segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Óscar

"Tanto ou mais que as pessoas, os lugares vivem e morrem. Com uma diferença: mesmo se já mortos, os lugares retêm a vida que os animou."

Fernando Namora




Lugares da infância onde 
sem palavras e sem memória 
alguém, talvez eu, brincou 
já lá não estão nem lá estou.

António Pina






"Óscar, ó Óscar" gritava a ti' Elisa da sua casinha térrea, mesmo em frente ao Chafariz da Memória. "Ó Óscar!! É preciso dar de comer á criação, homem de Deus!"

O Felgueiras, hábil barbeiro, perito em carecadas e cortes à tigela  que se tinha estabelecido em Belém há muitos anos, sorria encostado ao batente da barbearia vazia, enquanto soprava languidamente novelos de um fumo esbranquiçado, que se soltavam da beata gasta do cigarro que enrolara minutos antes. Era isto todos os dias. O Óscar desaparecia e a mulher dele gritava que lhe acudisse mais à criação.

Era um casal castiço. O ti'Óscar, careca, bonacheirão mas seco de carnes e a ti'Elisa, uma negra roliça e de peito farto que o obrigava a andar a nove com os muitos afazeres quotidianos da sua vida de reformados.

A minha tia Adelaide parava sempre junto à janela aberta para dois dedos de conversa e eu aproveitava para ir molhar o bico na bica do chafariz.

A casa do ti'Óscar e da ti'Elisa ficava encravada entre a porta da D. Maria Alpalhão, a senhoria,  senhora baixinha e sem idade aparente durante mais de 30 anos , dona da maior parte das casinhas da Memória  , a janela da D. Alda, esposa do Sr. Severo e mãe da Miss Belém da época e o Torrado, mercearias finas e taberna, ponto de encontro de fim de tarde de quase todos os homens das redondezas para o seu copito de três ou para a proverbial suecada.
 Todos os Sábados de manhã,  munida com um pequeno frasco e cinco tostões, ia eu até ao Torrado comprar brilhantina para o meu pai e trazia o troco em pevides.

Naturalmente que o ti'Óscar se perdia mais pelo Torrado do que em tricas com o mulherio, por isso não era de todo difícil de encontrar. Quem o queria ver bem, era ouvir-lhe as várias anedotas de um repertório que metia num chinelo muito humorista de standup. Era uma barrigada de riso - e eu ria, por contágio claro, porque com sete anos pouco ou nada entendia do conteúdo.

A ti'Elisa era a beijadora oficial de todos os bebés nascidos ali... para dar sorte, dizia ela sempre a sorrir, com uns pequenos óculos encarrapitados no nariz. Tinha sempre um afago e um rebuçado para mim.

Quase em frente ao Óscar da ti'Elisa, ficava a porta tripla do "pitrolino", de quem nunca soube o nome... "Sr. Pitrolino, a minha mãe quer um litro de lixívia "- dizia eu de braço esticado, a segurar uma garrafa vazia de Camilo Alves com uma cápsula de plástico...

Logo ao lado, ficavam as escadas de pedra da Vizinha Custódia, onde eu, a Susana, a Bandeira e a Luisinha da Menina Joaquina, brincávamos ás casinhas e às escolas, com papeis, carretos de madeira de carros de linhas vazios, trapinhos dos restos da costura, latas velhas, paus e pedrinhas. Tantas vezes já o sol se recolhera e nós lá, felizes e despreocupadas, porque a maldade ainda não se tinha tornado mesmo má, mesmo apesar de eu ser, como dizia o ti' Óscar, a "Filha do Veneno"... a Mãe foi e sempre será nos anais da Memória a miúda mais endiabrada que se conheceu, o terror de toda a rapaziada*...  enfim, um "autentico veneno"...






                                                        


* Leia-se RAPAZES.










22 comentários:

  1. que belo texto amiga. Memórias que a memória não esquece. Gostei muito.
    Um abraço e uma boa semana

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  2. Quando se começa a falar dos Óscares, é sempre a primeira coisa que me lembro Elvira, o chafariz da Memória, o Ti'Óscar e a Ti'Elisa :) :)
    Beijoca

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  3. Great post. Love it. I follow you , could you follow back, dear. Keep in touch. Kiss

    http://mylovelyfashionbih.blogspot.com/

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    1. Hi! Thankx !! I'll be there for sure !
      Kisses

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  4. Ahahahahahahahahah. Foi o Felgueiras que te cortou as tranças à tigela ?
    Lembro-me da tua mãe contar que o teu avô já nem sabia onde se esconder dela !!
    Adoro estas memórias da Memória. Beijoca

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    1. Foi pois! Pobre avô ! "O Veneno" era terrível, ainda para mais com a sua menina de longas tranças de cabeça redonda :) :) :)

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  5. Adoro memorias caseiras. E o texto prende a gente com um jeito curioso de ler. Bjos.

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    1. Viva Juliana
      Foi há quase 50 anos, mas podia ter sido ontem. As memórias da Memória ainda conseguem pintar-me as lembranças de cores vivas e sons alegres.
      beijinho

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  6. Também tinha um amigo de infância que era conhecido pela alcunha Veneno.
    Ele há coisas....
    Boa semana!

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    1. Devia ser a melhor alcunha para os pestinhas de antigamente. Diz quem se lembra ( e cada vez menos são), que a minha Mãe em idade escolar, era o terror dos rapazes lá do sitio, principalmente dos que pregavam partidas ou judiavam das raparigas.
      Era tal peste, que quando chegava os mancebos recolhiam aos seus aposentos :) :) :)
      Abraço a Oriente, Pedro :) :) :)

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  7. Um texto excelente. Com as personagens muito bem caracterizadas e memórias de outros tempos...
    Beijo.

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    1. Memórias da Memória, que a memória traz sempre ao grande auditório das boas recordações, Graça.
      Beijinho

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  8. Que belo texto, Dulce!
    Com o chafariz da Memória, e com memórias tão vívidas!...Com uma série de personagens decerto inesquecíveis; ah o ti Óscar e a ti Elisa!
    Gostei desse pormenor da compra da brilhantina com o troco em pevides, e de saber seres "Filha do Veneno", o só pode ser motivo de orgulho...:-)
    Adorei ler!
    xx

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    1. Absolutamente Laurinha :) :) :)... sabes, quem sai aos seus ... :) :) :)
      Beijoca

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  9. (Alguns afazeres e contratempos (estes ultrapassados), fizeram-me chegar mais tarde ao teu cantinho; redimo-me comentando de assentada as 2 últimas postagens.)
    Detenho-me sempre nas citações. Hoje, tardei-me um pouco mais. Talvez porque os espaços (e as pessoas que neles moram ou moraram), assim como o tempo, me digam muito, quer no meu real, quer na efabulação literária. Adorei ler estes teus respingos memoriais. São história, a nossa mas também a de outros. De vez em quando também escrevo alguns, breves. Mas há um que me está a dar muito prazer em escrever: é sobre a minha avó paterna. Coisa já para algumas páginas...:)
    Depois, é sempre muito prazeroso revisitar estes espaços da memória.
    Bjo, "veneno" D (de doce de Dulce)...:)

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    1. Apesar de muitos amigos me dizerem que não é de bom tom expor a família "assim", me da igual... As minhas tias e tios, a minha Mãe e o meu pai, os meus avós, bisavós e trisavós, têm histórias fantásticas de vida, que se cruzam com épocas e personagens marcantes e não vejo qualquer incorreção da minha parte em conta-las. Raramente alterei o nome das pessoas sobre quem escrevi. Sempre referi os factos com a isenção que a minha memória me confere. Não tenho ideia de gente má.
      Como tenho lembranças de tenra idade, dois e três anos de idade, tenho sempre repertório, mas não quero de todo ser maçadora e vira o disco e toca o mesmo...
      Aguardo saber da tua avó paterna :)
      O Veneno Jr.

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  10. Gostei muito!
    Beijinhos:-)

    http://princesamae.blogspot.pt/

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    1. Viva, Princesa. Obrigada !!! :)
      Xi <3 e BFS

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  11. Olá, Dulce
    Começo por agradecer a tua presença na "festa de aniversário" da minha «CASA», agradecimento este que tenho vindo a fazer aos poucos, (dentro da minha disponibilidade de tempo) e respeitando, como sempre, a ordem cronológica de chegada.
    Obrigada!

    Adoro ler textos deste género, histórias reais, vividas, autênticas!
    Esta, para além de ter a tua assinatura no que respeita a escrita -:) (não preciso pôr mais na carta, pois não???) é interessantíssima pelos pormenores de época.
    Acho que podes continuar sem receio de seres maçadora...

    Bom fim de semana
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS


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    1. És uma querida , Mariazita! E a netinha, já nasceu ? A Alice já cresceu 6 cm e pesa 4 kg! É uma gorducha bochechuda :) :) :)
      Beijinhos , para bens e muitas felicidades :)

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  12. Com que então "autêntico veneno"!? Levada da breca, digo eu..
    Muito boa narrativa de encantadoras memórias. Parabéns MD.

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    1. E eu, como legatária descendente, tenho que manter os padres elevados , Agostinho :) :) :)

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É aqui que me mandas dar uma curva