quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Hereditariedade Curricular

"É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer."


Aristóteles


Nunca digas  acho que já fiz meu melhor, ou eu tentei.
Nâo há tentativas ou se faz ou não faz.
A cada dia somos melhores que ontem e quando se tem a certeza de sua aptidão e sucesso faz de novo!
É logico que falhas existem uma vez ou outra,mas é com os erros que  vêm os acertos.
Os erros só servem para podermos melhorar a nossa capacidade de acertar.


Yoda





Descendente de antiga linhagem de tocadores de Gaita de Foles, a Neta não se revelou a excepção à regra que todos gostariam e ansiavam.

O primeiro dia de Escola criou falsas expectativas fundamentadas na novidade. Tantos meninos, tanta atenção, tanta coisa para brincar. Adeus Pai, Adeus Mãe, e com um sorriso de orelha a orelha , foi pela mão da educadora conhecer os espaços, cada um mais fantástico do que o anterior. O almoço foi uma paródia, a sesta um bálsamo e o dia um espectáculo. 

O segundo dia foi o recreio, mais meninos , alguns encontrões, mas nada muito grave. Fez-se com um meio sorriso.

O terceiro dia já mostrava o cenho franzido. Afinal tudo aquilo não era uma festa ! A mãe , pobre mãe com o coração nas mãos, deixou-a a choramingar agarrada à inseparável mochila.
Depressa esqueceu o abandono e foi fazer um desenho.

O quarto dia foi a tragédia. Desde que entrou o portão até ficar literalmente a berrar e a espernear enquanto a educadora tentava encontrar uma ponta por onde lhe pegar, no meio de tanto rebuliço.

... E vai ser assim por um tempo. Vai-nos custar mais a nós do que a ela, que será facilmente encaminhada para uma actividade e distraída da sua suposta dor.

Eu chorei três anos seguidos. Com quatro anos, um dos grandes amigos do meu pai e director de um colégio, acedeu deixar-me entrar para a primeira classe. Isso das prés e Jardins de Infância ainda estaria em projecto não germinado no pensamento de um não nado reformador do ensino.
Chorei. A mãe condoeu-se. Afinal era tão pequenina...
Com cinco anos, repeti a proeza com idênticos resultados.
Com seis anos, tinha SEIS ANOS, bolas, a escola do regime contava comigo ! A Mãe chorava por me ver chorar, mas não houve volta a dar. Fiquei. A chorar. E má.
Tenho que honestamente referir que a professora se fartou de mim. Tratou de ensinar quem queria aprender e deixou para o lado quem só queria chorar.
Transitei completamente coxa e o pai falou com o Sr. Director. A partir da segunda classe fiquei no colégio. Mal sabia ler, mal sabia escrever, aritmética era um puzzle... reguadas foram em barda. Aprendi da pior maneira, mas aprendi muito e aprendi bem. 
Se odiava a masmorra que era reino de um dragão disforme à qual me lançavam todos os dias, hoje dou graças a Deus por não haver quem vacilasse ou me tivesse deixado recuar.
Tudo o que sei, posso agradecer aos tais "monstros" que se afadigaram em perspectivar e fundamentar o meu conhecimento.

Segui-se o Mano. Chorou que se desalmou, mas a mãe, quando saía para o pôr na escola, deixava em casa o seu coração de mãe e nunca olhou para trás; já tinha sido a mulher de Lot duas vezes. Aprendeu a não o voltar a fazer. O Mano acabou a quarta classe ainda não tinha nove anos, com uma bagagem de conhecimento invejável, que lhe garantiu o sucesso que alcançou. 

As duas filhas cumpriram a tradição: serrazina, lágrimas, pranto... Chorei muito também, pois chorei, mas tinha o trabalho à espera, e os empregos antigamente não facilitavam atrasos porque os filhos eram chorões e a mães ficavam cada vez mais de rastos à medida que se afastavam depois de  os entregar a desconhecidos, que acabavam por estar com eles mais tempo do que elas próprias. Nunca fui mãe a tempo inteiro. Não tinha como. Corações ao alto. 

O filho do Mano, chorou até aos seis anos. Chorava quando o deixavam e encontravam-no lavado em lágrimas quando o iam buscar.
Nem por isso deixou de ser o grande homem que hoje é.

Estranhamente, só o Menino gostou da escola, gostou sempre, desde o primeiro dia... talvez por ter passado a vida que conhecia rodeado por pessoas antigas e peças de museu...

A neta, fora do seu casulo cor de rosa, tecido pelos pais e pelos avós, vai seguramente sentir falta da sua zona de conforto. Vai chorar, vai ficar triste, vai sorrir e ficar alegre, vai cair e levantar-se, vai aprender. Nós continuamos cá para ela, mas sem casulo nem rede.

 Vai ser uma miúda e pêras.









                       

12 comentários:

  1. O irmão de um amigo meu, há já muitos anos, contrariando os receios da família, foi para a escola, no primeiro dia de aulas, de peito feito e sem olhar para trás na hora de se despedir dos familiares.
    Surpresa, e até alguma desilusão.
    Que ficou rapidamente esclarecida quando ele, à noite, confrontado com a necessidade de ir à escola no dia seguinte, disse:
    Amanhã não vou.
    Perguntam-lhe porquê e ele responde:
    Disseram-me que era para ir ver os meninos, brincar com os meninos, conhecer os professores.
    Já fiz isso tudo hoje.
    Como tal, não preciso de lá voltar amanhã :)))

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    1. A neta ainda só tem 19 meses e não consegue verbalizar tanto, mas acredito piamente que foi tal e qual o que ela pensou, Pedro. :) :)
      Abraço a oriente, meu amigo.

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  2. Como este excelente texto me fez lembrar quando fui deixar cada um dos meus filhos pela primeira vez à escola e vinha de lá com o coração desfeito...
    A neta de que fala o texto já se mostra uma guerreira. Vai ser de certeza "uma miúda e pêras"... Que seja uma menina feliz.
    Uma boa semana. Beijos.

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    1. A Neta é uma força da Natureza. Pouco me espanta nesta vida, mas no meio de irmãos, sobrinhos, filhos, primos... nunca vi nada assim, com menos de dois anos !!!
      Um destes dias seremos confrontados com a notícia de que um bebé nasceu, e que em vez do tradicional choro, chamou pela mãe :) :) :)

      Beijinjho, minhaamiga

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  3. perfeito, o problema é que as vezes não deixamos as pessoas errarem para aprenderem! perfeito seu texto!

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  4. AVISO

    Enquanto não consigo resolver o problema da regularização das datas da NOSSA TRAVESSA apresentadas nos vossos blogues, aviso que desde ontem há um novo artigo postado, de minha autoria e intitulado Mudanças Obrigado. Este AVISO será repetido sempre que seja postado um novo texto.

    Henrique, o Leãozão


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    1. Espero que resolva rápido. Gopsto de lá passar de quando em quando.
      Abraço

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  5. E de pequenina... sempre estranhará menos... daqui a pouco tempo, já será um hábito, ir para o Jardim Escola...
    Passando por aqui novamente... quando estive tanto tempo sem o fazer!...
    Durante o Verão, fiquei sem a minha lista de blogues preferidos... que ando a recuperar aos poucos!
    Finalmente... vim cá parar outra vez! Lamentando a minha ausência dos últimos meses, por aqui... graças a esta partidinha do Blogger...
    Beijos! Bom fim de semana! E um óptimo mês de Dezembro!
    Ana

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    1. Obrigada Ana.
      Eu também tenho estado ausente, mas não esqueço quem não me esquece.
      Beijinho e bom Dezembro também :)

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É aqui que me mandas dar uma curva