domingo, 17 de maio de 2015

A Festa da Vida

"Sê alegre apenas depois de dares a volta à vida toda. E regressares então a uma flor, ao sol num muro, a um verme no chão. A profunda alegria não é a do começo mas a do fim"

Vergílio Ferreira





"Caminharemos de olhos deslumbrados 
E braços estendidos 
E nos lábios incertos levaremos 
O gosto a sol e a sangue dos sentidos."

José Carlos Ary dos Santos









Não me chamem Ishmael, tampouco pessimista. 

Porque sempre que me ausento por breve ou prolongado período de tempo, trato de providenciar para que o meu parco património fique seguro de abutres fiscais e outros predadores que tais, em caso de acontecer um não retorno.
Porque trato de explicar os finalmentes, a minha última vontade sobre aquilo a que me votou o animo desertor. Sou eu quem determina. Sou eu quem quer assim. 

Será muito pedir respeito ?

Isto não é maluquice, paranóia ou pessimismo, mas sim puro pragmatismo.

E afinal, quem manda em mim ainda sou eu, mesmo depois de deixar de o ser.

Não quero vigílias claustrofóbicas em espaços deprimentes com aquele aroma anojoso a círios e flores sem alma; não quero flores. Que desperdício de beleza sacrificar uma rosa a quem já se finou.








Não quero choros. Carpir aleivosias tornou-me intolerante a mágoas lacónicas de circunstância. O pesar, que seguramente o terá quem muito me quis, não o lavará ali com lágrimas ou escorraçará com gritos, porque é marcado na alma a ferro e fogo. Pode o tempo esbatê-lo sim, mas a memória nunca o apagará.

Não quero cetins ou pérolas ou uma caixa fechada. Não quero um buraco negro , num triste canteiro com um número sem significado,  nem uma pedra de epitáfio com palavras abrigadas num acordo que não acordarei, dizeres que eu não disse e que de mim só dizem aquilo que se convencionou dizer.

Não quero ser grande na memória dos homens; não quero ser uma estrela na terra e tornar ao pó numa colina de torrões tristes e desesperados, sem mérito nem obra.


Deixem-me voar nas asas da fénix que me levou a alma e que me espalhará junto ao braço de água que me viu nascer, o mesmo de onde partiram as naus da cruz de Cristo.

Cumpri.

Nasci, cresci, flori, frutifiquei. Os meus frutos deram frutos lindos e eu fui feliz.Sou feliz.

Vivi intensamente. Vivo ainda.
Jubilei com as alegrias , solucei as tristezas, sorri sempre e continuo a sorrir, grata que estou , porque estou e porque sou.

Não quero angústias, nem amarguras. Quero alegria, quero festa. Quero que a memória que deixo , a indelével pegada da minha breve passagem, seja a festa da vida que eu vivi. 



Em memória de mim

(Père Lachaise - Fotos de MD Roque) 


                                                    

20 comentários:

  1. A vida é alegria. Conseguir esse sentimento na morte não é fácil. :)

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    1. Eu sei, Luisinha, sei-o muito bem. Não me faz feliz saber que deixarei tristeza e sofrimento, quando fiz por coroar a minha vida com os sorrisos que pintei em semblantes carregados, os únicos diamantes da minha tiara.
      Beijinho, minha querida é bom final de Domingo :)

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  2. Querida M D Roque,
    Continue feliz a cumprir a vida que lhe cabe. (Que post atordoante.)
    Boa noite,
    Outro Ente.

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    1. Conjugar o verbo entontecer em todos os tempos faz parte da minha imagem de marca, querido Outro Ente.
      Bom final de Domingo.
      Beijinho. :)

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  3. Acredito que se há alguém que possa enviar ditames do outro lado, no que a ti concerne, esse alguém és tu. Lembro-me de sapos , de raiva e da fé num credo inabalável feito de vontade, mas nunca de impotência nem incapacidade.
    Também acredito sempre se fará como disseres. Em memória de ti.

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    1. Oh Lu...

      "...Gira o tempo, gira a vida,
      E tudo sempre a mudar !
      Quem sabe lá os destinos
      Que Deus tem para nos dar…"

      E tu sabes que não acredito em predestinações...

      Beijinhos, minha amiga velha e velha amiga.

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  4. Um texto muito intenso de que sabe cumprir a vida que lhe cabe. Gostei muito.
    "Não quero angústias, nem amarguras. Quero alegria, quero festa. Quero que a memória que deixo , a indelével pegada da minha breve passagem, seja a festa da vida que eu vivi." Excelente!
    Beijo.

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    1. Viva, Graça.
      Obrigada por me entender tão bem.
      Beijinho

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  5. Um texto maravilhosamente escrito, com o qual me identifico.
    Ser maduro, implica aceitar a ideia de morte, o que podendo ser encarado de forma natural por nós, acabará sempre por ser de mais difícil aceitação para os que nos são próximos, e gostam de nós. E a grande angústia é sempre essa; a de saber que o sofrimento cairá sobre aqueles que amamos. Há por isso que fazer da vida uma festa, e tentar fazer da morte uma celebração da memória do que foi bom, do que valeu a pena. As lágrimas poderão lá estar, mas a ideia de morte não pode impedir-nos de tentar viver uma vida plena até ao fim. Viver até ao fim com alegria é a única forma de não rendição perante a vida.
    Uma grande citação do V. Ferreira, um dos meus escritores favoritos. E há nos que não ouvia a "Festa da Vida"!
    Boa semana, Dulce!

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    1. Lembro-me que quando o meu pai partiu de repente, para além do choque e da negação, a aceitação da perda começou logo ali, em tentando desmistificar todo aquele ritual doentio que ele odiava e no qual a minha mãe insistiu, porque era...tradição. Fez-se lúgubre e claustrofóbico por ela, não por ele. O pai seguramente teria odiado toda aquela parafernália fúnebre e o sorriso com que partiu foi pela ironia de tudo aquilo.
      Eu não quero saber de homenagens póstumas, câmaras ardentes, sei lá. Amem-me enquanto por cá ando.
      Beijinho, Laurinha e boa semana para ti também.

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  6. Penso que só quando encarei a morte junto de mim, comecei verdadeiramente a apreciar a vida.
    Que ainda quero longa. Para mim e para si, se me permite. :-)

    Um beijinho, querida M D.

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    1. Ah, Susaninha, eu faço ideias de conhecer os meus bisnetos :) :) :)
      Beijinho, minha amiga

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  7. Esse é o nosso maior legado - deixar aos outros memórias agradáveis.
    Boa semana

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    1. Ou pelo menos tentar, Pedro. Para tristezas basta ligar a TV, por exemplo, ou sair à noite para passear a pé, e ver que muitos dos bancos do jardim se transformam em quartos destelhados...
      Abraços a oriente e boa semana :)

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  8. Subscrevo este texto. Inicialmente fiquei surpreendida mas "desligando-me" um pouco das fotos - que estão bonitas, fixei-me no texto. Vieram-me à memória uma série de situações: pessoas que deixam registado o que querem que seja feito aquando da sua morte; pessoas que, com calma, distribuem os lugares nos jazigos (tenho uma colega e amiga que o fez); pessoas que saem de casa e não mais regressam - há cerca de ano e meio aconteceu a um tio solteiro muito querido, tendo já escrito sobre o facto... Na verdade, o aparato que fica bem fazer (e eu fui sujeita a que o meu pai - que morreu cedo - ficasse a ser velado em minha casa porque a mãe assim o quis pois ainda "parecia mal" ir para a casa mortuária) ainda vence. Já vai havendo algumas mudanças, mas ténues.
    De resto, estou totalmente de acordo com a necessidade de celebrar a vida enquanto somos vivos; também devemos ter a consciência que o que importa é lançar as sementes e vê-las frutificar, se possível; cumpre-se em vida, o mais intensamente possível...
    A minha avó materna viveu até aos 101 anos mas os últimos 6 sem qualidade de vida. Não penso na morte, para já, mas tenho tendência a ter as coisas organizadas; acho que, de forma inconsciente, não quero dar muito trabalho a "saberem de mim". Acentuou-se esta ideia com o que aconteceu ao meu tio; não sabíamos nada e foi preciso remexer nas suas coisas. Doeu-me...
    Bem, brindamos à VIDA!
    Bjo, querida D :)

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    1. Querida EU... Tenho sido muito relapsa... é só Neta, Trabalho, Trabalho, Neta :):):)
      Mas é isso mesmo. É preciso celebrar a vida e aliviar quem fica do fardo da ida dos que vão
      Fomos. Ponto.
      Não há cá arranjos nem memoriais ao pó, nem peregrinações sofredoras. Quem vai, viverá sempre na memória de quem o amou.
      Nada mais é necessário.
      Beijinho, minha amiga

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  9. Eu espero sinceramente que, todos os que me conhecem e que sabem perfeitamente o que eu penso e quero que se passe e não aconteça, façam o favor de me lembrar com um sorriso, uma música e um carinho, ao vento, ao sol, à chuva, com alegria.
    Beijinho EU, minha querida, obrigada

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    1. Olha, afinal já tinha respondido e nem me lembrava... grande embaralho, o meu. :)

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  10. E todo o mundo poderá ficar descansado e pronunciar um "assim seja".
    Que medo há nos vivos pelos mortos encerrando-os, colando-lhes uma pedra sobre o peito, limitando-lhes o horizonte com altos muros e portões aferrolhados?
    Parabéns pela liberdade de espírito, MD . Nas minhas proposições (in)viáveis toco no tema.

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    1. Amigo Agostinho. Como disse mais acima, Quem parte, viverá sempre na memória de quem o amou. Não precisa de memoriais ao pó, "com altos muros e portões aferrolhados". É celebrar quem viveu com intensidade e relembrar a intensidade da sua vida.

      Abraço, amigo :)

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É aqui que me mandas dar uma curva