domingo, 9 de julho de 2017

Vencida da Vida ?


"Nada é mais fácil do que se iludir, pois todo o homem acredita que aquilo que deseja seja também verdadeiro"

Demóstenes






 


Muitos posts atrás quando iniciei os Ditos e Escritos e para me situar no espaço e no tempo,  escrevi sobre acontecimentos da minha vida passada. Nunca escondi que o PREC foi a pior altura da minha existência, ultrapassada com alguma adaptação às dificuldades do momento em que se vivia e com a filiação no Partido Socialista, corrompendo de algum modo os ideais pela continuidade. Vivi o partido por dentro, por isso sei. Quando falo,falo do que sei porque experienciei. Não falo apenas porque li ,  ouvi falar ou consta em manifestos.

Assim que a abertura proveniente de nova mudança se proporcionou, pude regressar a mim  e assumir o PPD de Sá Carneiro sem medo de repercussões. Pode ter nascido um mito. Nunca saberei se era ali que estava realmente Portugal. Toda a minha fé partidária se esfumou num triste 4 de Dezembro em Camarate.


A partir daí, tudo perde por comparação e a  ideia recorrente sobre a política no nosso país no pós 25 de Abril,  é que  todas as  eleições legislativas obedecem ao conhecido axioma de que  só mudam  as moscas.


Foi para mim e alguns milhões de Portugueses extremamente gratificante a prisão de José Sócrates no âmbito da Operação Marquês. Deu-nos uma pequena experiencia em democracia na sua verdadeira acepção. Se um Ex-Primeiro Ministro pôde ser detido por corrupção e tráfico de influencias com vista à obtenção de proveitos, ninguém iria ficar impune neste país, fosse qual fosse o crime que cometesse, porque afinal as instituições democráticas funcionam bem e recomendam-se.

Nada mais ilusório.

O prisioneiro 44 de Évora esteve a expensas do estado, escreveu livros, deu entrevistas e continua por aí, a carpir o martírio e as injustiças e a pedir a beatificação.

Vão mudando as cores, mas é só. Os trafulhas continuam a pavonear-se pelo Tamariz, outros por Paris, outros por Maiorca e continuam a delapidar o erário público com os mesmos exageros que apontavam aos antecessores. Continuam a gozar de uma impunidade radicada e estabelecida em relação a algo que sempre prezei muito durante toda a minha vida : RESPONSABILIDADE.

Não prevejo melhoras. O balão de oxigénio foi retirado, mas apenas para refill . Há-de voltar. Virá  cheio? Espero sinceramente que seja suficiente para todos, porque esta terra queimada de tantas políticas , já não  consegue produzir mais táticas.








sábado, 1 de julho de 2017

Invasões

(...)"Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô! 
Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,[...]
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa" (...)

Álvaro de Campos








Portugal exporta bens e serviços , mas um dos produtos com maior venda internacionalmente é o turismo.

Lisboa tem sido nos últimos anos o ponto de encontro de todas as nacionalidades , raças, culturas e religiões que pisam a Europa, e o Portugal profundo recentemente descoberto pelos ludambulistas nacionais e internacionais, é considerado um paraíso de tranquilidade a preços convidativos.




Vejo passivamente todos os dias entre as 10 e as 20 horas, Lisboa ser invadida pelos bárbaros.
Que nos é fundamental esta invasão para o crescimento económico, nem sequer ponho em causa.

Mas o turista que cá vem, não sabe ser turista: paga, manda e quer. Exige. Reclama !
Reclamar está na moda. Toda a gente bem lá no fundo tem uma pequena costela de escritor.
 Porque não começar pelo vermelhinho Livro de Reclamações, onde se pode dar azo à imaginação ou escrever o que nos vai na alma ? Está calor ? Reclama. Está frio? Reclama. 




Encontrar hotéis, Inns, Airbnb's, Hostels, etc. em Lisboa, basta descer a Av. da Liberdade até ao Terreiro do Paço e apontá-los, porta sim, porta não.

Apoiei a Taxa Municipal que a CML aplicou. Todas as outras cidades da Europa já o fazem há anos e se é para ajudar a criar um bom suporte de infraestrutura turística, apoiado !

Gosto de ser turista lá fora e cá dentro e de ter direito aquilo a que me propus e paguei para ter. Mas nós portugueses, que somos tão mal afamados, comparados a "criminosos de guerra" porque supostamente gastamos o que temos e o que não temos em "mulheres e bebida", somos civilizados o suficiente para entender que ver não é mexer  nem estragar. É aprender e gostar. 

Depois de ter referido o Convento de Cristo, em Tomar, garanto que em Lisboa, Porto, Braga, Évora, Sintra,etc.  Museus, Palácios e outros monumentos, para além das próprias cidades que não estão minimamente preparadas para receber tanta gente ( atentemos, por exemplo a falta de WCs públicos), sofrem as agruras da erosão desgastante de milhares de visitantes diários.



A questão aqui é que a chamada época baixa, quando se acalmava o movimento e se começava com o balanço e os preparativos para a nova invasão, que noutros tempos principiava  no despontar da Primavera e ganhava força após o Solstício de Verão, deixou de existir. A entrada de turistas é praticamente  constante durante todo ano, apenas com picos mais acentuados nos meses quentes.

Se se estão a tomar medidas de prevenção, reparação e inovação, não sei. Dizem que sim. Dizem sempre que sim, mesmo quando a resposta é indeterminada.

Pergunto-me quanto tempo durará a nossa cultura, a nossa história viva, os nossos testemunhos de pedra,  debaixo dos pés destas hordas de visitantes pouco civilizados que nunca irão parar de chegar. 



Todas as fotos por MDRoque




                    

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Escritora por um dia

Vivemos numa economia de informação

Steve Jobs







A informação pode nunca ser demasiada, mas ultimamente é excessiva. Cansa.
É repetitiva, explorada e doentia.

Quem não gosta de andar bem informado? Descobri o Delito de Opinião (e de Informação) por acaso quando há cerca de 4 anos fazia pesquisa online para um post.
Li  (e continuo a ler) tudo, sem sequer me atrever a escrever.
Comentar foi uma aventura que não imaginei possível. Daí à ser leitura obrigatória foi um pulinho.
Hoje deram-me a honra de ser a convidada do dia para escrever um texto meu !
Os Senhores e Senhoras das palavras !

Muito me honrou e muito lhes agradeço.
É fenomenal a sensação de ser escritora por um dia !

O Blog será sempre uma referência incontornável para mim todas as vezes que precisar ver a realidade através todas as sombras de todas as cores e sem acordo ortográfico.

Obrigada!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Ogre


"A estupidez coloca-se na primeira fila para ser vista; a inteligência coloca-se na rectaguarda para ver."


Bertrand Russel 







Conheci-o há um ror de anos, naqueles tempos em que o verbo era trabalhar.

Rufião e inculto, sabia tudo o que a universidade da vida lhe tinha ensinado e pretendia usar toda essa arte com a finura e a astúcia que compensavam largamente o que lhe faltara em educação. Um verdadeiro doutor em tudologia, como se diz nos tempos que correm, pós graduado em tudo e doutorado em nada.

Filho de um mastim do antigo regime que utilizava os seus privilégios conjugais como saco de box, cedo se viu entregue aos descuidos paternos, após ausência definitiva da   progenitora em parte incerta.

Cresceu na rua. Fez-se homem. Poderia ter-se feito um bom homem e uma excelente pessoa  se quisesse. Não quis.

Não olhou a meios para atingir os fins, insinuando-se em enredos e farsas sempre com o cuidado de apresentar a fachada  tão em voga do bom rapaz trabalhador. Nunca se coibindo de espezinhar inimigos ou  amigos,  conseguiu ludibriar os mais incautos cuja apetência à função era verde e bebiam sofregamente daquela fonte salobra de água filtrada.

Perdia-se por saias, mas com aquela filosofia que os seguidores do profeta tão bem abraçam, porque fêmea é para usar e cuspir em cima. Completamente abjecto e desprovido de senso ou sensibilidade, fez  correr rios desesperados de lágrimas vexadas.

Conseguiu ser cardeal sem ponto nem ponta, numa congregação de estropiados incultos e sem qualquer autoestima , que se vendiam a troco de favores menores, humilhando-os sempre que a ocasião lhe era propícia, para poder marcar terreno e animar as hostes com farto gargalhar.

Atingiu o endeusamento que ambicionara e por muito tempo foi a eminência parda de um regime facilitista. Talvez por tempo demais. Não havia nada que quisesse que não lhe fosse permitido ter ou fazer.

Um dia, as sortes foram-lhe desfavoráveis. Finalmente. O truque barato encontrou  ouvidos moucos e cabeças com mais do que três neurónios uns patamares acima. Caiu. Tombou. Ficou a nu.

Já não eram suas as ideias que durante tanto tempo roubou aos "loucos perigosos" que as formulavam e que meses depois as viam travestidas de roupagens, a serem apelidadas de geniais e fruto da única cabeça com valor pensante que era possível encontrar por aqueles lados.
Já não eram seus os comunicados  escritos criteriosos e racionais, remodelados a partir de tiradas ricas em chavões´quase futebolísticos de gramática e ortografia duvidosas,  onde se limitava a assinar pomposamente o nome.

Muito a custo conseguiu não ser excluído dos destinos da arraia miúda, mas a vida e as quedas nada lhe ensinaram. Continua a bajular os fortes e a rebaixar os fracos e os não tão fracos, espertalhões da mesma laia que também aprenderam que a lisonja é recompensada e que se reconhecem como aves da mesma espécie.

Continua a professar os credos de que é profeta, onde o hedonismo lascivo pontua e tenta recolher o máximo de dividendos que pode de uma fonte que para ele só goteja.

Poderia compará-lo ao DAESH na forma, na acção e no conteúdo,  não fora nunca reivindicar os atentados contra a ética,  moral, as boas práticas e os bons costumes que perpetra quase numa base diária e dos quais é sempre, mas sempre isento de toda e qualquer responsabilidade.








segunda-feira, 12 de junho de 2017

Upa lá !


"Ó meu rico Santo António,
 Tu és um demónio,
 Tu és um judeu,
 Ó santinho da pedincha,
 Foste uma pechincha
 Que nos apareceu!
 Até mesmo os pobrezinhos
 Dão cinco reizinhos P"ra te dar a ti!
 És um santo milagroso,
 De pau carunchoso,
 Como eu nunca vi!
 Tive uma devota,
 Que era já velhota,
 E veio até mim rezar:
 Ó Santo Antoninho, Dá-me um rapazinho,
 Que eu também quero casar."

        ( Trocadilho Popular muito em voga, que a Avó Júlia cantava)






Vá, agora seguras assim e enrolas com linha à volta, dizia a minha Madrinha, sentada comigo no pial de pedra da entrada, ambas entretidas a dispor em arranjos coloridos, espécies enviesadas de flores de papel que enfeitavam arcos de arames ferrugentos forrados a corda de amarrar serapilheiras e papel de seda. Eu queria era brincar com os "harmónios" que a Madrinha chamava balões não sei porquê, pois até tinham lá dentro uma cruzeta de madeira com um prego, onde espetavam uma vela, mas não podia ser, porque não chegavam para pendurar nos arcos todos.
A ti' Antónia da Fava Rica andava com a Almerinda aos gavetos na quinta depois de saltado o muro, para os amontoarem bem no meio do Largo do Carvoeiro, onde mais tarde se acenderia a fogueira.

A fogueira.

O fogo  tem o fascínio do ouro e a beleza de uma besta indomável e irrequieta que brilha no escuro com fulgências e tonalidades mais rebuscadas do que a mais louca das fantasias.
Era absolutamente fantástico ficar virada para o muro da quinta, de costas para a fogueira. As sombras agigantavam-se e moviam-se loucas e sinuosas, eminências pardas de um reino negro e luzente que crescia e se agitava a cada crepitar da acha, criando miragens de fumo e calor ondulante que cheirava a resina e a verão.

O avô chegava-me à beira do fogaréu e upa! Já está ! E eu ria feliz e corada , seguindo com o olhar as faúlhas que se libertavam e que eu acreditava seguirem directamente para o céu, para se juntarem aos outros pontinhos brilhantes.

Havia concertina e guitarra e vinho. Havia cantigas. Havia a marcha de braço dado, toques de pele e trocas de olhares. Havia pão e bolos e limonada... e pirulitos com bola !

Sardinhas, só mais tarde.

Havia amizade e bailarico até os pés não poderem mais sustentar tanta folia.

O Carvoeiro é agora uma oficina fechada. No largo, os moradores só se conhecem do bom dia, boa tarde.
Será que sabem o que é um trono de Santo António ?
E uma fogueira comunitária ?

Passei lá o mês passado. Ainda ecoavam os risos daquela noite em que a Vizinha Custódia calculou mal o salto e o fogo, matreiro que só ele, ferrou-se-lhe à combinação de renda estreada para a ocasião, e lambiscou-lhe metade, sem que ela desse por isso.










sexta-feira, 9 de junho de 2017

O Demónio e Mr. Prim

"Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo"


Manuel Alegre





Aconteceu no passado mês de Abril. 

Quase todos os meses de Abril, de há alguns anos a esta parte,  saímos a para recarregar baterias, coisa que toda a gente que trabalha muito, tem gatos, filhos e netos, deveria fazer para manter a sanidade mental. Desligar... não totalmente... só um bocadinho, mas desligar sim, e recuperar a vida a dois, nem que seja por apenas  3 ou 4 dias.

Este ano calhou escolhermos a República Checa. Calhou também decidirmos fazer uma caminhada de cerca de 20 km pelo Bohemian Saxon Switzerland National Park.

Partimos de Lisboa com tudo organizado ao pormenor e fomos informados na véspera do passeio que Mr. Prim, o melhor guia para aquele tour em particular, nos iria buscar ao hotel às 8:00h.
Fantástico! Estávamos realmente expectantes.
Aconteceu como previsto. Durante a viagem de automóvel demo-nos a conhecer e ficámos a conhecer Mr. Prim na medida do possível.

Escusado será dizer que a meio do caminho para  Pravčická Brána tive que fazer uma pausa para me reunir com as minhas pernas, que tinham entretanto resolvido entrar em greve devido a exigências não regulamentadas na ACT.
Após as promessas da praxe,  chegámos a acordo, para o que muito contribuiu a chegada ao Falcons Nest, com descanso e um bom almoço a acompanhar.

Como não podia deixar de ser, convidámos Mr. Prim para nos fazer companhia.
A meio da refeição, dei a volta à conversa e em vez de fazer as habituais  perguntas sobre a República Checa, resolvi perguntar o que sabia Mr. Prim sobre Portugal.

Mr.  Prim , que já tinha estado em Lisboa há cerca de 5 anos, não gostou. A cidade era feia, suja, e sentia sinceramente pelos portugueses, porque viviam em condições de extrema pobreza…
É certo que as notícias sobre o País não têm sido fabulosas, mas seguramente Portugal tem uma qualidade de vida superior à da República Checa, retorqui. Sorriu condescendente e respondeu que lá ( na Rep. Czech) não viviam em casas de madeira sem saneamento básico.

Não pude deixar de rir, mas rir mesmo. Onde , pelo amor da santa, terá o Mr. Prim ficado hospedado e por que caminhos terá andado para se deparar com aquela dantesca realidade. 


Não consegui saber muitos pormenores. Acredito que a visita de Mr. Prim fosse coisa tipo relâmpago, pois pouco ou nada sabia de Lisboa, para além da anunciada pobreza e más condições sanitárias. Que o hotel não ficava longe do rio e passava pelas tais "barracas" para  chegar à margem.

Quem me conhece minimamente, sabe que quando acredito que tenho razão não me calo, e o pobre Mr. Prim passou mais de 10km, até às Edmund Gorges a ouvir sobre a minha terra e a história das pseudo-casas de madeira.
Castigou-me com a descida mais íngreme e escorregadia da minha vida, mas apesar de ter uma preparação física a anos-luz da nossa, garanto que acabou mais cansado,tal não foi a injecção sobre Lisboa que lhe ministrei.


Mas por muito que tentasse, foi impossível contornar aquela impressão negativa de uma cidade salobra e escura que Mr. Prim tinha gravada nos recônditos do seu disco rígido.

O meu passeio ao Parque foi estupendo. Aconselho vivamente.

Lamento apenas que o nosso País,  tão bonito, tão brilhante, N vezes ao quadrado mais  simpático do que a República Checa, seja tão erroneamente interpretado.
Estes turistas que nos chegam em Fam Trips , vêm tantas vezes "comprar" o destino para o poder incluir nos seus pacotes de tours .

Chegados cá, a que demónio será entregue a organização da sua estadia ? Não acredito que o Turismo de Lisboa que normalmente dá a conhecer a nossa capital com tanta clareza e desvelo, tenha transformado mais uma oportunidade de "vender" Lisboa num passeio à timberland...




( Foto retirada da internet)

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Selinho Blogue em Bom










Bom, ao que parece a "corrente" dos selinhos terminou, ordens de nosso Senhor.

De qualquer modo, já que me foi passada uma "intenção de voto", gostava de expressá-la em relembrando o Lourenço e os "Sonhos do Tipo D",  "O Tolan" de boa memória.


Tenho pena que tenha parado de escrever no blogue, porque é um  excelente escritor.

NM, sempre às ordens.

Foi óptimo não ter que nomear 5 Blogues de referência porque os meus preferiti, aqueles em Bom mesmo, tirando um ou outro em melhor ainda, já estavam todos com menção honrosa.

E pronto, acabei por furar o que restava das regras.

Obrigada a  D. Pipoco de Mäis au Sel



sábado, 27 de maio de 2017

Pancadas...










Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece.


Franz Kafka

( Considerando que é alguém com uma pancada Muito superior à minha)







Do alto do meu quase sexagenarismo, interpreto  o que se passa ao meu redor talvez com uma percepção diferente da realidade - da realidade que eu entendo - algo discordante do que poderia ter concebido há um par de anos atrás.

O tempos são outros. Eu  nem por isso, ou antes, não queria , mas também mudei, claro. Já não subo à figueira grande ( enorme desafio gravitacional)  para arremessar dissimuladamente laranjas podres a quem passa, mas psiquicamente falando, não amadureci muito mais do que isso.

Em minha casa,  por motivos decorativos , tampouco narcisistas,  não existem mais do que 4 espelhos. De qualquer modo, as nossas rotinas diárias passam por nos avistarmos com a imagem do que mostramos por aí, praticamente todos os dias de manhã.

A que os meus espelhos me mostram não me espanta nem num bom nem num mau sentido. Serei talvez melhor do que a minha forma cosmozoária , mais formada do que a minha forma embrionária, menos atractiva do que a minha forma infantil, muito menos atraente do que a minha forma juvenil, bem mais amadurecida e pesada  do que a forma intermédia, mas não completamente repulsiva, tampouco desagradável.

Já referi que mentalmente, estou muito à frente, certo? Creio que neste caso particular quererá antes dizer muito atrás...

 A pontualidade sempre foi para mim ponto de honra, por isso raramente me atraso e nunca me deixei ficar para trás. Acompanhei as evoluções no seu melhor e também no seu pior e em certos aspectos sou mais entendida, mais culta e mais jovem do que muito jovem que por aí pulula com a mania da tudologia.

Pode esta , chamemos-lhe assim, "frescura de espírito" ser de algum modo atractiva para miúdos que poderiam ser meus netos ?

Não quero dedicar muito tempo a tentar entender a cabeça dos outros, porque tenho a firme convicção que a realidade que eu entendo pode ser diametralmente oposta à que é percepcionada pelo meu vizinho do lado, mas confunde-me que para além dos galões, haja quem veja nesta que vos escreve uma elegante e sexy louva-a-deus devoradora de machos tenrinhos...

Estranha metamorfose, grande esquizofrenia ou indubitavelmente uma enorme pancada...

Diz-se que o povo e sereno... diz-se tanta coisa... Aqui  a sereníssima  tem sido TÃO, mas tão paciente...


( Todas as fotos : MD Roque


terça-feira, 23 de maio de 2017

Castelos de saudade (I)


O tempo não pára, só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo.

Mário Quintana







A tia Adelaide que Deus tem em descanso há quase duas décadas , morava com o segundo marido, numa casa antiga . O  Tio Marcelino depois de praticar religiosamente o seu desporto  favorito, dormir duas ou três horas diárias de modo a recuperar energias gastas a fazer laboriosamente o menos possível, acedia de bom grado aos pedidos que a esposa gentilmente lhe ordenava, e bricolava pela casa de modo a que a mesma se assemelhasse cada vez mais àquele antiquário que a Tia Adelaide adorava visitar na Rua de S. Bento.

Um quadrozinho por outro com qualidade, pinturas do Sr. Monteiro do atelier copiando os Mestres, ladeava com molduras com recortes de revistas e pósteres  tauromáquicos onde pontuava o nome da estrela da família o trisavô Manuel dos Touros.

 Caixinhas de música, loiça chinesa , jarras, vasos, potes, um sem número de preciosidades com que o Senhor Doutor , alto dignitário de Portugal em Macau presenteava a Tia Adelaide pelos seus dotes de passajar roupa de tal modo que os infelizes buracos de cigarro se perdiam na magia da agulha e do dedal. A Tia Adelaide não teve filhos, por isso colecionava pequenas peças do Bordalo num aparador envidraçado, que mostrava a quem a visitasse, sem nunca permitir que um "seu menino" deixasse a sua mão. Podiam muito bem ser admirados  de longe.

A casa da Tia Adelaide era alta e castiça, e não fora a falta dos fados e guitarradas, bem poderia ter sido a inspiração de Alberto janes para as célebres tabuinhas. Tinha uma escada estreitinha que levava a um sótão com uma banca de carpinteiro e novelos de aparas de madeira pelo chão, lugar mágico, onde eu buscava e rebuscava, tentando encontrar os macaquinhos que o meu Avô afiançava que a sua irmã mais nova possuía no sótão, sem qualquer sombra de dúvida.

Escusado será dizer que os nunca encontrei.

As janelas, altas como portas, davam para o Jardim do Ultramar, separadas apenas por uma nesga de rua e um muro. Passava horas a atirar pão duro aos patos, a assistir a corridas e lutas pelos pedaços e a imaginar histórias  mirabolantes , enquanto me deliciava com bolachas de agua e sal com colheradas generosas de doce de tomate.

O Tio Marcelino, dez anos mais velho , de 1900, como orgulhosamente apontava, partiu também 10 anos mais cedo. A Tia Adelaide manteve-se ali, rija, enquanto as pernas lhe permitiram. Depois, com grande pesar de deixar o seu cantinho e os seus quadros de natureza viva, que se animavam mal abria as portadas, foi viver com familiares até chegar a sua hora.

Lembraram-me hoje de ir espreitar a casa da Tia Adelaide.


De cara lavada e com plástica bem conseguida, brilha naquele filamento antes parelepípedos escuros, agora clara e alegre calçada,   como uma relíquia que finalmente viu luz.

Não passou sem emoção é verdade, mas acredito que, gaiteira e divertida como ela só, a Tia Adelaide iria achar a casa um palácio.

Para mim foi revisitar o palácio da saudade.






segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sonha comigo

"...You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?  
All that we see or seem
Is but a dream within a dream."


Edgar Allen Poe







Porque raio estará o gato a vomitar para dentro das sapatilhas de caminhada ? Se está mal disposto, não é seguramente ali que vai se vai aliviar de brisas frescas...

 Susto! Acordo estremunhada  e sem sombra de felinos nas imediações, mas o grito apavorado ainda ecoa no meu subconsciente que o captou e foi ampliando progressivamente, até tomar proporções gritantes de trombetas apocalípticas... seis e meia da manhã, caramba ! Salto louca da cama, não reparando que o sudário beije se enrolara sensualmente num tornozelo, e zás!  o tapete Arménio subiu que nem um foguete de encontro à minha cara meia dormente de sono.


Não sei quanto tempo demorei a sentar-me e a perceber-me... uns eternos 10 segundos, talvez mais.
Consegui muito a custo sair do quarto esperando a todo o momento dar de caras com um encapuçado negro de segadora na mão...


Abre, solta-me, abre , liberta-me, gritava em plenos pulmões uma figura de mulher farta, desgrenhada, enlouquecida, transfigurada e ao mesmo tempo estranhamente familiar, que encerrava por entre os dedos crispados de um punho cerrado, um cadeado escuro e ferrugento.


Olhou suplicante para mim. Chorava. Abre, liberta-me, falava entrecortada e ofegantemente sem largar a tranqueta pardacenta ... por favor, abre. Olha para mim, disse-lhe, olha. Reconheci imediatamente aquele olhar que conheço desde que nasci, calmo e sonhador, jovial e decidido, mas tão transtornado por um medo, uma ansia que lhe parecia toldar a razão.
 Escuta, dá cá o cadeado, dá-mo! Põe-no aqui na minha mão, vá . Vês ? Não precisas de qualquer chave nem sequer de o abrir para te libertares, mira-o bem e desmerece o facto do que ele possa ter sido. Já não é coisa alguma que te possa atemorizar; quanto muito provoca aversão,   está velho e gasto e só pode prender preconceitos, intolerâncias, incompreensões, fanatismos, facciosismos e inclemências, e tu não és dessas coisas, nunca foste. Se puxares a argola com força e a firme convicção de que és livre , vais ver que rebentas com qualquer réstia que ainda se lhe prenda. Experimenta.
 A vontade e a força partiram a tranqueta pelo gonzo deixando no ar um cheiro acre a vilanagem e  ferrugem. Vi os  humores iluminarem os olhos assustados, a cor voltar ao rosto e afivelar-se aquele meio sorriso que lhe desanuvia o cenho e desenha um arco de calma e  ponderação.

Deixei-me sentada no sofá, tranquila, a tomar uma tisana quente, enquanto afagava o pelo sedoso da gata que ronronava a cada passagem da mão. Sorri. Voltei para o aconchego , deitei-me e adormeci contente.
Sonhei que estava a dormir, deitada num pião gigante que rodava sem parar.


( All fotos by MD Roque)




                     

sexta-feira, 12 de maio de 2017

De volta à vida. De volta ao Blog

Hoje amanheci igual... pensei o que pensei, fiz igual ao que foi feito. Experimentei o  déjà vu e re - postei um escrito.
Três anos e pouco depois, não mudei quase nada nesta imensa mudança que sofri...

"O difícil não é imitar a grandeza com a desmesura. O difícil é que a alma não seja anã."- Vergílio Ferreira



Toda a Sociedade Está dentro de Mim



Fazer qualquer coisa ao contrário do que todos fazem é quase 
tão mau como fazer qualquer coisa porque todos a fazem. Mostra uma igual preocupação com os outros,
 uma igual consulta da opinião deles - característica certa da inferioridade absoluta.
 Abomino por isso a gente  que se preocupa com seres imorais ou infames,
 e com o impingir paradoxos e opiniões delirantes. 
Nenhum homem superior desce até dar à opinião alheia tal importância que se preocupe em contradizê-la.
...


(Fernando Pessoa)









Só se ouviam os meus passos na pedra preta do basalto da viela, sem passeios a contrastar, estreita e claustrofóbica, cortada por entre prédios atarracados e velhos  como se de uma cicatriz se tratasse. Sorri à ideia do caminho para a livraria do portão escuro, enegrecido pelo tempo, onde se guardavam memórias por dentre folhas esquecidas e amarelecidas pelo tempo, necrópole de autores consagrados e de outros não tão conhecidos, mas cuja magia osmótica contagia e se apodera de quem a absorve. Um candeeiro acendeu a sua luz fraca e trémula que anunciava o crepúsculo, arauto da noite. Olhei o número num azulejo escuro e gasto incrustado na parede. Era ali.

Ali, naquela porta verde e baixa, não se guardavam livros. 
Entrei para a sala iluminada por quebra-luzes de vitral, garridos e sujos de pó que espalhavam um caleidoscópio de cores desmaiadas pelos cabides e cruzetas que cobriam  paredes de cor indefinida.
"Vidas em Segunda Mão" - dizia o letreiro sobre a porta, para quem sabia o que procurava; era uma placa ferrugenta, imperceptível e gasta pela erosão das vidas que entravam e saiam, das que ficam e das outras que iam experimentar a mudança.
Entrei e a miúda ao canto junto à registadora, não levantou os olhos do telemóvel onde os polegares batiam ágil e velozmente, nem sequer respondeu  à minha saudação, limitando-se a dizer "Esteja à vontade"... seguramente não estava preocupada que eu lhe roubasse uma vida usada.

Havia-as para todos os gostos. Levei 3 para o provador.

Experimentei a de estrela de cinema. Era tamanho único e estava muito apertada. Apesar de ser maravilhosa, estava esfiapada por dentro e cheia de manchas de vícios mil. Não se podia alargar pelas costuras... já tinha sido escortanhada até ao impossível. Despi-a com pena, deixei-a do avesso com o glamour a assomar por dentre os alinhavos dos remendos... não era para mim.

Experimentei a de político. Assentava-me que nem uma luva, mas convenhamos que aquela espécie de lycra se molda a qualquer corpo com vontade de a envergar. Fedia. O cheiro era tão intenso e nauseabundo que seria necessário um estômago forte e falta de sentidos para a poder vestir. À segunda contracção do bucho, despi-a. Foi como me estivesse a esfolar viva; aquela vida apegara-se-me tão intensamente que a tarefa de a conseguir tirar por completo e mais ao nojo que a assistia me agastou anos à minha própria vida... não era para mim.

Experimentei a de aventureiro e atleta saudável. Esta havia-a em diversos tamanhos porque a vontade de começar é grande e o início auspicioso, mas com o passar do tempo , quase todos a trocam pela vida sedentária, familiar, bem nutrida e  mal regrada ... a única esgotada no escaparate.
Saltos de para-quedas não,  que tenho vertigens e me falta o ar. Mergulhar em apeneia não,  que tenho claustrofobia e me falta o ar. Comer alface não, que sou uma barulhenta pertinaz, mas não sou grilo... e apesar de impregnada com o maravilhoso e inebriante cheiro do ar puro , tive que a despir... não era para mim.

Saí cabisbaixa dos provadores e olhei melhor para as vidas em exposição : as melhores, nem eram de marca, não passavam de tristes imitações baratas, as outras, coitadas, estavam puídas pelos usos e  desusos.
Sorri para comigo e pensei que mudar de vida , afinal  não é assim tão fácil. Nem é tampouco importante. A minha vida não é nova, nem de marca, mas é boa. Só precisa de uns pequenos ajustes aqui e ali e talvez dure ainda mais uns aninhos, ou quem sabe, seja muito mais resistente do que parece e me acompanhe até ao fim.


                                         

domingo, 30 de abril de 2017

Citius altius fortius


"O homem descobre-se quando se mede com um obstáculo."

Antoine de Saint-Exupéry






Na verdade, Citius altius fortius é o lema de vida de todos nós, porque afinal o que é a vida senão um constante superar de etapas e obstáculos do princípio ao fim ?
Qualquer existência humana passa seguramente pela selecção natural, desde o gâmeta que origina o Citius altius fortius que fecunda o óvulo. Onde há vida há superação, há conquista, há concretização.



Quando pensas em ti como alguém que é e será, mas que principalmente já foi e te deprime a intolerância e desprezo com que a matéria trata o engenho, dás por ti a propor-te novos desafios. E grandes. E complicados. Pelo menos para ti , que sempre agiste na sequência de um planeamento cuidadoso.



E vais. Rasgas-te , gritas, invectivas, vociferas, mas não paras. Estás por tua conta. Foi tua a escolha de te testar, de te provar que sim, que és tu e és capaz, e que as limitações estão no engenho que tem que se fazer obedecer.



É fabulosa a recompensa. É imensa a sensação de realização que te invade. É gratificante encontrares alguém que desconhecias e que afinal és tu.


Grita o teu nome deixa que os flocos de neve esfiapada componham uma marcha imperceptível em tua honra.













Rejubila

( Todas as fotos : MDRoque)