domingo, 19 de julho de 2015

Robbing Souls

"A melhor coisa sobre uma fotografia, é que ela não muda mesmo quando as pessoas mudam"

Andy Warhol




O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio.


Machado de Assis








É fantástico olhar um céu azul pontuado de flocos brancos que vão adquirindo tonalidades espantosas com o passar da hora do dia ao sabor do sol,  de nascente a poente.







Mal acordo , olho o horizonte delimitado por telhados escuros , onde, levemente à esquerda,  uma promessa de luz começa a despontar. Capturo a imagem. Sorrio. Depois do estímulo da cafeína olho o horizonte do outro lado e sorrio sempre ao quadro, aquela pintura todos os dias diferente, parte daqueles jogos de luz e sombra, que conferem tonalidades diversas ao mar e acordam a cor da terra à medida que a luz avança.

Capturo mais uma imagem. São todas iguais à  primeira vista, mas um segundo olhar mais atento , um pormenor mais detalhado, revelará que não há duas imagens iguais.









Capturar um momento de luz é fantástico, seja ele qual for. A luz que brinca na espuma branca de uma onda que marulha , naquele papel que voa em incansáveis piruetas, na copa de uma arvore que ondula ao vento, no cristalino de uma iris garça, nas asas de um pardalito acromático que voa em contraluz...





























Em algumas culturas acreditava-se que as fotos roubavam as almas. Eu também acredito, acredito que roubem e guardem infinitamente a alma daquele nanosegundo em que se fez luz, uma luz diferente e esplendida.



Uma pedra, uma fresta,  uma flor, uma paisagem de cortar a respiração. Muitas são as vezes que a procuro, á beleza que me faz roubar a alma do tempo. Outas tantas é o acaso que a enquadra na periferia das imagens que a minha retina inverte.





Rever instantes é reviver emoções. É querer mais e tentar a todo o custo voltar aquele momento de felicidade. É mentira que nunca se deve voltar onde se foi feliz. Eu volto. Volto muitas vezes.







 Encontro o tempo parado no tempo,  a girar feito louco naquela mudança que muito poucos têm a felicidade de reconhecer.




Anseio pelo porvir, pelos anos dourados em que nadarei em rios de tempo manso e poderei decidi-lo a meu bel prazer.

Anseio criar, mas não tendo alma de artista, contento-me em poder revelar momentos da criação. Quero aprender a roubar almas, muitas, deliciar o mundo com elas. Deliciar-me a mim.





Só me entristece pensar que depois da travessia do meu Êxodo laboral, possa ter Canaã à vista e que seja apenas a miragem do meu sonho; como insondáveis e misteriosos são os caminhos de Deus,  seja eu mais um Moisés, como foi o meu pai antes de mim.





( Todas as Fotos de MD Roque)
                        





domingo, 12 de julho de 2015

My Bat Life - The Bat Nights

"O que importa não é passear de noite mas deixar a noite passear-se em nós. "

Mia Couto








Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
 vago e belo e voluptuoso,
 num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos
                                                                                  [e quedos.
 Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
 deixai que os caminhos da noite,
 cegos e rectos como o destino,
 suspensos como uma nuvem,
 sejam os caminhos dos poetas
 que lhes decoraram o nome.
 Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
 Esconde a vida no seio de uma estrela
 e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
 para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

Fernando Namora




















Saio para a rua.
A noite é terna e afaga-me o pensamento cansado
Envolve-me naquele abraço , amigo de tantos anos
São incontáveis as vezes que a noite e eu nos juntámos em silêncio e sorrimos aquele sorriso de reconhecimento mútuo.
Eu sei , sei sempre que vamos estar juntas e creio que ela sabe também.






Acima da minha cabeça sinto o restolhar das asitas de um pequeno morcego. Deve ser o trineto duma linhagem que nos saúda , a mim e à noite, todos os anos por esta altura.

Sinto-me mole, apetece-me encostar à brisa que sopra do mar e deixar-me embalar no seu arrepio morno, mas não consigo; mesmo querendo é impossível.
 A noite é ainda uma criança e conta comigo para atravessar a luz vazia até próxima manhã, assim como eu conto com ela para me deixar acordar. E recordar. A noite tem medo do escuro mas é no escuro que se transcende.

Sou uma mancha,  sou uma sombra, sou o silêncio e o ruido surdo .
A noite é minha e as duas somos uma só numa fascinante e antiga dança de  sombras que nos prende naquela nesga de espaço onde a luz não está.











                                                         

sexta-feira, 10 de julho de 2015

E a vida fica para trás....

“Working gets in the way of living.”


Omar Sharif


 "Portanto, nada de contenção exagerada. O seu discernimento deve ser o seu guia. Ajuste o gesto à palavra, a palavra ao gesto, e cuide de não perder a simples naturalidade. Pois tudo o que é forçado foge do propósito da actuação, cuja finalidade, tanto na origem como agora, era e é erguer um espelho diante da natureza. Mostrar à virtude as suas feições; ao orgulho, o desprezo, e a cada época e geração, sua figura e estampa. O exagero e a imperícia podem divertir os incultos, mas causam apenas desconforto aos judiciosos; àqueles cuja censura, ainda que de um só, deve pesar mais em sua estima que toda uma plateia de ignorantes.





William Shakespeare, in "Hamlet"










"I don't like people who have never fallen or stumbled. Their virtue is lifeless and it isn't of much value. Life hasn't revealed its beauty to them"


Zhivago





"In time to come, I tell them, we'll be equal
 to any living now. If cripples, then
 no matter; we shall just have been run over
 by 'New Man' in the wagon of his 'Plan'."

Zhivago's Poems












De entre os filmes da minha vida , destaco sem grandes demoras Dr. Zhivago e Lawrence of Arabia, duas obras grandiosas desse excelente director que foi David Lean, ambas protagonizadas por Omar Sharif.

Omar Sharif deixou-nos hoje com 83 anos. Sofria de alzheimer.
Creio que todos os que o viram como Yuri Zhivago ou Sherif Ali, nunca o esquecerão. Ele já se esquecera de si próprio e das grandiosas histórias da história de que fez parte.


Estará sempre na memória de todos aqueles que ainda gostam de bom cinema e para quem a História Mundial não é apenas um passatempo, é um registo da vida.












"Does it surprise you, Mr Bentley? Surely, you know the Arabs are a barbarous people. Barbarous and cruel. Who but they! Who but they! "


Sherif Ali


"Truly, for some men nothing is written unless THEY write it."


Sherif Ali



Até sempre, egípcio misterioso. Que Alá te guie até ao poço onde beberás e te refrescarás para a tua última viagem




PS: Nem sei se alguém se lembra de eu ter contado que o meu primeiro animal de estimação foi um cágado, a quem muito apaixonadamente chamei Omar Lombrando :)