segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Mensis Horribilis

"Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor"

Álvaro de Campos




Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar
 A tua dôce e angelica Figura,
 Esquecida, embebida num luar,
 Num enlêvo perfeito e graça pura!

 E á força de sorrir, de me encantar,
 Deante de ti, mimosa Creatura,
 Suavemente sentia-me apagar...
 E eu era sombra apenas e ternura



Teixeira de Pascoaes






Faz hoje um ano.



Nasceu apressada, a pequena amostra de gente, mas iluminou com o seu choro as lágrimas de alegria que corriam ansiosas pelas faces expectantes de quem esperava a boa nova.
Era uma trouxinha diminuta que cabia na cova de um braço, mas irradiava tanto amor como uma estrela à volta da qual gravitavam uma série de mundos próprios de cada um, porque cada um encerra em si o seu próprio mundo e são todos esses mundos juntos, que formam o universo de igualdades e diferenças a que chamamos humanidade.
Rapidamente nos tornámos heliocêntricos de carinhos e desvelos. Era vê-la brilhar radiante  para nós.








Uma tarde, igual a tantas tardes em que conversávamos sobre tudo e sobre nada , o tsunami do horror irrompeu em cascatas sangrentas.
O telescópio côncavo da minha memória desse dia, teima em não me deixar recordar vividamente os pormenores.

O gelo das mãos dormentes, o rosto sem cor,   uma fresta branca por onde saía o som  " Não a deixes" " Sossega que não deixo". Não deixei.

Vi as luzes, ouvi a sirene, sempre com a trouxinha apertada contra o peito, alheia no seu pequeno mundo, ao que se passava com os outros mundos  que orbitavam ao seu redor. Bendita inocência.









Foram dias terríveis. Foram dias de incertezas e de ignorância.

 Não saber.

Não saber torna-nos impotentes perante tudo.
Eu queria estar lá e confortá-la, e sentá-la no colo e dizer-lhe que sim, que podia chorar, que chorar alivia , que iria ficar bem. "Tudo se vai compor, verás" falava para o éter do gadget que segurava nos dedos impessoais com a convicção que a insegurança e o medo não me deixavam imprimir às palavras.

Noites insones povoadas de fantasmas negros e esvoaçantes, aflitivos e dolorosos como espadas aguçadas , o fantasma da sepse, o fantasma da hemoglobina sem valores optimistas, o fantasma do surto e outros que reneguei como se de demónios se tratasse...

Noites em que as lágrimas se afogavam num lamaçal por onde corria o coração como um cavalo selvagem , cascos em riste, imparável, sempre em sobressalto .

A trouxinha, a estrelinha que já era a minha vida, passou a ser a única luz naqueles dias de trevas. Eramos  só as duas, só nós e os nossos pensamentos.

Fiz as pazes com Deus, com quem deixara de conversar há algum tempo,  por  mirar para além dos horizontes que a vista alcança e não o encontrar . Um bom pai deve ser um pai presente. Tantas vezes  no meio de tanta angústia e sofrimento, no meio de tanto mal, não lhe achei vestígio. Senti que desertara... ou quem sabe terei sido eu quem não quis procurar mais ?

Pedir perdão por pecar por omissão ? Fechei os olhos e rezei. Não me lembro de ter  alguma vez rezado como rezei naqueles dias e naquelas noites.

E Deus ouviu. E ela veio para casa, fraca e combalida, mas com o mesmo brilho e a mesma determinação que eu sempre lhe conheci no olhar.

Voltou para a sua estrela e tudo  recuperou a cor e o brilho que empalidecera.







Faz um ano um destes dias.

Hoje faz um ano que nasceu o nosso pequeno sol e que os nossos mundos pessoais reaprenderam as translações de outrora, agora com uma cadência diferente.


A alegria começa com A e comemora hoje o seu primeiro aniversário. Que possa ser o primeiro de muitos e que seja sempre feliz.



                                               
                                                        

( Todas fotos por MD Roque)

18 comentários:

  1. Associo-me aos seus votos - que seja o primeiro de muitos.
    E sempre em muito boa companhia.
    Boa semana

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    1. Viva Pedro
      Muito obrigada em nome da Alice.
      Um grande, grande abraço, meu amigo.

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  2. Parabéns ao vosso "pequeno sol". Que brilhe sempre nas vossas vidas e que seja feliz. Gostei muito do texto.
    Um beijo.

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    1. Obrigada Graça. Um beijo meu, outro da Alice

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  3. que seja o início de uma vida longa e feliz.
    muitos beijos para as duas!

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    1. Queira Deus que sim, Flor.
      Grandes beijocas minhas e da Alice

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  4. que bom que tudo correu bem, um beijinho e que seja uma boa semana, muitos parabéns para a vossa estrelinha

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    1. É a primeira vez que consigo falar/escrever sobre o que se passou.
      Já passou. :)
      Beijinho s meus e da Alice, Diana. Obrigada.

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  5. Alguma coisa me fez vir aqui. Intermitentemente passo por cá porque esta galáxia tem luz.
    Recordo-me da emoção que com que revelou o nascimento da Alice - o Sol que se ergueu para iluminar o vosso caminho.
    Na altura tocou-me (mais) por estar à espera do nascimento de uma menina-neta.
    E, agora, reparo que eclipses houve que perturbaram o brilho da A. mas que felizmente tudo voltou ao normal. Graças a Deus.
    Também, do meu lado, houve uma sombra a perturbar a elipse da minha estrela L. mas, aos 10 meses, começou a irradiar em pleno a sua luz.
    Parabéns e muita saúde para si, MD, e para a sua menina.
    Bj

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    1. olá Agostinho. Obrigada meu amigo.
      Alturas há em que tudo se equaciona e só o que importa mesmo é de valor.
      A saúde, a alegria de viver, o amor, a amizade...
      Bom 2016 e um grande abraço.

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  6. Que felicidade, muitos parabéns!!!

    Beijo

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    1. Viva Cristina . Obrigada ! :) :)
      Beijinho.

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  7. ...Fiquei preso à leitura. Partilho da sua felicidade - parabéns. Cumprimentos

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    1. Olá Carlos. Grata.
      Um abraço e bom 2016

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  8. Acho que ainda venho a tempo de desejar que de ora em diante sejam só alegrias e felicidade na vida da Alice.
    (acho que tinha perdido este post)
    Um beijinho para as duas e um abraço, mais um, à maravilhosa avó que a Alice tem.

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    1. Bem haja Susaninha. Tenho um bom feeling para 2016. Pode ser que sim :) :)
      Beijinho

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  9. Olá, querida Dulce!
    1- Citações: sempre o Homem e a necessidade intrínseca de ter chão, raízes, afeto e o seu desencanto perante o lado obscuro das coisas. Ainda assim, não abdica de glorificar o que o emociona, o que o encanta.
    2- Texto: e já passou um ano e eu só cá venho hoje, dia 25 de fevereiro! Imperdoável! Arrepiei-me e emocionei-me. Lembro-me dessa aflição, dessa dor. Não tenho palavras, apenas consigo percecionar esses dias de angústia. E, sim, como percebo essa reconciliação com Deus...
    Passada a tempestade, só tens tido bonança. Que assim seja para sempre. Deixo, simbolicamente um bjo para a Alice. De vez em quando, deixo-os noutros espaço...:)
    Para ti, um bjo por seres um ser maravilhoso :)

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    1. Aqui, ali ou acolá, estamos presentes.
      Beijo, querida Odete. Um meu outro da Alice

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É aqui que me mandas dar uma curva