sábado, 23 de maio de 2015

Além do bem e do mal


"Os escritores são os exorcistas dos seus próprios demónios."

Maria Vargas Llosa






Perdi-me dentro em mim, como em deserto, 
Minha alma está metida em labirinto, 
Contino contradigo o que consinto, 

Cem mil discursos faço, em nada acerto. 

Frei Agostinho da Cruz






Quedei-me sentada , encolhida, molhada, de olhos postos na porta escura que permanecia fechada havia já dois dias.
A chuva caía copiosamente enregelando-me as carnes e os humores. Aguardava expectante. É agora ! ... não , ainda não...

De vez em quando esboçava um sorriso à lembrança do Kwai Chang Caine da minha mocidade. O gafanhoto paciente, o mestre de leitosas e opacas iris que via para lá da cegueira dos homens ao impalpável, o movimento, a meditação, a arte, o saber.

Era saber que procurava naquela viela escura debaixo da torrente de uma noite infernal.
Esperava Amoth, e esperava que ele aceitasse a minha companhia.
Nunca fui crente nas artes do demo em possuir corpos e almas e as atormentar até perderem qualquer vestígio de alento, de humanidade, de ser. Nunca vira um ser humano possuído por outra coisa que não uma versão melhor ou pior de si próprio.

Estava longe do conforto do canapé onde me enrosco e me deixo levar mais pelo sono, do que por imagens de pantalha, que de tão exageradamente assustadoras caiem na comicidade vulgar de um cliché  de quinta categoria.
A Amoth conhecia-lhe a entourage de leigos e clérigos e a inflexibilidade para com desconhecidos curiosos que, como eu  queriam ver, queriam entrar no feudo do mal e entender.

Era sexta -feira, era noite de travar mais uma luta. A porta abriu-se e saíram em procissão. Amoth vinha no fim. Fechou a porta atrás de si. Olhou-me. Não falou. Um imperceptível aceno de cabeça e a medo juntei-me aquela patrística de crentes, de cruzados de Deus.
Talvez dez no total, circunspectos e calados. Duas mulheres sussurravam entre dentes rezas incompreensíveis.  Batinas contei três, os restantes eram leigos devotos à causa.
Fez-se o caminho a pé, talvez porque o destino era já ali ao lado. Quem passava, baixava a cabeça e persignava-se. A cruz, uma e outra vez... sabiam quem eram e ao que iam "... libera nos a malo, amen".

A casa era térrea, com um pequeno e descuidado jardinzinho onde os vestígios de cor ainda pontuavam por dentre uma amalgama de folhas secas e pardacentas. Um triciclo sem um pedal, uma bola às riscas suja de lama, a casota vazia de um cão.
 A mulher que abriu a porta fora bela. Ainda o era, pese medo, o cansaço e o desalento a que se entregara. Fotos de crianças sorridentes mostravam uma existência cheia de luz.
 A casa estava escura e o cheiro azedo de muitas secreções misturado ao ambientador com aroma de baunilha impestava o ar, tornando-o mefítico.

Entramos directamente para uma sala onde brilhava um único candeeiro de abat jour que difundia uma luz alaranjada. No cento, numa cama articulada jazia uma figura inerte, amarela, seca de carnes e tão vazia que me perguntei como poderia estar cheia de mal.
Era um arremedo de homem novo. Saíra para trabalhar um dia e voltara febril e destruidor, contava ela. Garantia que o vira tornar-se aranha com chifres e subir a parede de quatro guinchando impropérios com voz desconhecida. 
Toquei no bolso certificando-me que tinha o telemóvel ligado e sem som. Leva-o escondido como um ilegal a fugir à migra. Os mistérios do sagrado seguramente não aceitam gadgets com aplicações profanas. Não acredito que Amoth anuísse em deixar-me fotografar a sessão, mas também não pensei em pedir autorização.
Um dos padres tirou da mala um frasco de cristal com água, uma cruz, o Rituale Romanum,  uma bíblia velha e uma estola desbotada.

A voz grave de Amoth fez-se ouvir "Regna terrae, cantate deo, psállite dómino, tribuite virtutem deo Exorcizamus te, omnis immundus spiritus,..." e imediatamente a figura inerte e desarticulada naquela cama, no meio da sala, dentro da casa térrea, no meio de um jardim seco e sem vida, incediou duas brasas castanhas no centro das órbitas afundadas, rasgou um esgar na fenda desdentada, olhou directamente para mim e gargalhou.
Senti o gelo e as alfinetadas que o medo regala.
Amoth olhou para a figura alentada, para mim, para o padre que estava a meu lado. Ninguém falou. Nem eu, que tenho sempre tanto para dizer. Deixei-me levar pelo braço sem nada perguntar, enquanto era conduzida para fora da sala, para fora da casa térrea, para fora do jardim morto, para a noite, para o escuro. 

Fiquei sozinha a olhar a figura que se afastava e afastei-me dali também.
Caminhei sem rumo a pensar que esperara tanto e que tudo fora em vão... À perguntas que pretendia respondidas sabia que teria que acrescentar outras   : Será que realmente vi o mal ? O que será que o mal  viu em mim,ou para além de mim, onde eu guardo o meu bem?


Nunquam Sciatis





























                                                     

24 comentários:

  1. Um texto excelente. Uma história com um imaginário fantástico que me prendeu do princípio até ao fim.
    Beijo.

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    1. Um pequeno conto que nasceu de um sonho escuro, daqueles que marcam as noites mal dormidas e nos afligem sem sabermos bem porquê, e dos quais despertamos assustados com o zoar do telemóvel, que afinal não estava tão silencioso como se pensava.
      Sonho muito. Tanto que me cansa dormir quando sonho.
      sempre muito mar, sempre aguas límpidas e quentes, sempre escuros e medos, sempre esquecidos num instante para darem lugar ao dia que poderia ser um sonho dentro do sonho que acabei de sonhar.
      Beijinho Graça querida.

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  2. o mal vê-se todos os dias, sente-se e cerca-nos até quase nos tirar o fôlego.convive connosco na forma mais terrena e banal :o ser humano. "livrai-nos do mal, Senhor!"
    bom domingo.

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    1. Eu tinha a ideia que não havia pessoas más. Aprendi pela experiência de muitos anos, muitas caras muitas gentes, que não é assim, nada mesmo . Aprendi também a esperar sempre o pior, por isso muito raramente tenho surpresas desagradáveis.
      Também sei que somos todos ambas as faces de uma mesma moda; somos naturalmente vós é naturalmente maus. Todos. Nós.
      Beijinho querida DER. Boa semana. :)

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  3. Querida M D Roque,
    Fantástica descrição de um exorcismo. Fico a pensar no que será real. Confunde-me o telemóvel. Não fora ele e diria tratar-se de recordação com cerca de 50 anos ou um pouco mais.
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. Caríssimo Outro Ente.
      Sou uma sonhadora. Nem sempre é bom sonhar-se em quantidade e sem qualidade. Quando o toque do telemóvel, o mudo zumbido da era moderna nos puxa dos domínios de Morfeu para a realidade, dos sonhos ficam-nos pedaços que articulamos num patchwork onírico produzindo matéria para um micro-conto, que por vezes é bem sucedido.
      Não seria capaz de descrever um exorcismo. Nunca vi nenhum ou sequer sonhei sobre a prática propriamente dita, e a trilogia que tanto marcou a minha juventude é presentemente uma fonte da comicidade que produz os tais clichés de quinta categoria.
      Gosto de escrever sobre o que me acontece no universo paralelo em que todos entramos todas as noites. O telemóvel é por assim dizer o meu registo e o meu pião.
      Beijinho, Outro Ente e boa semana

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  4. Os escritores são de facto exorcistas dos seus próprios demónios. E das suas contradições.
    Que história de confronto com o medo, porque do desconhecido se tratava. E o telemóvel, presente, foi o que me fez sorrir, porque eu praticamente só utilizo o telemóvel para ver as horas. :-)
    Tens um sentido do real e do fantástico, verdadeiramente extraordinário. Já pensei noutras alturas, e voltei agora a pensar ao ler este texto, que darias uma excelente guionista para cinema. Tudo o que escreves é tão visual que parecemos mesmo estar a ver cenas de um filme.
    Quanto à história, um bom motivo para questionar o bem e o mal. Onde está o bem e o mal?... Sempre dentro de nós, afinal, e não de uma altivo céu ou de um qualquer inferno.
    Excelente, Dulce! E uma música óptima para acompanhar "o filme"! :-)
    Que grande curta se faria com o teu texto!
    xx

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    1. És uma querida, Laurinha. Verdade seja dita , gosto de fazer filmes com os meus posts.
      Isto de escrever coisas, ou sai ou não sai. Ou acordo com o post na cabeça e vai de uma vez, ou começo e deixo andar, e no fim remato insatisfatoriamente.
      É por essas e por outras que me impus a pausazinha :) :) :)
      Beijos, minha linda e uma boa sabática :)

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  5. A mulher sonha e a obra nasce.
    Gostei muito.
    Boa semana

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    1. De quando em vez lá calha algo com princípio, meio e fim... mais ou menos, Pedro.
      Abraços a oriente e obrigada :)

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  6. Belíssimo post, da estória, passando pela citação e fotos...

    :)

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    1. Viva Daniel, obrigada. Sabe bem seguir um sonho e acordar com um esboço de qualquer coisa.
      Calha bem. Calhou. :) :)
      Abraço amigo

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  7. Tive que me deter na 1.ª citação. Não conhecia e sorri. Em 2011, na resposta à pergunta "Que lugar ocupa a Poesia na tua vida?" - uma entrevista da editora - ente outras coisas referi " (...) também para mim, se foi tornando uma espécie de exorcismo comunicacional (...); de facto, escrever é sempre um exorcismo, na medida em que se fazem extrair, pelas palavras, uma série de "fantasmas". Neste bem urdido conto, expugnaste uma vivência do fantástico que foi tomando forma "visível" com os ingredientes que te são característicos - destacando o teu potpourri cultural - aliando elementos anacrónicos (caso do TM) que atiçam a curiosidade do leitor.
    Além da imaginação, destaco a excelência literária.
    Rematando, parabéns!
    (Só mais um aparte: a minha avó paterna contava-me muitas cenas de exorcismos; era muito jovem e havia sempre algum medo que ficava, mas a curiosidade pelo desconhecido acho que vem desses tempos.)
    BJO, Dulce :)

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    1. Eu comecei estes escritos aqui, para expurgar pensamentos tortuosos. Depois lembrei-me que ninguém quereria seguramente ler sobre os meus tormentos metafisicos e enveredei por trivialidades, sempre com uma ou outra coisa mais intimista mascarada de cliché.
      Agora não me interessa procurar agrados e é aqui que a primeira citação parece feita à medida para mim, salvo não ser escritora.
      Beijinho, minha querida e obrigada.

      PS.: O Pai era de Castelo Branco, e na aldeia contavam-se histórias de arrepiar. Eu sei que tinha noites insones, sempre na expectativa do sobrenatural :) :) :)

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  8. Magnífico, este exorcismo.
    Não sei se os escritores exorcizam demónios ou se apenas os criam. Talvez até haja no mundo um sítio qualquer habitado por todos os demónios criados pela imaginação humana. Gosto de acreditar nestas coisas.

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    1. Fazer uma limpeza ao disco rígido e deitar fora os ficheiros corrompidos, os temporários, os infectados... tem vezes que caem amarfanhados numa página em branco e se agrupam num pensamento exorcisado, que nos deixa mais leves porque o purgámos pela escrita. Fica guardado onde o deixámos, mas se não formatámos a unidade,havemos de descobrir um raio de um .dll que arranca com o sistema, não se manifesta, mas está sempre lá.

      Beijo minha Capitã Cooka :)

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  9. Apesar dos medos que nos atam as horas é na magia de um movimento de mão, crescente, que os nossos espaços ficam maravilhosamente preenchidos. Exorcizado o negro desponta luminosamente a tranquilidade duma história.
    Parabéns.

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    1. A ver se esta semana sai outra :) ...
      Abraço, meu amigo e obrigada

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    2. Voltando à coisa, e ao Frei Agostinho da Cruz que antecede o seu conto, quero dar-lhe nota da saída recente do romance O NOVIÇO - do Paço de Azeitão ao Convento dos Capuchos, de Fernando Faria, que tem ficcionado o dito frade como protagonista principal. Fui ao lançamento em Sintra a convite do autor e já li a obra com muito agrado; a prosa é de muito boa qualidade.

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    3. Excelente recomendação meu amigo.
      Agradeço. Acredito ser excelente leitura.
      Abraço, Agostinho :)

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  10. Olá, Visitei e adorei o seu blog. Gostei muito dos seus textos e li vários trechos da sua exposição e conteúdo. . Fiquei bem animada e daqui pra frente, estarei sempre por perto vendo as novidades.
    Venha conhecer o meu Blog também. Tenho certeza que vai gostar http://www.oslivrosdaminhabiblioteca.blogspot.com.br/
    Um grande abraço. NILDA

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    1. Olá Nilda, bem vinda e obrigada.
      Irei seguramente visitar o seu cantinha.
      Abraço :)

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    Um grande abraço. NILDA

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É aqui que me mandas dar uma curva