sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

De mim, para mim.


"Quando procuro o que há de fundamental em mim, é o gosto da felicidade que eu encontro."
Camus






(...)Gosto, como os animais das florestas e dos mares,
 De me perder durante um grande pedaço,
 Acocorar-me a sonhar num deserto encantador,
 E forçar-me a regressar de longe aos meus penates,
 Atrair-me a mim próprio... para mim.


Friedrich Nietzsche






Depois de mais uma noite com o jetlag da Alice a reaparecer assim do nada, como um post-it do subconsciente a relembrar que as intermitências do descanso e do cansaço andam de mãos dadas e são inseparáveis univitelinas, saltei do calor que já sentia quente demais para a amenidade do tapete afegão, provavelmente contrafeito no Afeganistão e vendido aos incautos num saldo fantástico, um autêntico negócio da China, como acreditei na altura.

Bem empantufada, dou de caras comigo a olhar para mim, como uma expressão de desdém trocista, como que a chamar-me a atenção para a minha própria figura de matrona de cabelo grisalho desgrenhado, encafuada num robe polar, por cima de um pijama polar , pálpebras inchadas e boca seca,  numa  ruidosa tentativa de fazer entrar algum ar pelas fossas nasais intumescidas com a proverbial sinusite ... um figuraço.

 Mesmo ao lado, o meu Dorian Gray olhava-me do alto, fabuloso nos seus 18 anos de mulher esbelta de grandes olhos castanhos e farta cabeleira escura . Deve sofrer horrores todos os dias, sem conseguir perceber qual o passe de mágica ou o bruxedo que resultou naquela deformidade.

Acode-me a lembrança das vaporosas camisas de noite em cetim negro delgadas como um traço fino num retrato a carvão.
Sorrio para mim, com aquele sorriso conformado de quem sabe que não pode alterar uma escultura que o tempo vem cinzelando devagar. Tentar mudar-lhe a forma, seria descaracterizá-la por completo e não representaria a mim própria nem a ninguém.

Se eu pudesse escolher ser alguém diferente, tenho a forte convicção que escolheria ser a MD Roque, com o seu mais de meio século nas ancas, com todas as partidas que a força da gravidade lhe pregou, com os mesmos olhos castanhos que não perderam o brilho e falam com quem os souber entender e com todo o saber que de tanto não é nada na realidade, mas que me faz feliz por o saber comigo.

Aqui só para nós, acho que até gosto de mim. 
Quero-me assim









                                 

30 comentários:

  1. Adorei. Comoveu-me. E fez-me feliz.
    E eu também gosto de si, assim mesmo como é.
    Beijo, bom fim de semana e desejos de melhoras do jetlag Alice, assunto ao qual sou deveras sensível. :-)

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    1. Querida Susaninha, muito lhe agradeço a doçura e a simpatia.
      Mil beijocas e bom Domingo

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  2. Não deve haver muita gente a descrever-se de forma tão seriamente humorada como tu o fazes. Sim, porque o humor é uma coisa muito séria.
    E como é interesse ver que ao mesmo tempo que falas assim, nós sentimos, apercebemos, a mulher real, um pouco de todas as mulheres na nossa idade, e muitomais bonita do que a descrição que fazes. E descobrimos, sabendo há muito tempo, que mesmo na imagem do que somos, tantas vezes fisicamente exagerada em nós, mas não aos olhos dos outros, não temos outro remédio senão amar-nos, porque só assim os imensos olhos castanhos continuarão brilhantes.
    A Alice, e todos os outros que te amam, reconhecer-te -ão sempre nesse olhar.
    Abençoado jetlag da Alice que mesmo de forma inconsciente, te faz descer ao tapete e escrever textos que merecem ser lidos.
    xx

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    1. <3 <3, minha querida e genial Laura.
      Beijos e bom Domingo

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  3. Ainda o teu Dorian Gray não existia e já eu te conhecia assim, sempre alegre, sempre notável, bem disposta.
    Diz ao teu Dorian Gray que é muito exigente, porque se olhar para ti com olhos de ver, constatará que não mudaste nada.
    Beijos, minha velha amiga ( não confundir com minha amiga velha)

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    1. Ah, Lu... tem alturas em que me apetece trocar a alma pela beleza da juventude, leve, sem dores, com paciência, cheia de genica, uma força da natureza em forma e com forma... mas como podia ser pior... :) :) :)
      Amigas antigas, com o valor inestimável de peças de museu, é isso que somos, Lu
      Beijocas

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  4. Pois é amiga, 50 anos podem não mudar quase nada na natureza, mas no ser humano é uma mudança e pêras. O que nem toda a gente tem é esse humor a descrever-se. Bem pelo contrário. Algumas pessoas desesperam-se e desesperam os outros, por não saberem aceitar-se como são.

    Um abraço e uma boa semana

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    1. Ah, Elvira, pergunto-me que espécie de pessoa não tem a capacidade de saber rir-se de si própria e de se aceitar tal como é ? Terá seguramente uma triste existência.
      Beijinho, minha amiga e muito obrigada :)

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  5. Que texto bonito e que mulher bonita leio eu deste lado.
    Gosto :)

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    1. Olá Menina Palomar. Agradeço a visita e a simpatia :)
      Beijinho e bom Carnaval

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  6. O Ser é a totalidade da sua vida e, ocasionalmente, um pouco mais ainda.
    Beijo querida M. Outro para a Alice, nome da minha doce e terna Bisavó.
    Tanto dela continua em mim...

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    1. Viva, meu amigo. Como sempre tem toda a razão :)
      Fui eu quem "alvitrou" que Alice seria um bom nome e ficou :). A sua bisavó foi seguramente uma senhora extraordinária. Normalmente as bisavós são grandes mulheres. A minha bisavó Júlia foi-o, é certo, e eu digo sempre que me vale muitas vezes a força indomável que ela tinha para enfrentar adversidades , que se conservou inscrita no meu ADN, mesmo que só uma pequena percentagem.
      Beijinho

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  7. É essencial gostar de nós próprios.
    Dá equilíbrio.
    Em demasia, é narcisismo.
    Boa semana

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    1. O meu ego não é assim tão insuflado , Pedro :):):) , mas se eu não gostasse de mim, não acredito que conseguisse gostar a sério fosse de quem fosse. As messoas amargas e desiludidas apenas toleram os outros.
      Abraço a Oriente e bom Carnaval

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  8. "Sorrio para mim, com aquele sorriso conformado de quem sabe que não pode alterar uma escultura que o tempo vem cinzelando devagar." Um texto fabuloso de quem sabe aceitar, dia após dia, ser como é. Gostei muito.
    Um beijo.

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    1. Viva Graça, obrigada :) :)
      Um beijinho

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  9. Das refexões que temos muitas vezes e onde as conclusões não são sempre como a tua, mas devia. Havemos de nos gostar para podermos gostar dos outros. És linda :)

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    1. Obrigada G. Maria ( Maria, como eu... isto das Marias... devíamos formar um partido :) e dar cartas nisto tudo :) :) :)
      Beijinho

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  10. Não há outra forma de viver, sem ser conquistar anos. E se o corpo vai murchando com esta conquista, a alma vai engrandecendo. Tenho para mim que aos 18 anos não escreveria desta forma interessante.
    Abraço, bons serões nessa óptima companhia.
    Ruthia d'O Berço do Mundo

    P.S. Também adoro um pijaminha polar

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    1. Aos 18 anos era mais poesia... As músicas e os amores... bons tempos, mas TÃO verdes.
      Beijinho, querida Ruthia

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  11. Querida D: todo o texto está muito bem concebido e desenvolvido, o que já é habitual na tua escrita. Vamos ver se, em pouco, digo o que é relevante.
    Talvez a Alice tenha vindo acrescentar serenidade, deleite e encanto ao teu sentir introspectivo, não tendo a mínima importância a forma como estás vestida ou o aspeto que tens agora. Cada mudança física é uma marca de vida e só assim se adquire sabedoria. Seria um erro (quanto a mim) estar a pensar como gostaríamos de ser. E a chave para ter a felicidade connosco é, precisamente, esse olhar de agrado pelo ser que somos.
    E és linda!
    Bjo :)

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    1. Sabes, tenho a minha costela de palhaço bastante desenvolvida, no sentido do bom humor. Fui sempre assim. posso desesperar com situações ou acontecimentos que me atinjam e abalem a minha estrutura, mas estou sempre pronta para lhes dar a volta e espremer um sorriso numa lágrima que já secou.
      Creio que é no infortúnio e em como lidamos com ele, que nos descobrimos junto com a nossa força e às nossas fraquezas.
      Diz o povo que "tristezas não pagam dívidas", por isso temos que aproveitar o que temos e adorar o borrão de tinta como se uma obra de arte se tratasse... quantas obras de arte não têm consideráveis borrões na sua essência ?
      Beijo grande, grande, querida.

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  12. Amiga,
    você brinca com você mesma!!!!
    Que dom maravilhoso!
    Amar o que somos e tentarmos melhorar a cada dia é fantástico!
    Bjus
    http://www.elianedelacerda.com

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    1. :) :) :)
      Rirmo-nos de nós próprios é bom, é libertador, é catártico.
      Ninguém é perfeito e eu, por exemplo, falho que me farto. Sou omissa em estética, "em pensamentos, palavras e obras"... é provavelmente por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa, mas não deixa de ter o seu humor tão característico. É a aceitação de nós por nós.
      Beijinho Elyane

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  13. Nós não somos apenas a estória que o espelho nos conta.

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    1. Tenho para mim, que sou assim, deixa lá ver... como um amendoim, rugoso, áspero, fibroso e disforme por fora, mas muito agradável aos sentidos, se tivermos em conta o interior... o ruido da casca a quebrar, a cor que desponta do pardo, suave e sedoso ao toque, aromático e saboroso...
      Dá trabalho chegar ao miolo, pois dá, mas vale a pena...
      As coisas que eu invento, para não estar calada, Capitã Cooka :)

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  14. Que se lixe o negócio de Dorian Gray. O que interessa é a genuinidade de ser.
    As rotações e as translações, apesar da força centrífuga que arredonda equador e trópicos, acrescentam sempre experiência e classe, desde que o madeirame se conserve sem térmitas.
    Estas reflexões evitam-nos certas angústias.
    Uma boa noite, MD. e que a Alice a deixe dormir.

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    1. Faço por isso Agostinho, mas o tal madeirame de quando em vez prega uns sustos de truz...
      A Alice até deixa dormir os pais !!!
      Abraço e que bom vê-lo por cá :) :)

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  15. olhe MD, fez-me lembrar esta música que costumo dedicar a mim mesma: https://www.youtube.com/watch?v=prERgOdUzew - tem-na aqui, para si.

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    1. Excelente Donna Lou Stevens, bom presente que se dá a si mesma, Ana :)

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É aqui que me mandas dar uma curva