"Em vez de pintar coisas puseram-se a pintar ideias."
Ortega y Gasset
Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Divago no vazio do olhar que preguiça, volto a olhar e não me chegam os detalhes, não os sinto, não me falam. Baixo a mão desanimada que segura o pincel e reparo que os braços disformes que marcam o tempo indicam que já passou muito.
Que perda de tempo estar a olhar tanto tempo para o vazio, para aquela terra de ninguém, onde nem as ideias se esboçam arquitectadas em pensamentos ou fantasias.
Também quem me manda aceitar pintar ideias dentro de um prazo ?
Eu que nem sei a forma que um prazo tem e agora há prazos para tudo. Como garantir que não pintarei qualquer ideia já fora de prazo dentro do prazo que me deram ?
Comecei bem, cheia de ideias. Chegavam-me aos molhos, em catadupas, ouvia-as fervilhar-me ao ouvido, bem dentro do pensamento. Depois foi-se instalando a inevitável inquisição sobre a qualidade, a prioridade, a assertividade, a originalidade, a validade, ... sobre toda e qualquer idade em que se cria e desenvolve uma ideia...
Pincelada aqui, dripping ali, frottage acolá, a ideia foi ganhando cor e dimensão. Durante breves momentos, cheguei a senti-la corpórea e poderosa.
Deve ter sido uma noite desesperada aquela em que não consegui segurar a ideia e ela desapareceu.
Agora para aqui estou, a olhar o infinito na parede crua meia dúzia de palmos à minha frente, presa a um pincel de tinta escura, a criar profundidades tristes como abismos vagos de ideias.
Ping !
Então? Então?
Ainda entorpecida pela inação noto que um pingo negro se desprende displicente mas veloz do pincel que equilibro relaxadamente nos dedos.
Olho, procuro, vasculho... nada !
Atento na coluna da direita, onde estão os magos das letras e noto uma sombra sobre o Delito. Pode ser só opinião minha, mas o marafado do pingo fugiu pelo link . Esperto que só ele, pensou que poderia esconder-se naquela floresta densa e colorida de ideias, ideais e opiniões, megalómano como ele só, cogitou no seu íntimo que uma mancha poderia ascender aos píncaros da cultura em toda a sua magnitude. Que mesquinhez querer elevar um borrão ao estrelato!
Encontrei-o anichado entre o Pedro Correia , a Francisca Prieto e o Rui Rocha, a tentar acinzentar-lhes a prosa, não fosse para tal necessário muito mais do que uma simples nódoa. Esmaguei-lhe a intenção com a manga da camisa. Não causara dano.
Foi então que a ideia entrou de rompante, como aquele pé de vento naquele Domingo à tarde que virou tudo de pantanas e ninguém deu por ele:
Vou pintar esta ideia sobre a ascensão e queda de um borrão egocêntrico, insolente, prepotente e atrevido, sobre uma nódoa de alma de sombra negra em todas as suas nuances e tonalidades.
Grande ideia esta!
Até já lhe sinto as cores !
Aposto que nunca na história da humanidade surgiu ideia mais original !

Lovely, dear. Great. I have new post also, and will be hape if you see too:
ResponderEliminarhttp://mylovelyfashionbih.blogspot.com/2015/06/blog-post.html
Thankx, I surely will.
EliminarKiss. :)
Querida M D Roque,
ResponderEliminarSerá como o ponto de Picasso. Também poderá dizer "não imaginam o trabalho até chegar aqui ".
Bom trabalho e continuação de bom fim de semana.
Um beijo,
Outro Ente.
Querido Outro Ente, o trabalho está na raíz de tudo, começando pelo trabalho de parto, que tantas vezes nos faz parir beleza e outras tantas deformidades literárias, por exemplo. Isto foi uma ideia parida , tornada borrão, depois nódoa amarfanhada dentro de um prazo.
ResponderEliminarNós portugueses até somos pródigos em produzir nódoas, mas não a cumprir prazos.
Acabei sem saber do raio do prazo nos finalmentes, mas afinal nem convém fugir ao pelotão, portanto...
Bom Domingo é um beijinho.
Pintar ideias parece-me bem. Infelizmente borra-se a pintura mais vezes do gostaríamos e por isso a história está repleta de borrões, velha amiga .
ResponderEliminarBem que gostaria de dizer que de borrões não reza a história, mas seria muuuiiitoooo imprecisa. Pululam por lá, alegres como nódoas antes da invenção da lixívia..
EliminarBeijinho, Lu
É tão bom vir aqui nesta hora de final de um dia intenso de trabalho. Tomar a mão que escreve uma espécie de música e deixar-me levar. Obrigada, querida M D.
ResponderEliminarUm beijinho.
:) :) :)
EliminarBeijinho, querida Susaninha
:) esse género de borrão é imune a quedas, gravidade invertida pela força de Lei.
ResponderEliminarBeijinho querida M.
(distraído como sou, reparei agora, de passagem pelo caro Xilre, que está de regresso!)
Distraída e atribulada tem sido a minha existência ultimamente, de tal modo que só ontem reparei que o Grande X tinha de novo caixa de comentários, quiescente, meu caro. Inacreditável é imperdoável este meu alheamento....
EliminarA ideia da nódoa está a esbater- se demasiado depressa devido às litradas de Skip que comprei na promoção do Primeiro de Maio no sítio do costume, mas concordo consigo. Há nódoas fixas e ambulantes , manchas difíceis, borrões que resistem a tudo e que malgrados esforços, raramente mudam de cor.
Beijinho OQ
Uma ideia de todo inesperada.
ResponderEliminarMaravilha!!
Boa semana
Ah, Pedro... Eu apanho ideias por aí todos os dias, com a minha rede imaginária. O problema é conservá-las o tempo suficiente para as desenvolver. As boas fogem depressa, ou não fossem elas boas :) As outras, algumas definham e tenho que as deixar ir, outras fazem casulo, mas não produzem um bater de asas que estimule a imaginação.
EliminarAndo a tomar um estimulante de Concentrado de Boas Ideias pela manhã, mas já me disseram que demora algum tempo a produzir efeito.
Abraço grande a Oriente, meu amigo :)
:)
ResponderEliminarValeu. Fui lá. Gostei :)
EliminarPrecioso blog com um belo conteudo. Uma feliz noite
ResponderEliminarViva.
EliminarAgradeço a visita e a leitura.
Gostei do seu cantinho.
Um abraço. :)
Aqui está a perplexidade daqueles que fazem da palavra o seu acto criador... Um texto excepcional. O que é preciso é que a inspiração, seja ela qual for nos encontre a trabalhar...
ResponderEliminarBeijo.
Trabalhar a inspiração também funciona, se conseguirmos moldá-la à ideia que inspirou.
EliminarBem mais do que 12 trabalhos, bem mais :) :)
Beijinho, Graça
Há cores que se insinuam como nódoas e para as limpar é o diacho; agarram-se com unhas e dentes recusando-se passar à inexistência.
ResponderEliminarÉ ou não MD?
Outras vezes a cor radiosa, quase perfeita, a gente a vê-la, já com retoques. Pensa-se fica para amanhã. Deitamo-nos com ela gravada, nítida, como se projectada numa tela. De manhã acordamos e sentimos um vazio, sem sabernos de quê: nem cor ,nem tela, nem sequer um esboço de ideia.
Muito bem carpinteirada a crónica.
Deixar fugir a ideia foi castigo pela presunção de poder aprisionar algo e moldá- lo a meu bel prazer, dentro de um prazo cuja forma desconhecia, Agostinho.
EliminarQueira Deus que não tenha queimado mais um par de nós neurónios no processo.
Abraço meu amigo :)
Querida Dulce: os teus textos são tão ricos que o comentário peca sempre por defeito. Este não é exceção.
ResponderEliminarQuantas vezes surgem ideias e não se conseguem estruturar e, se houver prazos, ainda pior (está-me a acontecer com o final de um conto :) ).
Mas, basta alguma concentração e disponibilidade, e lá surge o texto. Foi o caso. e bem feliz que saiu. Com a tua originalidade e capacidade de chamar ao texto várias vivências ou evocações. Um deleite. Do borrão criaste uma obra-prima!
BJO :)
Poderá talvez dizer-se que não borrei a pintura ?
EliminarBeijoca. :)
Boa ideia, Dulce.
ResponderEliminarPedro Correia
Pouco original Pedro, pouco original. Seria mais uma entre tantas narrativas acerca de uma lamentável nódoa que evoluiu de um triste borrão, mas que chegou a fazer história.... provavelmente pelas piores razões :)
ResponderEliminarObrigada e um beijinho
Gosto de por aqui passar, confesso.
ResponderEliminarAs cores para mim trazem uma estoria , desligada da historia pela simplicidade...esbatidas numa venerada beleza.
Abraco
E eu gosto sempre muito de o ver por cá. Espevita-me a criatividade que por aqui passa de quando em vez.
EliminarBom final de Domingo, meu amigo.
Abraço