quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Os milagres acontecem depressa, felizmente

"No desespero e no perigo, as pessoas aprendem a acreditar no milagre. De outra forma não sobreviveriam."

Erich Maria Remarque





Não acredito em nada. As minhas crenças 
Voaram como voa a pomba mansa, 
Pelo azul do ar. E assim fugiram o 
As minhas doces crenças de criança. 
Fiquei então sem fé; e a toda gente 
Eu digo sempre, embora magoada: 
Não acredito em Deus e a Virgem Santa 
É uma ilusão apenas e mais nada!

[...]

Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

Florbela Espanca






Passada já metade da sua existência terrena, tantos dias vividos, vistos e sentidos, tanta informação, tanto conhecimento, tanta avaliação, tanta escolha, para qualquer agnóstico teísta o conceito de Deus é algo vago e inacessível. Fundamenta a sua crença em algo superior ao homem que orquestra o universo , mas Tomé que no fundo sempre foi, não crê muito no que não vê.

É fácil atribuir a existência de Deus ao que vai no coração dos homens, que procuram sempre justificar os seus actos e as suas práticas, o bem e o mal,  com a religião, qualquer religião qualquer Deus, qualquer demo.

A vida é aquele carrossel que rodopia incessante, onde entramos e saímos ao fim do número de voltas para as quais só temos bilhete de ida.
Por mais que se queira tomar as rédeas do cavalinho que montamos, nem sempre a agitação do estrado ondulante o permite. Alturas há em que a musica infantil e alegre se transforma no sobressalto duma Laranja Mecânica, que vira do avesso qualquer existência que se pensa controlada.

É então que o agnóstico crê, crê no que não vê, agarra com ambas as mãos a fé que desconhecia possuir, pede, implora, reza até.

Reza a Deus. Deus concede. O homem acredita.

Deus existe, afinal. Louvado seja Deus.



                 


Deo ubique est

"Deus não pode estar em todo o lado e por isso criou as mães"
Provérbio judáico




segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Hello World

"Há estrelas grávidas de luz."

R. Gomez de la Serna


Eu andarei por ti os maus caminhos 
E as minhas mãos, abertas a diamante, 
Hão de crucificar-se nos espinhos 
Quando o meu peito for o teu mirante! 

Florbela Espanca






"Começa pelo princípio e continua até chegar ao fim; aí, pára."
Lewis Carrol


Sou egoísta.

Estou para aqui extasiada e deixo que o mundo me passe ao lado sem sequer me importar.
Verto lágrimas de alegria, quando muitos choram de tristeza e indignação.
Que caiam raios, venham ventos, abalos telúricos, que desabem os rios presos em nuvens de enxurrada, que o mar me galgue o ser e roube o ar...
Estou para aqui extasiada e não me incomodam chamas de infernos ardentes ou fétidos purgatórios, porque sou egoísta e sinto-me no céu, segurando nos braços toda a riqueza que poderia ambicionar.

Não consigo ver mais nada, além beleza que me prendeu assim que os meus olhos se abriram para a minha luz .



A Alice nasceu às 17:45h do dia 11 de Janeiro, apressada como um coelho branco, Obrigando a mãe a 12 penosas horas até ser decidida a mesma intervenção que deu César ao mundo. É pequenina. É linda. É minha.
É a minha luzinha.
Sou uma fulana egoísta como tudo, não sou ?




                                                   

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Fascinação

 "O fascínio é, na verdade, mais poderoso que a verdade."


 Carl Sagan



Ela dorme tão perfeitamente despertada 
que em si a verdade é o vazio. Ela aspira 
à cegueira, ao eclipse, à travessia 
dos espelhos até ao último astro. Ela sabe 
que o muro está em si. Ela é a sede 
e o sopro, a falha e a sombra fascinante. 
Ela funda uma arquitectura volante 
em suspensas superfícies ondulantes. 
Ela é a que solicita e separa, delimita 
e dissemina as sílabas solidárias. 

António Ramos Rosa







Amanheceu tiritando, triste e  escondido pelas densas camadas de ar glacial e condensado que lhe embaçavam a luz   e subtraiam o calor.  É normal Bóreas soprar gelado nestas datas e erguer uma barreira frígida forte, que nem mil forjas de Hefesto conseguem aniquilar. Resignado, foi tentando que os seus raios escapassem por uma ou outra fresta, que brincassem por entre os flocos de Quione, enfim, foi jogando, fugiu por aqui, saltou por ali ultrapassando os obstáculos da estação , para que pudesse levar algum calor aos homens.
Entretido que estava nesta sua invernosa rotina, mal reparou no negro que se aproximou, naquela rua, naquela hora da manhã tão fria, em que os homens se afadigavam gelados e o calor ainda não tinha passado de nível para lhes conseguir entrar no peito.
Então viu. E ouviu. E sentiu.
Viu que o carmesim que tingiu o espaço não provinha das suas pinceladas de aurora cor de fogo.
Ouviu o ribombar. O estrondear do ferro e do fogo, o atroar dos gritos de dor e o rosnar gutural da indiferença e da selvajaria.
Sentiu o cheiro da morte.
Sentiu- se culpado. Após milhões e milhões de anos a aquecer os corações dos homens, não conseguira derreter a pedra de gelo que os envolve. Sentiu-se como num eclipse, em que as sombras se apoderam da terra e o negro e a escuridão se propagam como um vírus devorador de consciências.

Continuou a ver, envergonhado mas incapaz de resistir, testemunha silenciosa do feitiço que o mal provoca nas almas.
A fascinação é poderosa demais para se poder desviar o olhar.
Foi ontem.