terça-feira, 23 de maio de 2017

Castelos de saudade (I)


O tempo não pára, só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo.

Mário Quintana







A tia Adelaide que Deus tem em descanso há quase duas décadas , morava com o segundo marido, numa casa antiga . O  Tio Marcelino depois de praticar religiosamente o seu desporto  favorito, dormir duas ou três horas diárias de modo a recuperar energias gastas a fazer laboriosamente o menos possível, acedia de bom grado aos pedidos que a esposa gentilmente lhe ordenava, e bricolava pela casa de modo a que a mesma se assemelhasse cada vez mais àquele antiquário que a Tia Adelaide adorava visitar na Rua de S. Bento.

Um quadrozinho por outro com qualidade, pinturas do Sr. Monteiro do atelier copiando os Mestres, ladeava com molduras com recortes de revistas e pósteres  tauromáquicos onde pontuava o nome da estrela da família o trisavô Manuel dos Touros.

 Caixinhas de música, loiça chinesa , jarras, vasos, potes, um sem número de preciosidades com que o Senhor Doutor , alto dignitário de Portugal em Macau presenteava a Tia Adelaide pelos seus dotes de passajar roupa de tal modo que os infelizes buracos de cigarro se perdiam na magia da agulha e do dedal. A Tia Adelaide não teve filhos, por isso colecionava pequenas peças do Bordalo num aparador envidraçado, que mostrava a quem a visitasse, sem nunca permitir que um "seu menino" deixasse a sua mão. Podiam muito bem ser admirados  de longe.

A casa da Tia Adelaide era alta e castiça, e não fora a falta dos fados e guitarradas, bem poderia ter sido a inspiração de Alberto janes para as célebres tabuinhas. Tinha uma escada estreitinha que levava a um sótão com uma banca de carpinteiro e novelos de aparas de madeira pelo chão, lugar mágico, onde eu buscava e rebuscava, tentando encontrar os macaquinhos que o meu Avô afiançava que a sua irmã mais nova possuía no sótão, sem qualquer sombra de dúvida.

Escusado será dizer que os nunca encontrei.

As janelas, altas como portas, davam para o Jardim do Ultramar, separadas apenas por uma nesga de rua e um muro. Passava horas a atirar pão duro aos patos, a assistir a corridas e lutas pelos pedaços e a imaginar histórias  mirabolantes , enquanto me deliciava com bolachas de agua e sal com colheradas generosas de doce de tomate.

O Tio Marcelino, dez anos mais velho , de 1900, como orgulhosamente apontava, partiu também 10 anos mais cedo. A Tia Adelaide manteve-se ali, rija, enquanto as pernas lhe permitiram. Depois, com grande pesar de deixar o seu cantinho e os seus quadros de natureza viva, que se animavam mal abria as portadas, foi viver com familiares até chegar a sua hora.

Lembraram-me hoje de ir espreitar a casa da Tia Adelaide.


De cara lavada e com plástica bem conseguida, brilha naquele filamento antes parelepípedos escuros, agora clara e alegre calçada,   como uma relíquia que finalmente viu luz.

Não passou sem emoção é verdade, mas acredito que, gaiteira e divertida como ela só, a Tia Adelaide iria achar a casa um palácio.

Para mim foi revisitar o palácio da saudade.






3 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  2. Enviei um relato de viagem para o seu mail.
    Muito me honra e muito lhe aborreço
    Dilce

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É aqui que me mandas dar uma curva