sábado, 30 de janeiro de 2016

Noite Apressada

"E por vezes as noites duram meses"


Era uma noite apressada
 depois de um dia tão lento.
[...]
Era afinal quase nada,
 e tudo parecia imenso!


David Mourão-Ferreira














Quem sabe, um sofá ou uma cadeira de recosto, ironiza cheio de razão.
Um duche, uma muda de roupa, uma chávena de chá. 
Mal cheguei e faltam menos de duas horas para me preparar para voltar. Recosto-me, para dar descanso às pernas enquanto observo o chá fumegante condensar-se em cornucópias vaporosas que se desvanecem entrelaçadas no escuro . Olho o quarto minguante recortado em amarelo vivo no fundo escuro sobre as sombras rendilhadas das copas de Monsanto. Fecho os olhos e inspiro profundamente o sublime aroma do silêncio. É quanto basta. Alguns minutos de oblívio, no torpor breve de um sono que não chegou a acontecer completamente . Trinta e dois minutos. Volto a pestanejar , mas é escusado. Mataram a Cotovia provoca-me. Porque não ? Revisitar Scout, Jem, Dill... Submerjo parcos minutos em Maycomb. Cabeceio. As palavras enrolam as letras que se me agigantam olhos dentro e emerjo atarantada.
Já vais ? Não respondo. Ainda é cedo, mas já fui. Bem vistas as coisas, creio que, pelo menos em consciência, nem cheguei a regressar, deixei-me ficar por lá.
Os grão de café gemem com um perfume guloso e não me faço esperar. Sabe a manhãs sem luz. Sabe a ânimo. Sabe bem.
Oiço a juventude animada sob a luz dos faróis, sem frio, sem sono, riem na noite que se faz manhã. A estrela da manhã brilha intensamente. É um avião, diz. Pois é, que tolice. Afloro-lhe a testa com um sussurro. Até logo.
O táxi desliza pela humidade do asfalto . Rádio Amália . Os acordes do Barco Negro, a voz, a imagem de David Mourão-Ferreira intercalada nas luzes fugidias da rua.
Expiro profundamente. Reinicio-me. Ligo todos os sentidos.
Chegou ao seu destino, diz o som mecânico.
É muito provavelmente a mais pura das verdades.

                                                






segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Mensis Horribilis

"Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor"

Álvaro de Campos




Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar
 A tua dôce e angelica Figura,
 Esquecida, embebida num luar,
 Num enlêvo perfeito e graça pura!

 E á força de sorrir, de me encantar,
 Deante de ti, mimosa Creatura,
 Suavemente sentia-me apagar...
 E eu era sombra apenas e ternura



Teixeira de Pascoaes






Faz hoje um ano.



Nasceu apressada, a pequena amostra de gente, mas iluminou com o seu choro as lágrimas de alegria que corriam ansiosas pelas faces expectantes de quem esperava a boa nova.
Era uma trouxinha diminuta que cabia na cova de um braço, mas irradiava tanto amor como uma estrela à volta da qual gravitavam uma série de mundos próprios de cada um, porque cada um encerra em si o seu próprio mundo e são todos esses mundos juntos, que formam o universo de igualdades e diferenças a que chamamos humanidade.
Rapidamente nos tornámos heliocêntricos de carinhos e desvelos. Era vê-la brilhar radiante  para nós.








Uma tarde, igual a tantas tardes em que conversávamos sobre tudo e sobre nada , o tsunami do horror irrompeu em cascatas sangrentas.
O telescópio côncavo da minha memória desse dia, teima em não me deixar recordar vividamente os pormenores.

O gelo das mãos dormentes, o rosto sem cor,   uma fresta branca por onde saía o som  " Não a deixes" " Sossega que não deixo". Não deixei.

Vi as luzes, ouvi a sirene, sempre com a trouxinha apertada contra o peito, alheia no seu pequeno mundo, ao que se passava com os outros mundos  que orbitavam ao seu redor. Bendita inocência.









Foram dias terríveis. Foram dias de incertezas e de ignorância.

 Não saber.

Não saber torna-nos impotentes perante tudo.
Eu queria estar lá e confortá-la, e sentá-la no colo e dizer-lhe que sim, que podia chorar, que chorar alivia , que iria ficar bem. "Tudo se vai compor, verás" falava para o éter do gadget que segurava nos dedos impessoais com a convicção que a insegurança e o medo não me deixavam imprimir às palavras.

Noites insones povoadas de fantasmas negros e esvoaçantes, aflitivos e dolorosos como espadas aguçadas , o fantasma da sepse, o fantasma da hemoglobina sem valores optimistas, o fantasma do surto e outros que reneguei como se de demónios se tratasse...

Noites em que as lágrimas se afogavam num lamaçal por onde corria o coração como um cavalo selvagem , cascos em riste, imparável, sempre em sobressalto .

A trouxinha, a estrelinha que já era a minha vida, passou a ser a única luz naqueles dias de trevas. Eramos  só as duas, só nós e os nossos pensamentos.

Fiz as pazes com Deus, com quem deixara de conversar há algum tempo,  por  mirar para além dos horizontes que a vista alcança e não o encontrar . Um bom pai deve ser um pai presente. Tantas vezes  no meio de tanta angústia e sofrimento, no meio de tanto mal, não lhe achei vestígio. Senti que desertara... ou quem sabe terei sido eu quem não quis procurar mais ?

Pedir perdão por pecar por omissão ? Fechei os olhos e rezei. Não me lembro de ter  alguma vez rezado como rezei naqueles dias e naquelas noites.

E Deus ouviu. E ela veio para casa, fraca e combalida, mas com o mesmo brilho e a mesma determinação que eu sempre lhe conheci no olhar.

Voltou para a sua estrela e tudo  recuperou a cor e o brilho que empalidecera.







Faz um ano um destes dias.

Hoje faz um ano que nasceu o nosso pequeno sol e que os nossos mundos pessoais reaprenderam as translações de outrora, agora com uma cadência diferente.


A alegria começa com A e comemora hoje o seu primeiro aniversário. Que possa ser o primeiro de muitos e que seja sempre feliz.



                                               
                                                        

( Todas fotos por MD Roque)