quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Fascinação

 "O fascínio é, na verdade, mais poderoso que a verdade."


 Carl Sagan



Ela dorme tão perfeitamente despertada 
que em si a verdade é o vazio. Ela aspira 
à cegueira, ao eclipse, à travessia 
dos espelhos até ao último astro. Ela sabe 
que o muro está em si. Ela é a sede 
e o sopro, a falha e a sombra fascinante. 
Ela funda uma arquitectura volante 
em suspensas superfícies ondulantes. 
Ela é a que solicita e separa, delimita 
e dissemina as sílabas solidárias. 

António Ramos Rosa







Amanheceu tiritando, triste e  escondido pelas densas camadas de ar glacial e condensado que lhe embaçavam a luz   e subtraiam o calor.  É normal Bóreas soprar gelado nestas datas e erguer uma barreira frígida forte, que nem mil forjas de Hefesto conseguem aniquilar. Resignado, foi tentando que os seus raios escapassem por uma ou outra fresta, que brincassem por entre os flocos de Quione, enfim, foi jogando, fugiu por aqui, saltou por ali ultrapassando os obstáculos da estação , para que pudesse levar algum calor aos homens.
Entretido que estava nesta sua invernosa rotina, mal reparou no negro que se aproximou, naquela rua, naquela hora da manhã tão fria, em que os homens se afadigavam gelados e o calor ainda não tinha passado de nível para lhes conseguir entrar no peito.
Então viu. E ouviu. E sentiu.
Viu que o carmesim que tingiu o espaço não provinha das suas pinceladas de aurora cor de fogo.
Ouviu o ribombar. O estrondear do ferro e do fogo, o atroar dos gritos de dor e o rosnar gutural da indiferença e da selvajaria.
Sentiu o cheiro da morte.
Sentiu- se culpado. Após milhões e milhões de anos a aquecer os corações dos homens, não conseguira derreter a pedra de gelo que os envolve. Sentiu-se como num eclipse, em que as sombras se apoderam da terra e o negro e a escuridão se propagam como um vírus devorador de consciências.

Continuou a ver, envergonhado mas incapaz de resistir, testemunha silenciosa do feitiço que o mal provoca nas almas.
A fascinação é poderosa demais para se poder desviar o olhar.
Foi ontem.


                                                          

24 comentários:

  1. Que lindas palavras transcritas. Beijos, ótima quinta-feira

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    1. Viva Rute! Obrigada. Melhor fora não as ter escrito... Há-de haver sempre algo que ultrapassa o entendimento de quem é livre de pensar...
      Bom 2015 . Beijinho.

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  2. O meu filho está desolado. Coleccionava cartoons do Charlie Hebdo e não consegue entender...
    Beijo. :(

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    1. Já sabes o que penso disto. Nem me vou alongar em mais retóricas sobre a imposição pelo terror, porque isso é a lei da selva.
      Contudo penso nestas personificações do mal, que se escondem à vista de toda a gente, a quem, quem sabe, damos os bons dias todas as manhãs, frequentaram a nossa casa e brincaram com os nossos filhos, comeram à nossa mesa e no fim matam-te pelas costas em nome de algo que nem sabem bem o que é....
      Triste, Lu, muito triste...

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  3. engraçados gelos escondidos
    feliz ano novo 2015
    volto a votar por aqui este ano proximo
    jorge

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    1. Alô Jorge. Merci pour revenir Chez moi.
      Bon 2015. A bientôt.

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  4. E quiçá, quem sabe se por tal, Oscar Wilde tenha escrito:

    "Há apenas duas classes de gente realmente fascinadora - os que sabem tudo e os que não sabem absolutamente nada.".

    Votos de um bom ano.

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    1. Pela parte que me toca, Xico, só sei que nada sei.
      Os donos das suas verdades querem-nos obrigar a engoli-las à força. Cada um tem a sua. A minha serve- me bem, mas respeito às dos outros.
      Abraço amigo.

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  5. Um autêntico eclipse momentâneo, que pareceu cegar a humanidade, por minutos, como se de um acto inédito se tratasse...
    Um golpe duro no jornalismo e na liberdade de expressão, na criatividade, e no sentido de humor.
    Um murro no estômago de cada um de nós.Foi tanta a incredulidade, que aquela portuguesa ao passar na rua naquela
    altura, pensou tratar-se de um filme!
    Um texto muito para além das aparências, e uma música muito em escolhida.
    E é como dizes, eles podem estar ao nosso lado.
    xx





































































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    1. Eu não tenho cor nem credo. Tenho ideias, consciência e opiniões. A liberdade de expressão é a única que nos é intrínseca, que é nossa , para falar, para guardar, para gritar, pintar, tocar... Pertence-nos, faz parte da nossa personalidade e funciona em simbiose com o nosso pensamento. Dá-nos poder de decisão.
      Matá-la aos poucos, é matar um pouca a cada um de nós.
      Depende de todos e de cada um manter a fogueira viva, para que a chama nunca se apague e para que a luz preencha as sombras onde se esconde a vilania... Quem sabe debaixo das pedras, quem sabe confortavelmente na porta ao lado.
      Num dia deste ano, vou a Paris. Estava já planeado. Não altero nada. Não quero que o medo vença.
      Beijinho, Laurinha, companheira das palavras expressivas, onde canta o doce pássaro da liberdade.

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  6. "Após milhões e milhões de anos a aquecer os corações dos homens, não conseguira derreter a pedra de gelo que os envolve". Não é culpa do sol, nem de nenhum eclipse. É o fanatismo, a intolerância, a falta de respeito pela liberdade que nos pertence. Gostei do seu texto.
    Um beijo.

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    1. Absolutamente certa, graça. Obrigada e um beijinho

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  7. Did they catch the falling knife?
    They caught it like a fly with closed mouths.
    Did they balance the last egg?
    They struck the egg with a bone so it won’t howl.
    Did they wait for dead man’s shoes?
    The shoes went in at one ear and out the other.
    Did they wipe the blood from their mousetraps?
    They burnt the blood to warm themselves.
    Are they cold with no pockets in their shrouds?
    If the sky falls, they shall have clouds for supper.

    Charles Simic

    Uma nova idade do gelo, cara M D. Novinha, feita a propósito para nos gelar o coração.

    Uma boa noite, M D.

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  8. Afetar burning the blood to warm themselves, virá seguramente o degelo e quem sabe a grande deriva continental, que temo já ter começado, querido X.
    Boa noite e um beijinho :)

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  9. Muito reflexivo!!!!!
    O fascínio nos leva ao conhecimento profundo!
    bjus
    http://www.elianedelacerda.com

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    1. O fascínio pelo mal devia fazer-nos reflectir nas suas raízes e tirar as ilacções necessárias a poder, ou pelo menos tentar minimizar a sua projecção e disseminação pelo mundo.
      You may say I'm a dreamer, but I am not the only one... :) :) :)
      BJ. Elyane

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  10. A fascinação pode transformar-se noutras coisas e tem limites cinzentos.

    Uma reflexão a considerar.

    Bom 2015

    beijinhos

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    1. Há temas com tantos tons e nuances que se esbatem entre a luz e a ausência total dela, que são sempre um bom motivo de reflexão, Pérola. :) :)

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  11. Magnífico texto, MD, acompanhado de tema musical que sobe até centro da galáxia, de nós.

    O homem continua bárbaro!
    Uma biliosa inveja oblitera-lhe
    as circunvalações da mente
    O refluxo dos sentimentos
    como nas marés, constantemente,
    sente-se no pulsar, apesar
    da brasa que o anima
    Eternamente.

    E a generosidade do belo
    esvai-se numa inutilidade
    de tempo sem que se derreta
    o gelo da imbecilidade.

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    1. "E a generosidade do belo
      esvai-se numa inutilidade
      de tempo sem que se derreta
      o gelo da imbecilidade" ... Agostinho, adorei.
      Abraço amigo.

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  12. Me fascina toda a humanidade desprovida de maldade, as atitudes simples de ternura, tudo que tenha inocência ou que me transmita paz, tudo que seja natural, belo e sofisticado. a natureza (adoro o campo) e a inocência e fragilidade de todas as crianças conseguem me fascinar. Fica bem♥

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    1. É a utopia de todos nós, Nidja. Um dia... :)
      Beijinho

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  13. Tenho estado tão "atoleimada" pelos acontecimentos que teimo em ver e ler tudo o que me é possível para formar uma consciência mais global do problema, talvez até mais clarividente. Quero-me livre de manipulações. Que há atos de terrorismo diários (e aqui refiro-me só aos atentados e massacres físicos), todos nós deles temos conhecimento. Que já os houve bem perto de nós, também sabemos.Que os condenamos, idem. Sejam eles de que natureza forem. Este, a meu ver, atingiu-nos mais porque se tratou de um atentado à liberdade de expressão num país (apesar do fenómeno Le Pen) donde bebemos os ideais nascidos da Revolução Francesa.Tenho estado ativa na minha página do FB e em postagens de alguns amigos. Há muito que, por vezes, dizia que estávamos em retrocesso civilizacional, parecendo viver num neomedievalismo (acabei de "inventar" a palavra). Não quero deixar de acreditar que, quem de direito, assuma o problema de forma global, cooperando e gizando medidas de atuação consertadas. Matar em nome seja do que for é mais do que condenável.
    A tua postagem: citação, poema, imagem e música bem escolhidas face à mensagem: o texto, fantástico, podendo ser um guião para um filme (cenário, trama, epílogo) ou a peça de uma tragédia grega.
    Querida D, sabemos que é preciso um novo paradigma mundial e que o MEDO não nos tolha!
    Bjo, amiga

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    1. Não ter medo, ou ter e combatê-lo nos nossos corações, é a única coisa que depende de todo e cada um de nós.
      Estes pequenos holocaustos vão acontecendo aqui e ali, muitos por culpa da nossa indiferença, verdade seja dita, mas têm o objectivo de subjugar as consciências a uma verdade universal que é a deles, na qual a palavra liberdade não existe. Qualquer liberdade.
      Beijo querida.

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É aqui que me mandas dar uma curva