sexta-feira, 6 de março de 2015

Rituais

"Existem noites em que os lobos ficam em silêncio, e apenas a lua uiva."

George Carlin






Luar, luar,

Toma o teu ar,

Deixa a minha menina

Crescer e medrar.



Lua, Luar

Toma lá esta menina

Ajuda-ma a criar

Tu és a Mãe, eu sou a ama

Cria-o tu que eu lhe dou mama








( Fotos de MD Roque, 5-3-2015)


"Anda cá ver", chamou ele da janela de trás. Eu estava na cozinha à volta dos tachos no ritual diário das sete da noite, enquanto olhava pela ampla janela o fogaréu que o pôr do sol acendera lá ao fundo e sorria, como sempre sorrio à beleza de um momento que gostaria de poder imortalizar fora das minhas recordações.

Apaguei o fogo que ateara no fogão e fui lá atrás ver. 

Subindo alegremente por detrás dos prédios no lusco fusco dum céu cinzento-azulado, a lua brilhava radiante, brincando com as meninas dos olhos que se contraíam   à luz.

Sorri de novo à lembrança de outras meninas e às palavras da minha Mãe.

"A menina está com a lua" disse ela enquanto a pequenina revirava os olhos no seu cândido sono. " Lembras-te como é ? Como a Avó Júlia ofertava as crianças à Lua? Tens que o fazer numa noite de Lua Cheia" 

Lembrava-me bem. A varanda comprida, a luz apagada, a noite escura. Só nós as mulheres, a criança e a lua. Não era coisa para homens, eles não podem porque só plantam não criam, não têm ventre fértil.
Lembro-me da Bisavó pegar o Menino nos braços, levantá-los  e a ele à lua e proferir palavras que aprendera com quem aprendera de quem já tinha aprendido.



Luar, luar,
Toma o teu ar,
Deixa o meu Menino
Crescer e medrar.



Lua, Luar
Toma lá este Menino
Ajuda-mo a criar
Tu és a Mãe, eu sou a ama



Cria-o tu que eu lhe dou mama


Lembro-me do silêncio, do jogo de sombras e luz que a Lua pintou na figura da Bisavó Júlia conferindo-lhe a aparência de uma gentia estátua de alabastro, lembro-me da cor esverdeada nas feições das mulheres em segundo plano, lembro-me que na parede atrás de nós adensavam-se figuras amorfas numa amálgama de assombro e escuridão. 
Lembro-me do choro do Menino, a quebrar aquele momento de silêncio pagão e belo. Lembro-me de ficar feliz quando acabou, porque eu tinha onze anos e muito medo.

Quanto tempo passou... muito mais de quarenta anos. Olho de novo para a Lua no céu e parece-me tão igual. Eu já não sou criança. O Menino já não é bebé. Nós crescemos, mudámos, mas a lua continua a sorrir-nos com o mesmo sorriso trocista e enigmático da feiticeira que é, detentora do poderoso encanto do tempo e da magia da noite.

Outro tempo, outras crianças, a mesma lua,o mesmo mar de luz,  o mesmo ritual.





                                                         

28 comentários:

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    1. Compro!!!
      Obrigada Ricardo, abraço :)

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  2. Não sei se tem a ver com a lua, com as coisas que a avó dizia, ou se era coincidência, mas meu filho sempre teve sonos muito agitados. Nas noites de Lua nova levava e ainda leva (e já tem 35 anos) as noites a falar.
    Em noite de Lua Cheia era pior, a porta tinha que estar sempre trancada pois ele tornava-se sonâmbulo. Graças a Deus hoje já não é.
    Muito interessante o seu post.
    Um abraço e bom fim de semana

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    1. Eu era miúda, Elvira, mas lembro-me que dar o recém nascido á lua era quase uma cerimónia. A mulher mais velha, que nem sempre era a mãe, era quem presidia e oferecia a criança à lua e ao luar. Sei que era levado muito a sério. Mesmo sem eu saber ( a costumeira reacção, adversa a "bruxedos" e "crendices") a minha tia Adelaide deu as minhas filhas ao luar. Estou em crer que a minha Mãe tem muita vontade de celebrar a minha neta.
      Mal não fará seguramente :) :) :)
      Beijinho

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  3. A minha avó fazia o mesmo e benzia o quebranto num prato com água, onde pingava azeite e fazia o sinal da cruz com uma faca cega. Confesso que tinha sempre muito medo daquelas coisas.
    Beijinhos querida

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    1. Oh pah, Lu, isso do quebranto dava-me arrepios. Mas as velhotas preferiam benzer o quebranto do que ir ao médico, a sério! se estavam constipadas, era mau olhado... benzia-se o quebranto. Se tinham pedra na vesicula, era mau olhado... benzia-se o quebranto.
      Ainda hei-de escrever um post sobre as sessões de bênção de quebranto a que assisti, até porque a quebrantada e mal-olhada no caso era eu, que era um pau de virar tripas olheirento :) :) :) :)
      Jokinhas, Lu.

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  4. Muito interessantes estes rituais . Não os conhecia . Só mesmo benzedeiras que curavam mal olhado e uma prática conhecida nas cidades interioranas . Agradeço a partilha . Beijos a você e a sua netinha .

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    1. Viva Marisa, obrigada pelas beijocas :)
      A minha bisavó Júlia faleceu há cerca de 40 anos e este ritual da lua tinha aprendido com a Avó Carolina, a avó da bisavó Júlia, que seguramente aprendeu da sua avó e por aí fora. São ritos ancestrais que prepassam gerações de mulheres, sem se conhecer a origem.
      Beijinho e bom domingo

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  5. Muito bonito! Nunca tinha ouvido falar deste ritual de oferecer as crianças à lua; um gesto mágico, no fundo em busca de protecção. Porque dar de mamar não chega. Uma espécie de cerimonial, como se de uma entrega ao mundo e à eternidade se tratasse.
    Tradições para apaziguar o espírito, e claro que mal nunca farão, e fazem decerto muito bem a quem as pratica.
    Gostei muito do texto, e nem esperaria ver aqui Moonlight Drive dos Doors, que afinal ficou muito bem!
    Ah e o título é muito bom, também!
    Bom fim de semana, Dulce.
    xx

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    1. Sabes que acredito que seja um ritual tão antigo como os homens? Sempre houve lua, desde que existe humanidade e a lua sempre exerceu influência na vida dos homens, nas marés, nos nascimentos, nas colheitas...
      Agora que já não me mete medo, respeito o ritual da lua e quem nele acredita.
      Beijoca.

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  6. amé esta luna
    abrazos para ti

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    1. Gracias, marga. La luna será siempre misteriosa y bella.
      Abrazos. :) :)

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  7. A lua é como o verdadeiro amor, nem sempre a vemos, mas está sempre lá.

    Abraço.

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  8. Feiticeira é a MD
    que nos encanta
    em memórias e luar
    dum tempo a acabar.

    Merece um beijo de parabéns.

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    1. Venha ele, amigo Agostinho, obrigada :) :) :)

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  9. A lua discreta ou indiscreta.
    A lua testemunha dos nossos momentos.
    A lua confidente dos nossos segredos.
    Sempre ela, altiva e serena.
    Lua, por favor chiu, não digas nada!
    Gostei!

    http://diogo-mar.blogspot.com/

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    1. Viva, Diogo, obrigada :) :) :)
      A lua sempre fascinou e interagiu com a vida, toda a vida, especialmente a da espécie humana.
      Encantam-me os encantamentos da lua.
      Abraço

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  10. Fez-me recordar La Luna, uma recordação sempre boa

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    1. O filme de 79 ? Não há remaque que lhe chegue aos pés.
      Sempre actual, acredite.
      Abraço a oriente

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  11. Eu adoro a lua. Ela me traz muitas recordações
    Seu texto é de arrepiar.
    Abç
    Lua Singular

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    1. Acredito que este ritual seja muito comum acontecer no norte e interior do país. É muito interessante mesmo do ponto de vista científico, ou não fosse já provado que a lua influencia espécies, colheitas, marés, nascimentos...
      Beijo Dorli

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  12. A lua. A lua cheia. A lua fêmea. A trazer memórias das mulheres da família... Um belíssimo texto!
    Beijo.

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    1. Viva Graça. A mulher, a Deusa ancestral, a criação, a transformação, a Lua... acho que vai dar tudo ao que era no começo.
      Beijo.

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  13. Não é por acaso que se diz "lua feiticeira" ou que se consegue ver uma feiticeira com a vassoura na lua :)
    Também não é por acaso que a lua é cúmplice dos amados e que é assaz inspiradora poética!
    Veja-se a própria citação que escolheste: pura poesia!
    Vê como ela te levou a captá-la assim tão bem, fez pose, de certeza!
    Assim, o teu texto só podia ser excelente pelo depositário desses rituais (ainda que, em pequenos, arrepiassem) que perduram desde que temos conhecimento histórico - também não é por acaso que muitos dos rituais pagãos se tenham cruzado com as festividades religiosas. É a crença que nos sustem perante o desconhecido.
    (Não conhecia este, mas conheço outros; e a consulta aos "bruxos" continua muito enraizada; de certeza que não só nas regiões interiores
    Termino, citando-te:
    "Outro tempo, outras crianças, a mesma lua,o mesmo mar de luz, o mesmo ritual."
    Bjo, querida D :)

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    1. Gosto tanto de ler o que me escreves :):):):), aliás, gosto sempre de ler tudo o que escreves :)
      Obrigada e beijinho

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  14. Amei seu parabéns tudo lindo já estou seguindo se der dá uma passadinha no meu cantinho obrigado.
    http://amoreluz10.blogspot.com.br/

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    1. Grata Isildinha.. Vou sem dúvida dar um beijinho :)

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É aqui que me mandas dar uma curva