fonte salobra de água filtrada.

Perdia-se por saias, mas com aquela filosofia que os seguidores do profeta tão bem abraçam, porque fêmea é para usar e cuspir em cima. Completamente abjecto e desprovido de senso ou sensibilidade, fez  correr rios desesperados de lágrimas vexadas.

Conseguiu ser cardeal sem ponto nem ponta, numa congregação de estropiados incultos e sem qualquer autoestima , que se vendiam a troco de favores menores, humilhando-os sempre que a ocasião lhe era propícia, para poder marcar terreno e animar as hostes com farto gargalhar.

Atingiu o endeusamento que ambicionara e por muito tempo foi a eminência parda de um regime facilitista. Talvez por tempo demais. Não havia nada que quisesse que não lhe fosse permitido ter ou fazer.

Um dia, as sortes foram-lhe desfavoráveis. Finalmente. O truque barato encontrou  ouvidos moucos e cabeças com mais do que três neurónios uns patamares acima. Caiu. Tombou. Ficou a nu.

Já não eram suas as ideias que durante tanto tempo roubou aos "loucos perigosos" que as formulavam e que meses depois as viam travestidas de roupagens, a serem apelidadas de geniais e fruto da única cabeça com valor pensante que era possível encontrar por aqueles lados.
Já não eram seus os comunicados  escritos criteriosos e racionais, remodelados a partir de tiradas ricas em chavões´quase futebolísticos de gramática e ortografia duvidosas,  onde se limitava a assinar pomposamente o nome.

Muito a custo conseguiu não ser excluído dos destinos da arraia miúda, mas a vida e as quedas nada lhe ensinaram. Continua a bajular os fortes e a rebaixar os fracos e os não tão fracos, espertalhões da mesma laia que também aprenderam que a lisonja é recompensada e que se reconhecem como aves da mesma espécie.

Continua a professar os credos de que é profeta, onde o hedonismo lascivo pontua e tenta recolher o máximo de dividendos que pode de uma fonte que para ele só goteja.

Poderia compará-lo ao DAESH na forma, na acção e no conteúdo,  não fora nunca reivindicar os atentados contra a ética,  moral, as boas práticas e os bons costumes que perpetra quase numa base diária e dos quais é sempre, mas sempre isento de toda e qualquer responsabilidade.








4 comentários:

  1. Um retrato muito bem descrito desse género de pessoas que, "isentas de qualquer responsabilidade" nem se reconhecem nele.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  2. Garanto-lhe Graça e não descrevo exageradamente o personagem, bem pelo contrário. Parece um troglodita acabado de sair do degelo em pleno século XXI.
    Beijjnho

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  3. Não sei porquê... mas fez-me lembrar um ex-Primeiro Ministro...
    Este texto está fabuloso!
    Beijinhos
    Ana

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É aqui que me mandas dar uma curva