sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Sem norte em si

"Não há último adeus, senão aquele que se não diz"


Alexandre Dumas









Viajar, num sentido profundo, é morrer. É deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilusão, em saudade, em cansaço, em movimento, pelo mundo além.

Miguel Torga









Más novas são como drones sinistros, que acoitados nas sombras de um céu carregado, deflagram desolação por toda a parte onde caia a tristeza que pulverizam na sua umbrífera viagem pelo éter dos sentidos.


A onda de choque propaga-se velozmente em vagas de densa e fria  incredulidade , que embarga qualquer acção. Faz-se breu. Faz-se dor.

Não posso crer, diz com o mar prestes  a despencar em catadupas frente a uma córnea já vermelha de aflição. Desde miúdo, desde miúdo. Olho-o sem o ver. Temos que ir. Posso jurar que a janela baila à minha frente e o meu estomago a acompanha numa rumba silenciosa, enovelando-se mais e mais a cada passo. Uma corrida. Uma partida.

Rumar ao norte sem norte. Fixo pontos no caminho. Não são cardeais, mas é para lá que seguimos.

Os segundos somam minutos que dão lugar a horas que parecem não querer passar.

Não penses, descansa. Como, com este filme  que se desenrola inexorável a cada pestanejar ?
Com calma. Com força. Com o respeito que lhe devemos.

A circunstância é sempre igual. A tristeza não tem unidade de medida, porque é grande demais.
Cumpre-se o ritual. Fecha-se mais um ciclo de vida, de uma vida rica, plena , doce e sensata. Corta-se o fio prematuramente, mas as lembranças, essas perdurarão através da prole e das memórias felizes das pessoas que tocou na fugaz passagem.

É noite. Está frio e as poucas pessoas que cruzam os caminhos de sombras cruas não têm rosto, são manchas sem sentido num momento de dor.









26 comentários:

  1. Esperança
    Tantas formas revestes, e nenhuma
    Me satisfaz!
    Vens às vezes no amor, e quase te acredito.
    Mas todo o amor é um grito
    Desesperado
    Que apenas ouve o eco...
    Peco
    Por absurdo humano:
    Quero não sei que cálice profano
    Cheio de um vinho herético e sagrado.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Torga é sempre bom. Obrigada Xico. Abraço

      Eliminar
  2. Gostei muito desta viagem virtual.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Gostava de não a ter feito, mas tantas vezes até a tristeza é bela, Pedro.
      Abraço a oriente

      Eliminar
  3. Fotos magnificas... e Torga. Amei!!!

    Um beijo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Torga nunca desaponta. Braga também não. Beijinho Cristina.

      Eliminar
  4. A viagem. A passagem do tempo. A vida que foi e era e será. Gostei de ler.
    Um beijo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E será sempre, enquanto memória dela houver. E se as memórias são grandes, Graça... beijinho e obrigada, minha amiga

      Eliminar
  5. É sempre demasiado doloroso o fecho de um ciclo de vida.
    Para os que amei e amo e que já partiram, nunco digo adeus, digo apenas um até breve, pois para mim eles permanecem eternamente comigo dentro do meu coração.
    Ficam as recordações para amenizar um pouco a sensação de perda e saudade.
    Beijinhos
    Maria

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A vida continua nas lembranças doces. E até já é o mote da vida de todos nós.
      Beijinho Maria, obrigada

      Eliminar
  6. A tristeza não tem unidade de medida, porque é grande demais.
    É assim que tenho me sentido por muitos dias, mas arrisco a esboçar esperanças para seguir.
    Um grande início de semana...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Viva, Malu, obrigada.
      Combater a tristeza com alegria que já vivemos é fundamental.
      Beijinho.

      Eliminar
  7. Olá, MD
    esse fechar de ciclo para o qual nunca estamos suficientemente preparados, suficientemente mentalizados.
    Um deixar de ser manjerico e desfazer-se em saudade - é tão assim.
    As fotos são lindas, apesar da tristeza desmedida.

    um bj amg no seu coração

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada Carmem. É o tempo e as recordações felizes quem manda na tristeza e colmata a falta.
      Braga, mesmo deserta, é sempre linda
      Beijinho, minha amiga

      Eliminar
  8. Braga, doce amor, cidade minha do coração. Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Braga é a minha cidade de adopção. E nunca desaponta.
      Abraço

      Eliminar
  9. Apesar da ilusão de ter na mão o leme, às vezes, durante décadas, a confiar na pendularidade das marés que levam e trazem o barco à praia, o dia em que a precaridade do barro se faz presente surpreende-nos.
    Que o retomar dos dias se faça na esperança dos dias que hão de vir.
    Bem composto e belas fotografias.


    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "Que o retomar dos dias se faça na esperança dos dias que hão de vir."
      Nem mais, Agostinho, meu amigo. É isso mesmo.
      Abraço grande

      Eliminar
  10. Apesar da ilusão de ter na mão o leme, às vezes, durante décadas, a confiar na pendularidade das marés que levam e trazem o barco à praia, o dia em que a precaridade do barro se faz presente surpreende-nos.
    Que o retomar dos dias se faça na esperança dos dias que hão de vir.
    Bem composto e belas fotografias.


    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Gosto quando o Agostinho gosta a dobrar.
      Grande, grande abraço, meu amigo

      Eliminar
  11. "Não há último adeus, senão aquele que se não diz"
    E não dizemos, mesmo! Vai-se sentindo e adormecendo nas memórias.
    Belíssimo "adeus" em palavras de uma poesia tão tua!
    Bjo, Dulce

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Querida Odete, que tem a magia de desatar o nó das minhas divagações.
      Beijos e mil obrigados, minha amiga

      Eliminar
  12. Olá, MD
    só para lhe deixar um beijo.
    ;)

    ResponderEliminar
  13. Respostas
    1. Viva, Marta. Braga à noite tem mais arte e magia do que a fotógrafa que lhe tentou captar a beleza. :) :)

      Eliminar

É aqui que me mandas dar uma curva