sábado, 14 de março de 2015

Sem Abrigo

"Tornas-te eternamente responsável por tudo aquilo que cativas"


Antoine de Saint Exupery




Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós.
 Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.


Antoine de Saint Exupery








Ter um blog dá trabalho.

Ter um blog é quase como ter um filho que necessita muita da nossa atenção.

Eu sou um raio de uma mãe desnaturada. Não tenho ligado muito ao catraio.

 Ultimamente tenho praticado o que vi e ouvi na minha juventude em Nandufe: " é deixá-los andar, deixá-los livres, soltos e alegres, que medram felizes e homens de bem."

Contudo há que lhes alimentar a alma, porque corpo airoso sem alma, definha e perece e não ressurge nem nas lembranças de quem fica quanto mais nas de quem passa.



Não gosto de encher chouriços. Já o fiz tantas vezes sem me aperceber, outras conscientemente,  na prática e in loco, na verdadeira acepção da coisa, como escrevi em Porcos e Maus, no Paleolítico das minhas lides blogosféricas.



Nunca me defini como a escritora que não sou, nem como a blogger que gostaria de ser. Sou apenas uma piquena entradota que escreve coisas quando tem uns minutos a mais  no cronómetro milimétrico dos seus muitos afazeres.


Quantas vezes não me esfalfo para me recompensar com o almejado intervalo, me sento à secretária, olho o monitor e não sai nada... eu bem espremo, a sério, mas são demasiadas as vezes que a atenção me chama para outra realidade.

Até a  cabeça anda por outras paragens, mais arejada, mais calma, mais adaptada á nova dimensão das coisas... eu bem tento fazê-la descer à terra e extrair-lhe  ideias divergentes, cadentes, luminosas  que,  como estrelas num céu escuro, consigam compor a tiara brilhante que por fim iluminará a triste sina deste enteado que criei como filho e depois votei ao esquecimento e ao abandono.


Tem dias que lhe dou algum tempo e  lhe estendo a mão, qual soberba rodeada de órfãos que agracia com sorrisos e a moeda que compra pão mas nunca afecto. E eu gosto dele, do meu blog, é meu... mas quero senti-lo, quero amá-lo, não quero que seja a obrigação que move o dedo que prime a tecla. Não o quero o meu sem abrigo particular.

Quero que quem leia me encontre aqui, em cada letra, cada ponto, cada virgula, cada sorriso ou em cada lágrima.






                                                      

sexta-feira, 6 de março de 2015

Rituais

"Existem noites em que os lobos ficam em silêncio, e apenas a lua uiva."

George Carlin






Luar, luar,

Toma o teu ar,

Deixa a minha menina

Crescer e medrar.



Lua, Luar

Toma lá esta menina

Ajuda-ma a criar

Tu és a Mãe, eu sou a ama

Cria-o tu que eu lhe dou mama








( Fotos de MD Roque, 5-3-2015)


"Anda cá ver", chamou ele da janela de trás. Eu estava na cozinha à volta dos tachos no ritual diário das sete da noite, enquanto olhava pela ampla janela o fogaréu que o pôr do sol acendera lá ao fundo e sorria, como sempre sorrio à beleza de um momento que gostaria de poder imortalizar fora das minhas recordações.

Apaguei o fogo que ateara no fogão e fui lá atrás ver. 

Subindo alegremente por detrás dos prédios no lusco fusco dum céu cinzento-azulado, a lua brilhava radiante, brincando com as meninas dos olhos que se contraíam   à luz.

Sorri de novo à lembrança de outras meninas e às palavras da minha Mãe.

"A menina está com a lua" disse ela enquanto a pequenina revirava os olhos no seu cândido sono. " Lembras-te como é ? Como a Avó Júlia ofertava as crianças à Lua? Tens que o fazer numa noite de Lua Cheia" 

Lembrava-me bem. A varanda comprida, a luz apagada, a noite escura. Só nós as mulheres, a criança e a lua. Não era coisa para homens, eles não podem porque só plantam não criam, não têm ventre fértil.
Lembro-me da Bisavó pegar o Menino nos braços, levantá-los  e a ele à lua e proferir palavras que aprendera com quem aprendera de quem já tinha aprendido.



Luar, luar,
Toma o teu ar,
Deixa o meu Menino
Crescer e medrar.



Lua, Luar
Toma lá este Menino
Ajuda-mo a criar
Tu és a Mãe, eu sou a ama



Cria-o tu que eu lhe dou mama


Lembro-me do silêncio, do jogo de sombras e luz que a Lua pintou na figura da Bisavó Júlia conferindo-lhe a aparência de uma gentia estátua de alabastro, lembro-me da cor esverdeada nas feições das mulheres em segundo plano, lembro-me que na parede atrás de nós adensavam-se figuras amorfas numa amálgama de assombro e escuridão. 
Lembro-me do choro do Menino, a quebrar aquele momento de silêncio pagão e belo. Lembro-me de ficar feliz quando acabou, porque eu tinha onze anos e muito medo.

Quanto tempo passou... muito mais de quarenta anos. Olho de novo para a Lua no céu e parece-me tão igual. Eu já não sou criança. O Menino já não é bebé. Nós crescemos, mudámos, mas a lua continua a sorrir-nos com o mesmo sorriso trocista e enigmático da feiticeira que é, detentora do poderoso encanto do tempo e da magia da noite.

Outro tempo, outras crianças, a mesma lua,o mesmo mar de luz,  o mesmo ritual.