terça-feira, 24 de maio de 2016

Cumplicidades

Todas as grandes personagens começaram por serem crianças, mas poucas se recordam disso

Antoine de Saint-Exupéry 



Eu bem sei que te chamam pequenina
E ténue como o véu solto na dança,
Que és no juizo apenas a criança

Anthero de Quental





Vai ver o que ela está a fazer, está tão calada.
 Não é a tua vez?
Se calhar é, mas estou a pedir... vai lá, vá, vais ?
Voou um jornal desarrumado e um semblante conformado, e foi.

Acho melhor chegares aqui. Pousei o livro e levantei-me em slow-motion , revendo mentalmente qual a calamidade possível advinda de uma caixa de construções em espuma, um tapete, dois gatos e poucas coisas à mão de semear...

Poucas, mas boas.

 O creme das fraldas. A grande bisnaga com abertura fácil para os adultos e inviolável para as crianças que quebrado o protocolo da sua  invulnerabilidade infantil,  jazia vazia a um canto da sala, enquanto uma boca semi desdentada e arreganhada  deixava a sua marca tão branca como a sua face feliz.

Vai ser artista de certeza, diz ele com um meio sorriso. Vai pois, vou já industriá-la na arte do ralhete, respondi atordoada, olhando em redor... tudo branco... nem os gatos escaparam.

Menina feia. Estás a ver ? Sim ? Não se brinca com o creme. Suja. É muito feio !
Gátssssss ! Gargalhou. É feio, que menina má ! Os gatos não precisam de creme ! Não, não !
Olhou para mim e fez beicinho. VÔ! ... e foi refugiar-se nas pernas dele, sentida que deu dó.

Foi o princípio do fim da minha popularidade e o começo da maior e mais bela cumplicidade do mundo. 
O Vô é um babado e a neta não o troca por ninguém...nem pela sua mamã. 

Sou a Vózinha, fico ciumenta, fico sim... ele segreda-me ao ouvido, quando me vê meio tristonha, deixa lá, isto passa, é uma fase. Eu gosto de ti, nunca vai passar, porque nunca foi uma fase, foi sempre amor.



                                                       

23 comentários:

  1. Bem, só a ultima frase já é bem poderosa...

    :)

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    1. Um grande amor nã é mais do que uma imensa cumplicidade e uma amizade tão grande que se eleva a potências infinitas, Gil. E é uma força poderosíssima, acredita.
      Beijinho

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  2. É mesmo verdade que ser avô/avó é ser pai duas vezes?
    É isso que se sente?

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    1. Creio que sim, Pedro. Quando os nossos bebés têm os seus próprios bebés, só não tivemos mesmo a dores do parto. Os nossos filhos, qualquer que seja a sua idade, serão sempre" a menina" "o miúdo"... Os filhos deles são tesouros que Deus nos permitiu tocar. Somos abençoados pela família, que para mim é a benção maior que poderemos algum dia pedir.
      Ver crescer uma criança que também é minha, com mais idade , sabedora , paciência e ternura a rodos é algo a que devo dar graças todos os dias.
      Vai ver, quando chegar a sua vez, meu amigo. Abraço a oriente :) :)

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  3. Olha, que coisa mais bonita de se ler :)

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    1. Trinta e sete anos de casamento coroados com uma neta, uma grande cumplicidade e uma amizade que não cabe no mundo . Somos sem dúvida abençoados, noname... E a peste é uma safada... :)

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  4. Fase gostosa, tira a paz as vezes mas dá muitas alegrias.

    bjokas =)

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    1. É uma permanente alegria, Bell. Consegue até mascarar o cansaço com todas as cores do turbilhão que nos envolve
      Beijinho :)

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  5. A cumplicidade do amor. Em todos os tempos. Um texto que emociona por isso mesmo. Pelo homem e pelo avô. Muito belo!
    Beijos.

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    1. Três cabeças juntas, separadas pela idade, mas inseparáveis pela ternura ... Um abraço a três que é doçura Graça.
      Beijinho, querida amiga

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  6. Muito belo as suas palavras e o grande amor que os une. Um feliz mês de Junho para vocês. Abraços.

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    1. Obrigada Mirtes, minha amiga.
      Um grande beijo e muita alegria

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  7. Muito belo as suas palavras e o grande amor que os une. Um feliz mês de Junho para vocês. Abraços.

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    1. Muita alegria, desta feita a dobrar.
      Beijo :) :)

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  8. Roquamigo

    No meu caso bato-te completamente: 53 anos de sofrim..., casamento três filhos, três noras/filhas quatro netos e uma neta. E chega.... :-)



    Olá!

    Depois de enormes confusões, de muitas decepções de várias ocasiões de desespero e na alternativa de me suicidar, que não me pareceu muito saudável, decidi continuar – e por isso aqui estou.

    Pensei tomar 25 gramas de raticida diluído em ácido sulfúrico, com umas pitadas de arsénico; simultaneamente cortaria os pulsos e atirava-me da ponte 25 de Abril e durante a viagem até chegar ao Tejo daria um tiro na mioleira; como complemento e para ficar seguro de que não o meu cadáver ficaria absolutamente falecido, e na mesma altura enforcava-me. Sair-me-ia caríssimo. Desisti.

    Por isso repito o que venho dizendo muito empenhado (já nem tenho cotão nos bolsos): A Nossa Travessa está à disposição total, inultrapassável e inadiável. É http:///anossatravessa.blogspot.pt onde fico à espero de muitas visitas e muitos comentários. Obrigado

    Leãozão

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    1. :)
      E está muito bem. Costumava dizer-se antigamente, que quando Deus fecha uma porta, abre sempre uma janela. Ao meu amigo abriu-lhe um Travessa inteira que compartilha com o mundo.
      Abraço

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  9. Roquamigo

    No meu caso bato-te completamente: 53 anos de sofrim..., casamento três filhos, três noras/filhas quatro netos e uma neta. E chega.... :-)



    Olá!

    Depois de enormes confusões, de muitas decepções de várias ocasiões de desespero e na alternativa de me suicidar, que não me pareceu muito saudável, decidi continuar – e por isso aqui estou.

    Pensei tomar 25 gramas de raticida diluído em ácido sulfúrico, com umas pitadas de arsénico; simultaneamente cortaria os pulsos e atirava-me da ponte 25 de Abril e durante a viagem até chegar ao Tejo daria um tiro na mioleira; como complemento e para ficar seguro de que não o meu cadáver ficaria absolutamente falecido, e na mesma altura enforcava-me. Sair-me-ia caríssimo. Desisti.

    Por isso repito o que venho dizendo muito empenhado (já nem tenho cotão nos bolsos): A Nossa Travessa está à disposição total, inultrapassável e inadiável. É http:///anossatravessa.blogspot.pt onde fico à espero de muitas visitas e muitos comentários. Obrigado

    Leãozão

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    1. Viva!
      Tenho andado numa roda viva desde há um ano a esta parte. Nem ao meu pequeno corner tenho prestado muita atenção.
      Qualquer dia o senhorio despeja-me.
      Mas com o advento da entrada da Neta para o colégio em Setembro, prometo pontualidade, assiduidade e muita tristeza também, porque a saudade das nossas cumplicidades vai ser muita :) :) :)
      Abraço amigo.

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  10. O que é ser feliz?
    Também atravesso processo idêntico. Vê-los crescer tomando parte da aventura é mais emocionante do que ir à lua.
    Felicidades, MD.

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    1. Ser feliz, Agostinho é sentirmo-nos tolos, palermas mesmo, rir por tudo e por nada, parecer que o coração não nos cabe no peito, encontrar brilho no calhau mais baço... saborear um aroma que nos embala, as pirar o doce de um beijo quente, abraçar com ternura e força até o folego nos faltar, embalar a música dos nossos lábios... ser feliz pode ser tão simples e sentir-se com tanta intensidade...
      Que as nossas aventuras nos empolguem daqui a 100 anos , como hoje nos fazem palpitar.
      Abraço.

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  11. Que texto adorável!...
    Mas é compreensível... crianças estranham quando se lhes faz cara feia... mas alguém tem que lhes mostrar os limites... e normalmente... tal cabe mais à Avó... do que ao Avô... mais à Mãe do que ao Pai... sempre foi assim... :-D
    Mas é uma fase encantadora!... e certamente a pequenina gosta de todos igualmente... e só estranha os ralhetes...
    Beijinho! Bom fim de semana!
    Ana

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    1. No fim do dia, quando a mãe a vem buscar, raramente quer deixar a Vózinha :) :) :)
      É uma tolinha linda.
      Beijinho Ana, obrigada

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  12. Na altura em que li este texto e que não comentei porque andava (e continuo a andar) bastante atarefada e com menos visitas aos blogues, ainda não sabia que ia ser avó. Agora, ao relê-lo, antecipo o sabor de momentos como este.
    Tenho acompanhado esta tua mais completa e bela aventura, por isso poupo as palavras.
    O texto, com a tua singularidade literária, faz-nos entrar nessa ternura que só o coração sabe expressar.
    BJOS, querida Dulce :)

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É aqui que me mandas dar uma curva