sábado, 28 de fevereiro de 2015

To boldly go where all men have gone before

"Change is the essential process of all existence."

"I have never understood the female capacity to avoid a direct answer to any question."

"Once you have eliminated the impossible, whatever remains, however improbable, must be the truth."

"The needs of the many outweigh the needs of the few, or the one"

Spock




No principio , era cinza.

 Com o advento da cor transmitida por ondas electromagnéticas de alta frequência , coloriu os nossos serões.

Canastrões, aventureiros, heróis e filósofos, o Star Trek marcou gerações de trekkies e abriu caminho para a saga do Império.

O Vulcano, pragmático e prático, sempre com o  imprevisível cromossoma humano a trair-lhe sentimentos, foi de longe o personagem mais emblemático de todos os personagens da série. 

Juntávamo-nos aos molhos em frente de uma TV e roíamos as unhas de excitação e nervosismo durante o desenrolar da trama, sempre expectantes e ansiosos. Pelos padrões dos sets e efeitos especiais  de hoje, era extremamente básico mas não menos emocionante do que um oitavo passageiro.

Lembro-me de um Carnaval me mascarar à Spock. Outra vez, uma queda feia deu-me uma testa "à Klingon"... (o pior foi quando o inchaço desceu para os olhos...)

Sempre gostei dos diálogos e da filosofia de vida daquele daquele emocionante e lógico personagem que dizia desconhecer emoções , nos ensinou a pensar antes de agir e deixou um novo gesto de despedida, como se fosse um até já :

"Live long and prosper"


A good trek to the stars commander.

(Leonard Nimoy/Spock   1931-2015)



                                                         

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Óscar

"Tanto ou mais que as pessoas, os lugares vivem e morrem. Com uma diferença: mesmo se já mortos, os lugares retêm a vida que os animou."

Fernando Namora




Lugares da infância onde 
sem palavras e sem memória 
alguém, talvez eu, brincou 
já lá não estão nem lá estou.

António Pina






"Óscar, ó Óscar" gritava a ti' Elisa da sua casinha térrea, mesmo em frente ao Chafariz da Memória. "Ó Óscar!! É preciso dar de comer á criação, homem de Deus!"

O Felgueiras, hábil barbeiro, perito em carecadas e cortes à tigela  que se tinha estabelecido em Belém há muitos anos, sorria encostado ao batente da barbearia vazia, enquanto soprava languidamente novelos de um fumo esbranquiçado, que se soltavam da beata gasta do cigarro que enrolara minutos antes. Era isto todos os dias. O Óscar desaparecia e a mulher dele gritava que lhe acudisse mais à criação.

Era um casal castiço. O ti'Óscar, careca, bonacheirão mas seco de carnes e a ti'Elisa, uma negra roliça e de peito farto que o obrigava a andar a nove com os muitos afazeres quotidianos da sua vida de reformados.

A minha tia Adelaide parava sempre junto à janela aberta para dois dedos de conversa e eu aproveitava para ir molhar o bico na bica do chafariz.

A casa do ti'Óscar e da ti'Elisa ficava encravada entre a porta da D. Maria Alpalhão, a senhoria,  senhora baixinha e sem idade aparente durante mais de 30 anos , dona da maior parte das casinhas da Memória  , a janela da D. Alda, esposa do Sr. Severo e mãe da Miss Belém da época e o Torrado, mercearias finas e taberna, ponto de encontro de fim de tarde de quase todos os homens das redondezas para o seu copito de três ou para a proverbial suecada.
 Todos os Sábados de manhã,  munida com um pequeno frasco e cinco tostões, ia eu até ao Torrado comprar brilhantina para o meu pai e trazia o troco em pevides.

Naturalmente que o ti'Óscar se perdia mais pelo Torrado do que em tricas com o mulherio, por isso não era de todo difícil de encontrar. Quem o queria ver bem, era ouvir-lhe as várias anedotas de um repertório que metia num chinelo muito humorista de standup. Era uma barrigada de riso - e eu ria, por contágio claro, porque com sete anos pouco ou nada entendia do conteúdo.

A ti'Elisa era a beijadora oficial de todos os bebés nascidos ali... para dar sorte, dizia ela sempre a sorrir, com uns pequenos óculos encarrapitados no nariz. Tinha sempre um afago e um rebuçado para mim.

Quase em frente ao Óscar da ti'Elisa, ficava a porta tripla do "pitrolino", de quem nunca soube o nome... "Sr. Pitrolino, a minha mãe quer um litro de lixívia "- dizia eu de braço esticado, a segurar uma garrafa vazia de Camilo Alves com uma cápsula de plástico...

Logo ao lado, ficavam as escadas de pedra da Vizinha Custódia, onde eu, a Susana, a Bandeira e a Luisinha da Menina Joaquina, brincávamos ás casinhas e às escolas, com papeis, carretos de madeira de carros de linhas vazios, trapinhos dos restos da costura, latas velhas, paus e pedrinhas. Tantas vezes já o sol se recolhera e nós lá, felizes e despreocupadas, porque a maldade ainda não se tinha tornado mesmo má, mesmo apesar de eu ser, como dizia o ti' Óscar, a "Filha do Veneno"... a Mãe foi e sempre será nos anais da Memória a miúda mais endiabrada que se conheceu, o terror de toda a rapaziada*...  enfim, um "autentico veneno"...






                                                        


* Leia-se RAPAZES.










sábado, 21 de fevereiro de 2015

Fiel Amigo

"Responsabilidade: um fardo descartável e facilmente transferido para os ombros de Deus, do Destino, da Sina, da Sorte, ou do nosso vizinho. Nos tempos da astrologia, era comum descarregá-lo para cima de uma estrela"

Ambrose Bierce




(...)Serei talvez isso tudo…
E depois ? Em que me hei-de dar? 
Gira o tempo, gira a vida,
E tudo sempre a mudar !
Quem sabe lá os destinos
Que Deus tem para nos dar

Arminda Frade ( do meu livro da 3ª classe)









Apesar de ser um ideia de valor e a considerar seriamente em futuro próximo, não serão estas linhas uma dissertação sobre as propriedades e qualidades do bacalhau, como proteína de eleição na mesa dos portugueses, prato principal obrigatório de muitas consoadas, típico na patanisca e bom no pastel, fonte de inesgotável ómega 3, essa gordura poli-insaturada imprescindível na diminuição dos níveis de triglicerídeos e LDL e consequente promotora de gentes saudáveis. Acrescentei-o à minha to do list, quem sabe não inspirará no mínimo um soneto ou uma ode.

Sendo eu pessoa mais ligada a astronomias do que a astrologias, acredito que o universo se rege e nos rege de algum modo misterioso e insondável, mas que somos mais afectados pelas decisões que tomamos e caminhos que seguimos, do que pela constelação em ascendente no dia e hora em que respirámos ar pela primeira vez.

Na elíptica celeste do Zodíaco, tenho, ao que parece, a vida governada pelo astro rei e o mau feitio do fulvo felino de quatro patas e dito rei da bicharada. Por outro lado, noutras leituras celestes, estas em anos lunares, calhei de brotar para a vida num ano sob a influência do melhor amigo do homem.

É inevitável que se me afigure que até os astros se conjugam em qualquer das leituras para me pôr de quatro com a vida, mas parece que afinal até é bom, que são aparentados quadrúpedes, muito dados às artes e ao saber, com brilho e modéstia qb.

E eis-me assim, meio doce, meio selvagem... agridoce, portanto : "odeio  a injustiça, com um coração nobre que me leva a lutar contra o que considero injusto e tirânico, no entanto não sou muito conflituosa e prefiro sempre o caminho diplomático sobre a opção violenta, sou adaptável e sei aceitar as limitações da vida "...  mas atenção! : "Sou criativa e extrovertida,  prepotente e mandona, serei  até uma pessoa arrogante, orgulhosa e com muito mau génio. Posso ser intolerante e dogmática, mas em geral sou boa, idealista e inteligente."

Confesso que leio os horóscopos. Não os procuro. Leio por ler, se casualmente me deparo com eles e sorrio sempre com a leitura. É naturalíssimo que adivinhe algo de mim em todo aquele emaranhado de contra-sensos.
Mas no novelo de qualidades e defeitos que compõem a personalidade da nativa de muitos sois e tantas luas, há algo comum que considero acertado: sou responsável, sou alegre, sou fiel e sou amiga. 
Sou sim e basta-me saber que sou constante como a primeira estrela, o anjo da manhã que saúda a aurora e recebe o ocaso.





                                                        

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

De mim, para mim.


"Quando procuro o que há de fundamental em mim, é o gosto da felicidade que eu encontro."
Camus






(...)Gosto, como os animais das florestas e dos mares,
 De me perder durante um grande pedaço,
 Acocorar-me a sonhar num deserto encantador,
 E forçar-me a regressar de longe aos meus penates,
 Atrair-me a mim próprio... para mim.


Friedrich Nietzsche






Depois de mais uma noite com o jetlag da Alice a reaparecer assim do nada, como um post-it do subconsciente a relembrar que as intermitências do descanso e do cansaço andam de mãos dadas e são inseparáveis univitelinas, saltei do calor que já sentia quente demais para a amenidade do tapete afegão, provavelmente contrafeito no Afeganistão e vendido aos incautos num saldo fantástico, um autêntico negócio da China, como acreditei na altura.

Bem empantufada, dou de caras comigo a olhar para mim, como uma expressão de desdém trocista, como que a chamar-me a atenção para a minha própria figura de matrona de cabelo grisalho desgrenhado, encafuada num robe polar, por cima de um pijama polar , pálpebras inchadas e boca seca,  numa  ruidosa tentativa de fazer entrar algum ar pelas fossas nasais intumescidas com a proverbial sinusite ... um figuraço.

 Mesmo ao lado, o meu Dorian Gray olhava-me do alto, fabuloso nos seus 18 anos de mulher esbelta de grandes olhos castanhos e farta cabeleira escura . Deve sofrer horrores todos os dias, sem conseguir perceber qual o passe de mágica ou o bruxedo que resultou naquela deformidade.

Acode-me a lembrança das vaporosas camisas de noite em cetim negro delgadas como um traço fino num retrato a carvão.
Sorrio para mim, com aquele sorriso conformado de quem sabe que não pode alterar uma escultura que o tempo vem cinzelando devagar. Tentar mudar-lhe a forma, seria descaracterizá-la por completo e não representaria a mim própria nem a ninguém.

Se eu pudesse escolher ser alguém diferente, tenho a forte convicção que escolheria ser a MD Roque, com o seu mais de meio século nas ancas, com todas as partidas que a força da gravidade lhe pregou, com os mesmos olhos castanhos que não perderam o brilho e falam com quem os souber entender e com todo o saber que de tanto não é nada na realidade, mas que me faz feliz por o saber comigo.

Aqui só para nós, acho que até gosto de mim. 
Quero-me assim









                                 

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Novidade

"O que mais importa não é o novo que se vê mas o que se vê de novo no que já tínhamos visto."

Vergílo Ferreira





The News



Here is The News:


'Two incredible shoes.


Two incredible shoes.
That's The News.

When it rains
they walk down drains.

They glow
in the snow.

They grizzle
in a drizzle.

They sneeze
in a breeze.

They get warm
in a storm.(...)





M. Rosen












Não sei ao certo em que altura da  vida se iniciou o meu processo de mecanização.
Deve ter acontecido entre o adormecer numa noite escura e fria e o acordar num dia triste e cinzento, com o som amargo do despertador a chamar para mais uma realidade diluída nos anos que já passaram comigo aqui. Resmunga-se o grunhido habitual à alvorada que ainda não despontou e vai-se a ver se chove.
O meu andamento ritmado toca diariamente as mesmas notas, toada descomposta de som e de cor, batida constante e cadenciada, mecânica, igual. É a minha normalidade. É o que dá o tom ás horas que compõem os meus dias, todos diferentes e sempre tão iguais entre si em cada minuto que passa. Não passa nada. É bom. É normal.

Não sei ao certo em que altura da vida criogenizei os pensamentos e opiniões para servirem o advento da minha imortalidade futura. Sempre acreditei que enquanto de mim houver memória numa memória do porvir, o nome da minha identidade terá a imortalidade fugaz que a minha normalidade conferiu à minha existência.

Mas sei precisar ao milésimo de segundo o momento da vida em que a minha normalidade sofreu o mais forte abalo telúrico de sempre. Um bomba feita gente pequena que mexeu com os meus dias, revolveu as minhas horas, revirou os meus minutos, os meus tons e os meus sons.
No degelo dos ideais, encontrei uma verdade maior e um sentido único com derivações de cor e sabor a vida nova.