sábado, 20 de junho de 2015

O Borrão

"Em vez de pintar coisas puseram-se a pintar ideias."


Ortega y Gasset







Tempo — definição da angústia.
 Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
 Ao coração pulsátil dum poema!
 Era o devir eterno em harmonia.
 Mas foges das vogais, como a frescura
 Da tinta com que escrevo.




Miguel Torga










Divago no vazio do olhar que preguiça, volto a olhar e não me chegam os detalhes, não os sinto, não me falam. Baixo a mão desanimada que segura o pincel e reparo que os braços disformes que marcam o tempo indicam que já passou muito.

Que perda de tempo estar a olhar tanto tempo para o vazio, para aquela terra de ninguém, onde nem as ideias se esboçam arquitectadas em pensamentos ou fantasias.

Também quem me manda aceitar pintar  ideias dentro de um prazo ?

Eu que nem sei a forma que um prazo tem e agora há prazos para tudo. Como garantir que não pintarei qualquer ideia já fora de prazo dentro do prazo que me deram ?

Comecei bem, cheia de ideias. Chegavam-me aos molhos, em  catadupas, ouvia-as fervilhar-me ao ouvido, bem dentro do pensamento. Depois foi-se instalando a inevitável inquisição sobre a qualidade, a prioridade, a assertividade, a originalidade,  a validade,  ... sobre toda e qualquer idade em que se cria e desenvolve uma ideia...

Pincelada aqui, dripping ali, frottage acolá, a ideia foi ganhando cor e dimensão. Durante breves momentos,  cheguei a senti-la corpórea e poderosa.

Deve ter sido uma noite desesperada aquela em que não consegui segurar a ideia e ela desapareceu.

Agora para aqui estou, a olhar o infinito na parede crua meia dúzia de palmos à minha frente, presa a um pincel de tinta escura,  a criar profundidades tristes como abismos vagos de ideias.

Ping !

Então? Então? 

Ainda entorpecida pela inação noto que um pingo negro se desprende displicente mas veloz do pincel que equilibro relaxadamente nos dedos.

Olho, procuro, vasculho... nada !

Atento na coluna da direita, onde estão os magos das letras e noto uma sombra sobre o Delito. Pode ser só opinião minha, mas o marafado do pingo fugiu pelo link . Esperto que só ele, pensou que poderia esconder-se naquela floresta densa e colorida de ideias, ideais e opiniões, megalómano como ele só, cogitou no seu íntimo que uma mancha poderia ascender aos píncaros da cultura em toda a sua magnitude. Que mesquinhez querer elevar um borrão ao estrelato!

Encontrei-o anichado entre o Pedro Correia , a Francisca Prieto e o Rui Rocha, a tentar acinzentar-lhes a prosa, não fosse para tal necessário muito mais do que uma simples nódoa. Esmaguei-lhe a intenção com a manga da camisa. Não causara dano.

Foi então que a ideia entrou de rompante, como aquele pé de vento naquele Domingo à tarde que virou tudo de pantanas e ninguém deu por ele:
Vou pintar esta ideia sobre a ascensão e queda de um borrão egocêntrico, insolente, prepotente e atrevido, sobre uma nódoa de alma de sombra negra em todas as suas nuances e tonalidades.


Grande ideia esta!

Até já lhe sinto as cores ! 

Aposto que nunca na história da humanidade surgiu ideia mais original !










                       

26 comentários:

  1. Lovely, dear. Great. I have new post also, and will be hape if you see too:

    http://mylovelyfashionbih.blogspot.com/2015/06/blog-post.html

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  2. Querida M D Roque,
    Será como o ponto de Picasso. Também poderá dizer "não imaginam o trabalho até chegar aqui ".
    Bom trabalho e continuação de bom fim de semana.
    Um beijo,
    Outro Ente.

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  3. Querido Outro Ente, o trabalho está na raíz de tudo, começando pelo trabalho de parto, que tantas vezes nos faz parir beleza e outras tantas deformidades literárias, por exemplo. Isto foi uma ideia parida , tornada borrão, depois nódoa amarfanhada dentro de um prazo.
    Nós portugueses até somos pródigos em produzir nódoas, mas não a cumprir prazos.
    Acabei sem saber do raio do prazo nos finalmentes, mas afinal nem convém fugir ao pelotão, portanto...
    Bom Domingo é um beijinho.

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  4. Pintar ideias parece-me bem. Infelizmente borra-se a pintura mais vezes do gostaríamos e por isso a história está repleta de borrões, velha amiga .

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    1. Bem que gostaria de dizer que de borrões não reza a história, mas seria muuuiiitoooo imprecisa. Pululam por lá, alegres como nódoas antes da invenção da lixívia..
      Beijinho, Lu

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  5. É tão bom vir aqui nesta hora de final de um dia intenso de trabalho. Tomar a mão que escreve uma espécie de música e deixar-me levar. Obrigada, querida M D.

    Um beijinho.

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    1. :) :) :)
      Beijinho, querida Susaninha

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  6. :) esse género de borrão é imune a quedas, gravidade invertida pela força de Lei.

    Beijinho querida M.

    (distraído como sou, reparei agora, de passagem pelo caro Xilre, que está de regresso!)

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    1. Distraída e atribulada tem sido a minha existência ultimamente, de tal modo que só ontem reparei que o Grande X tinha de novo caixa de comentários, quiescente, meu caro. Inacreditável é imperdoável este meu alheamento....
      A ideia da nódoa está a esbater- se demasiado depressa devido às litradas de Skip que comprei na promoção do Primeiro de Maio no sítio do costume, mas concordo consigo. Há nódoas fixas e ambulantes , manchas difíceis, borrões que resistem a tudo e que malgrados esforços, raramente mudam de cor.
      Beijinho OQ

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  7. Uma ideia de todo inesperada.
    Maravilha!!
    Boa semana

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    1. Ah, Pedro... Eu apanho ideias por aí todos os dias, com a minha rede imaginária. O problema é conservá-las o tempo suficiente para as desenvolver. As boas fogem depressa, ou não fossem elas boas :) As outras, algumas definham e tenho que as deixar ir, outras fazem casulo, mas não produzem um bater de asas que estimule a imaginação.
      Ando a tomar um estimulante de Concentrado de Boas Ideias pela manhã, mas já me disseram que demora algum tempo a produzir efeito.
      Abraço grande a Oriente, meu amigo :)

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  8. Precioso blog com um belo conteudo. Uma feliz noite

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    1. Viva.
      Agradeço a visita e a leitura.
      Gostei do seu cantinho.
      Um abraço. :)

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  9. Aqui está a perplexidade daqueles que fazem da palavra o seu acto criador... Um texto excepcional. O que é preciso é que a inspiração, seja ela qual for nos encontre a trabalhar...
    Beijo.

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    1. Trabalhar a inspiração também funciona, se conseguirmos moldá-la à ideia que inspirou.
      Bem mais do que 12 trabalhos, bem mais :) :)
      Beijinho, Graça

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  10. Há cores que se insinuam como nódoas e para as limpar é o diacho; agarram-se com unhas e dentes recusando-se passar à inexistência.
    É ou não MD?
    Outras vezes a cor radiosa, quase perfeita, a gente a vê-la, já com retoques. Pensa-se fica para amanhã. Deitamo-nos com ela gravada, nítida, como se projectada numa tela. De manhã acordamos e sentimos um vazio, sem sabernos de quê: nem cor ,nem tela, nem sequer um esboço de ideia.

    Muito bem carpinteirada a crónica.

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    1. Deixar fugir a ideia foi castigo pela presunção de poder aprisionar algo e moldá- lo a meu bel prazer, dentro de um prazo cuja forma desconhecia, Agostinho.
      Queira Deus que não tenha queimado mais um par de nós neurónios no processo.
      Abraço meu amigo :)

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  11. Querida Dulce: os teus textos são tão ricos que o comentário peca sempre por defeito. Este não é exceção.
    Quantas vezes surgem ideias e não se conseguem estruturar e, se houver prazos, ainda pior (está-me a acontecer com o final de um conto :) ).
    Mas, basta alguma concentração e disponibilidade, e lá surge o texto. Foi o caso. e bem feliz que saiu. Com a tua originalidade e capacidade de chamar ao texto várias vivências ou evocações. Um deleite. Do borrão criaste uma obra-prima!
    BJO :)

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    1. Poderá talvez dizer-se que não borrei a pintura ?
      Beijoca. :)

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  12. Boa ideia, Dulce.
    Pedro Correia

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  13. Pouco original Pedro, pouco original. Seria mais uma entre tantas narrativas acerca de uma lamentável nódoa que evoluiu de um triste borrão, mas que chegou a fazer história.... provavelmente pelas piores razões :)

    Obrigada e um beijinho

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  14. Gosto de por aqui passar, confesso.
    As cores para mim trazem uma estoria , desligada da historia pela simplicidade...esbatidas numa venerada beleza.
    Abraco

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    1. E eu gosto sempre muito de o ver por cá. Espevita-me a criatividade que por aqui passa de quando em vez.
      Bom final de Domingo, meu amigo.
      Abraço

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É aqui que me mandas dar uma curva