domingo, 24 de abril de 2016

Postais

Mesmo que já tenha feito uma longa caminhada, sempre haverá mais um caminho a percorrer

Santo Agostinho




Onde ficava o mundo? 
Só pinhais, matos, charnecas e milho 
para a fome dos olhos. 
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda. 
E o mar? E a cidade? E os rios? 
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos [...] 


Fernando Namora








As palavras estão todas aqui. Podem não se ver, mas o sentimento é tão avassalador que as grita a Tramontana, Ostro, Levante e Ponente.

 A maldade e a ignomínia ficam para trás por breve trecho, para que a harmonia possa sublimar o espírito sedento de paz e guiá-lo  em contemplação.

Senti o seu braço no ombro e o suave aperto. Um gentil toque de cabeça, um olhar meigo, um sorriso. 
Não precisamos falar para saber que somos afortunados.




































Todas as Fotos por MD Roque




                   

quinta-feira, 14 de abril de 2016

As janelas dos meus olhos

A nossa vida é aquilo que os nossos pensamentos fizerem dela.


Marco Aurélio




Dejé por ti todo lo que era mío.
Dame tú, Roma, a cambio de mis penas,
tanto como dejé para tenerte.

Rafael Alberti



O rio corre manso na tarde quente que convida à preguiça. Em frente o anjo dourado tenta-nos  a inércia.

Vamos ? Claro que sim, respondo sem grande convicção,  É só mais um pedacinho. Pareces um sapo ao sol. Muito romântico sem dúvida. Sorriu. Pequenas picardias  inofensivas , tão necessárias a dispôr-me à acção.

Vamos lá então subir escadas. Faz-te bem. O que faria muito melhor, seria outro gelado. Não podes entrar a comer. Pois não. Vá vamos, antes que me arrependa. 

Está mais do que claro que não me arrependi.
Abri as janelas dos meus olhos de par em par e deixei a luz entrar.

               


                       

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A Leitora

"As paixões são os ventos que enfunam as velas dos barcos, elas fazem-nos naufragar, por vezes, mas sem elas, eles não poderiam singrar."

Voltaire





A leitora abre o espaço num sopro subtil. 
Lê na violência e no espanto da brancura. 
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa. 
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco. 
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra. 

António Ramos Rosa





Não me recordo sem um livro.

Conta a minha mãe que eu decorava tudo o que me liam e repetia como se estivesse eu própria a ler, o que era uma proeza para uma criança de colo. 

Uma fingidora, era o que que era.
Fingia saber ler.

Decidiram por mim quando deixaria de fingir. Foi das poucas coisas boas que alguém decidiu da minha vida sem eu ter voto na matéria.
Aprendi mais depressa o B-A-BA do que a contar até cinco.

Lembro-me de livros a três dimensões em que os personagens mexiam através de tiras de cartão, de inventar histórias dentro da história e passar horas a brincar. Nunca fui muito de bonecas.

É este meu espírito irrequieto que não dorme nem a dormir, que me leva tantas vezes a procurar viver um livro para além do tomo. É o desafio do temerário companheiro de muitas décadas que me faz desligar a ficha, despir os dias iguais , colocar o manto da aventura e voar por aí.





Estamos quase. Pois estamos. Ele já sabe que eu nas vésperas estou absorta em tudo e em nada.
Vovó, mamão ! Vamos , anda que o avô lava a mão. A avó hoje não está cá. Tatáá ! 
Desculpa, o quê ? Ele sorri e leva a pequena para chapinhar mais uma vez. Conhece-me tão bem.

Olho para o relógio e respiro profundamente. Uma vez. Outra vez.

Quem não souber, com tanto suspiro ainda pensará que estou apaixonada.

Pensa bem.