terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Mudar a mudança

"É preciso que tudo mude para que tudo continue como está"


Giuseppe Tomasi di Lampedusa



Lei é da Natureza 
Mudar-se desta sorte o tempo leve: 
Suceder à beleza 
Da Primavera, o fruto; à calma, a neve;
E tornar outra vez, por certo fio, 
Outono, Inverno, Primavera, Estio.

Luis Vaz de Camões








Tantos foram os segundos, aos milhares, aos milhões que passaram em voo célere.
Tantos os que partiram e deixaram dor e saudade.
Tantos os que chegaram para dar calor a almas frias,  almas habituadas aos hábitos. 

Tanto foi o mal.
Tanto foi o bem.



Porque ainda há bem nos homens.
Porque a mudança pode ser uma realidade. Podemos mudar e sermos sempre iguais a nós próprios. Mudar não significa perder a identidade, mas sim fortalecer o carácter e aprender a conhecer-se mais e melhor.






É um voto para o ano que se avizinha.
Que os homens mudem, não esteticamente, mas que recuperem aquilo com que todos nascem e muitos perdem com as agruras do tempo e da vida, uma consciência sã.




Bom 2016

( Todas as fotos por MD Roque)

                                                         

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

As Palavras

"As palavras são a nossa condenação. Com palavras se ama, com palavras se odeia. E, suprema irrisão, ama-se e odeia-se com as mesmas palavras! "

Eugénio de Andrade




¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
 ¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
 ¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?
 Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde están los hombres?
 con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?
 con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?
 Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
 Miran, y cuando miran parece que están solos.
 Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.
 ¿Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
 ¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
 ¿Que en los mares y campos andaluces no hay nadie?
 ¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
 ¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
 ¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?
 Cantad alto. Oireis que oyen otros oídos.
 Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
 Latid alto. Sabréis que palpita otra sangre.
 No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.
 encerrado. Su canto asciende a más profundo
 cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres

Rafael Alberti








Queria poder ensinar as palavras que aprendi. Queria saber explicar a doçura das palavras, a sua música, a sua luz, a sua força.
Não encontro palavras que contem a história das minhas palavras de menina.
As letras estão lá, alinhadas em conjuntos que formam frases, mas as frases não têm delicadeza, nem carinho, nem alegria. São fracas e sem sentido, pintadas com sucessivas camadas de uma força fraca como um verniz que lasca e se desprende e parte em mil pedaços.







É o que faz insuflar palavras com raiva. Troam e retumbam, mas são feias, ocas e vazias. Não dizem nada, não ensinam nada, não têm amor.
Não há poesia sem amor, nem homens sem poesia. O mundo será um deserto de gente afásica porque não tem palavras para amar.
E lá longe, no horizonte indefinido das palavras justas, talvez um dia as letras formem a palavra luz.




 ( Todas as Fotos de MD Roque)






domingo, 15 de novembro de 2015

I have a Dream

Yesterday is now

The Past is today



"I’m sorry, but I don’t want to be an emperor. That’s not my business. I don’t want to rule or conquer anyone. I should like to help everyone - if possible - Jew, Gentile - black man - white. We all want to help one another. Human beings are like that. We want to live by each other’s happiness - not by each other’s misery. We don’t want to hate and despise one another. In this world there is room for everyone. And the good earth is rich and can provide for everyone. The way of life can be free and beautiful, but we have lost the way.
Greed has poisoned men’s souls, has barricaded the world with hate, has goose-stepped us into misery and bloodshed. We have developed speed, but we have shut ourselves in. Machinery that gives abundance has left us in want. Our knowledge has made us cynical. Our cleverness, hard and unkind. We think too much and feel too little. More than machinery we need humanity. More than cleverness we need kindness and gentleness. Without these qualities, life will be violent and all will be lost....
The aeroplane and the radio have brought us closer together. The very nature of these inventions cries out for the goodness in men - cries out for universal brotherhood - for the unity of us all. Even now my voice is reaching millions throughout the world - millions of despairing men, women, and little children - victims of a system that makes men torture and imprison innocent people.
To those who can hear me, I say - do not despair. The misery that is now upon us is but the passing of greed - the bitterness of men who fear the way of human progress. The hate of men will pass, and dictators die, and the power they took from the people will return to the people. And so long as men die, liberty will never perish. .....
Soldiers! don’t give yourselves to brutes - men who despise you - enslave you - who regiment your lives - tell you what to do - what to think and what to feel! Who drill you - diet you - treat you like cattle, use you as cannon fodder. Don’t give yourselves to these unnatural men - machine men with machine minds and machine hearts! You are not machines! You are not cattle! You are men! You have the love of humanity in your hearts! You don’t hate! Only the unloved hate - the unloved and the unnatural! Soldiers! Don’t fight for slavery! Fight for liberty!
In the 17th Chapter of St Luke it is written: “the Kingdom of God is within man” - not one man nor a group of men, but in all men! In you! You, the people have the power - the power to create machines. The power to create happiness! You, the people, have the power to make this life free and beautiful, to make this life a wonderful adventure.
Then - in the name of democracy - let us use that power - let us all unite. Let us fight for a new world - a decent world that will give men a chance to work - that will give youth a future and old age a security. By the promise of these things, brutes have risen to power. But they lie! They do not fulfil that promise. They never will!
Dictators free themselves but they enslave the people! Now let us fight to fulfil that promise! Let us fight to free the world - to do away with national barriers - to do away with greed, with hate and intolerance. Let us fight for a world of reason, a world where science and progress will lead to all men’s happiness. Soldiers! in the name of democracy, let us all unite!"
The Great Dictator


                                                       



Para o Futuro.Para a minha neta.

sábado, 7 de novembro de 2015

Me with You - A Love Story

"A infância não se repete, nem na lembrança, nem na imaginação. Quando, muito, dá-se outra infância. "

Miguel Torga



És pequenina e ris ... A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa ...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te faz tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem à gente ...
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente ...

Florbela Espanca









Estou de quatro, relincho, resfolego, rosno, sacudo a desgrenhada cabeleira cinzenta que ela puxa como se rédeas fossem e ri.
É tão linda quando ri. É tão lindo o seu sorriso de onde despontam pequenas promessas de alvos dentinhos... dois ratinhos, digo eu, vá mostra à Avó e ela ri e diz "Bâ" e eu deliro e olho em redor ansiosa que alguém esteja por perto para testemunhar aquele prodígio... E ela ri com o sorriso mais lindo do mundo. Ri para mim. É linda. Tão linda.

Ainda me lembro  o quanto eu queria tanto, mas tanto, ter uma boneca vestida de princesa...   correram mais de cinquenta anos para ter uma princesa que é uma boneca, a maior riqueza com que se nos é permitido brincar, mimar, ninar, acarinhar.






E fiquei tola, tontinha, palerma, deslumbrada.

Eu é saltos, pulos, balbucios , cuidados.

Eu é loucuras mil,  inconsequentes e pueris, que me levam de volta à meninice e à princesa vestida de boneca, que é boneca de carne e osso e princesa do meu coração.

Quem diz que a alegria traduzida em amor não mareja as outras meninas com agua e sal, mais intensamente do que o pesar traduzido em decepção e tristeza? Dou por mim afogada num sentimento renovado e tão doce, tão terno, tão puro,  que a alegria cai-me em cascatas dos olhos e eu rio a chorar.

O coração matraqueia-me o peito porque se sente apertado e quer saltar, agigantou-se e quer bradar e tocar o mundo com a felicidade que sente.

Querença desmedida, estupenda, difícil de descrever, aquela  que sinto quando tenho o meu mundo sentado no colo e o posso tocar e acariciar com a palma da mão.



                                                     


(Fotos de MD Roque)

domingo, 27 de setembro de 2015

Agora escolha

Se consciência significa memória e antecipação, é porque consciência é sinónimo de escolha.

Henri Bergson






A angústia invade quer o inquieto,
 exclusivamente deslumbrado por aquilo que arde com uma luz vaga,
 quer o poeta cheio de amor pelos poemas que nunca escreveu o seu,
 quer a mulher apaixonada pelo amor,
 mas incapaz de devir por não saber escolher.[...]
[...]E o insensato, que vem censurar a esta velha o seu bordado, 
sob o pretexto de que ela poderia ter tecido outra coisa,
 demonstra com isso que prefere o nada à criação.

Antoine de Saint-Exupéry









O pensamento isolado não nos liberta, pelo contrário, atraca-nos a vida com grossas amarras no ponto onde a linha do horizonte se embacia ao olhar










É complicado escolher ? É e não é.




Todos os dias fazemos escolhas, que de tão dilutas nas nossas rotinas pouco ou nada nos apercebemos delas. Escolhemos a hora de acordar, o que vestir, o que calçar, o que comer, se tomamos a medicação para a tensão arterial ou para a artrite...

Todas as escolhas que fazemos são forjadas no nosso livre arbítrio, na liberdade de poder dizer, de poder fazer, de poder pensar.

Temos vontade própria e alforria de ideais e ideias. 
É certo que somos gregários e que as sociedades nos impõem as suas leis. Mas no epílogo das nossas decisões, as escolhas foram sempre nossas.
Qualquer acção e consequente reacção, mais não foram do que consequências das nossas decisões.








Podemos fugir do medo
Podemos ficar e combatê-lo
Podemos viver com medo
Podemos morrer a combatê-lo

Chegará o momento de olhar para ver
Ver com olhos de ver
E escolher
Escolhi viver sem medo
O medo manieta a liberdade
Sou livre
Vou à luta. Optei por lutar

Escolhi assim




( Todas as fotos de MD Roque)




                                                    

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Willkommen Bienvenue Welcome

"Sob a lua, a sombra que se alonga é uma só."


Jorge Luis Borges



Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 
Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 
E roda a melancolia 

seu interminável fuso! 

Cecília Meireles








A Sombra sou eu, pois que tenho luas e sou de luas.
Oiço-a, oiço-a sim, 
Que é ela quem comanda as minhas noites
O calor e loucura que parecem não ter fim









Bem vindos à minha Lua! 
Escolham uma, tenho tantas, de tantas cores e feitios
Tomam-me durante os estios, enredam-me, vestem-me nua
Endoidam-me em desvarios





Sombração na minha pele, arrepio de pensamento
Murmúrio a todo o momento, força que atrai e repele
Bem vindos à minha Lua!
Projector do meu tablado, luz que ilumina o meu fado











Feitiço de noites loucas, são tantas e são tão poucas
Muitas falas , vozes roucas, muita gente sem idade
Na ira, na alacridade
No que se pede e se traz, dás-me a loucura das noites
Dás-me o silêncio e a paz.


( Todas as fotos por MD Roque)








                                                       

domingo, 19 de julho de 2015

Robbing Souls

"A melhor coisa sobre uma fotografia, é que ela não muda mesmo quando as pessoas mudam"

Andy Warhol




O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio.


Machado de Assis








É fantástico olhar um céu azul pontuado de flocos brancos que vão adquirindo tonalidades espantosas com o passar da hora do dia ao sabor do sol,  de nascente a poente.







Mal acordo , olho o horizonte delimitado por telhados escuros , onde, levemente à esquerda,  uma promessa de luz começa a despontar. Capturo a imagem. Sorrio. Depois do estímulo da cafeína olho o horizonte do outro lado e sorrio sempre ao quadro, aquela pintura todos os dias diferente, parte daqueles jogos de luz e sombra, que conferem tonalidades diversas ao mar e acordam a cor da terra à medida que a luz avança.

Capturo mais uma imagem. São todas iguais à  primeira vista, mas um segundo olhar mais atento , um pormenor mais detalhado, revelará que não há duas imagens iguais.









Capturar um momento de luz é fantástico, seja ele qual for. A luz que brinca na espuma branca de uma onda que marulha , naquele papel que voa em incansáveis piruetas, na copa de uma arvore que ondula ao vento, no cristalino de uma iris garça, nas asas de um pardalito acromático que voa em contraluz...





























Em algumas culturas acreditava-se que as fotos roubavam as almas. Eu também acredito, acredito que roubem e guardem infinitamente a alma daquele nanosegundo em que se fez luz, uma luz diferente e esplendida.



Uma pedra, uma fresta,  uma flor, uma paisagem de cortar a respiração. Muitas são as vezes que a procuro, á beleza que me faz roubar a alma do tempo. Outas tantas é o acaso que a enquadra na periferia das imagens que a minha retina inverte.





Rever instantes é reviver emoções. É querer mais e tentar a todo o custo voltar aquele momento de felicidade. É mentira que nunca se deve voltar onde se foi feliz. Eu volto. Volto muitas vezes.







 Encontro o tempo parado no tempo,  a girar feito louco naquela mudança que muito poucos têm a felicidade de reconhecer.




Anseio pelo porvir, pelos anos dourados em que nadarei em rios de tempo manso e poderei decidi-lo a meu bel prazer.

Anseio criar, mas não tendo alma de artista, contento-me em poder revelar momentos da criação. Quero aprender a roubar almas, muitas, deliciar o mundo com elas. Deliciar-me a mim.





Só me entristece pensar que depois da travessia do meu Êxodo laboral, possa ter Canaã à vista e que seja apenas a miragem do meu sonho; como insondáveis e misteriosos são os caminhos de Deus,  seja eu mais um Moisés, como foi o meu pai antes de mim.





( Todas as Fotos de MD Roque)
                        





domingo, 12 de julho de 2015

My Bat Life - The Bat Nights

"O que importa não é passear de noite mas deixar a noite passear-se em nós. "

Mia Couto








Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
 vago e belo e voluptuoso,
 num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos
                                                                                  [e quedos.
 Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
 deixai que os caminhos da noite,
 cegos e rectos como o destino,
 suspensos como uma nuvem,
 sejam os caminhos dos poetas
 que lhes decoraram o nome.
 Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
 Esconde a vida no seio de uma estrela
 e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
 para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

Fernando Namora




















Saio para a rua.
A noite é terna e afaga-me o pensamento cansado
Envolve-me naquele abraço , amigo de tantos anos
São incontáveis as vezes que a noite e eu nos juntámos em silêncio e sorrimos aquele sorriso de reconhecimento mútuo.
Eu sei , sei sempre que vamos estar juntas e creio que ela sabe também.






Acima da minha cabeça sinto o restolhar das asitas de um pequeno morcego. Deve ser o trineto duma linhagem que nos saúda , a mim e à noite, todos os anos por esta altura.

Sinto-me mole, apetece-me encostar à brisa que sopra do mar e deixar-me embalar no seu arrepio morno, mas não consigo; mesmo querendo é impossível.
 A noite é ainda uma criança e conta comigo para atravessar a luz vazia até próxima manhã, assim como eu conto com ela para me deixar acordar. E recordar. A noite tem medo do escuro mas é no escuro que se transcende.

Sou uma mancha,  sou uma sombra, sou o silêncio e o ruido surdo .
A noite é minha e as duas somos uma só numa fascinante e antiga dança de  sombras que nos prende naquela nesga de espaço onde a luz não está.











                                                         

sexta-feira, 10 de julho de 2015

E a vida fica para trás....

“Working gets in the way of living.”


Omar Sharif


 "Portanto, nada de contenção exagerada. O seu discernimento deve ser o seu guia. Ajuste o gesto à palavra, a palavra ao gesto, e cuide de não perder a simples naturalidade. Pois tudo o que é forçado foge do propósito da actuação, cuja finalidade, tanto na origem como agora, era e é erguer um espelho diante da natureza. Mostrar à virtude as suas feições; ao orgulho, o desprezo, e a cada época e geração, sua figura e estampa. O exagero e a imperícia podem divertir os incultos, mas causam apenas desconforto aos judiciosos; àqueles cuja censura, ainda que de um só, deve pesar mais em sua estima que toda uma plateia de ignorantes.





William Shakespeare, in "Hamlet"










"I don't like people who have never fallen or stumbled. Their virtue is lifeless and it isn't of much value. Life hasn't revealed its beauty to them"


Zhivago





"In time to come, I tell them, we'll be equal
 to any living now. If cripples, then
 no matter; we shall just have been run over
 by 'New Man' in the wagon of his 'Plan'."

Zhivago's Poems












De entre os filmes da minha vida , destaco sem grandes demoras Dr. Zhivago e Lawrence of Arabia, duas obras grandiosas desse excelente director que foi David Lean, ambas protagonizadas por Omar Sharif.

Omar Sharif deixou-nos hoje com 83 anos. Sofria de alzheimer.
Creio que todos os que o viram como Yuri Zhivago ou Sherif Ali, nunca o esquecerão. Ele já se esquecera de si próprio e das grandiosas histórias da história de que fez parte.


Estará sempre na memória de todos aqueles que ainda gostam de bom cinema e para quem a História Mundial não é apenas um passatempo, é um registo da vida.












"Does it surprise you, Mr Bentley? Surely, you know the Arabs are a barbarous people. Barbarous and cruel. Who but they! Who but they! "


Sherif Ali


"Truly, for some men nothing is written unless THEY write it."


Sherif Ali



Até sempre, egípcio misterioso. Que Alá te guie até ao poço onde beberás e te refrescarás para a tua última viagem




PS: Nem sei se alguém se lembra de eu ter contado que o meu primeiro animal de estimação foi um cágado, a quem muito apaixonadamente chamei Omar Lombrando :)

sábado, 20 de junho de 2015

O Borrão

"Em vez de pintar coisas puseram-se a pintar ideias."


Ortega y Gasset







Tempo — definição da angústia.
 Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
 Ao coração pulsátil dum poema!
 Era o devir eterno em harmonia.
 Mas foges das vogais, como a frescura
 Da tinta com que escrevo.




Miguel Torga










Divago no vazio do olhar que preguiça, volto a olhar e não me chegam os detalhes, não os sinto, não me falam. Baixo a mão desanimada que segura o pincel e reparo que os braços disformes que marcam o tempo indicam que já passou muito.

Que perda de tempo estar a olhar tanto tempo para o vazio, para aquela terra de ninguém, onde nem as ideias se esboçam arquitectadas em pensamentos ou fantasias.

Também quem me manda aceitar pintar  ideias dentro de um prazo ?

Eu que nem sei a forma que um prazo tem e agora há prazos para tudo. Como garantir que não pintarei qualquer ideia já fora de prazo dentro do prazo que me deram ?

Comecei bem, cheia de ideias. Chegavam-me aos molhos, em  catadupas, ouvia-as fervilhar-me ao ouvido, bem dentro do pensamento. Depois foi-se instalando a inevitável inquisição sobre a qualidade, a prioridade, a assertividade, a originalidade,  a validade,  ... sobre toda e qualquer idade em que se cria e desenvolve uma ideia...

Pincelada aqui, dripping ali, frottage acolá, a ideia foi ganhando cor e dimensão. Durante breves momentos,  cheguei a senti-la corpórea e poderosa.

Deve ter sido uma noite desesperada aquela em que não consegui segurar a ideia e ela desapareceu.

Agora para aqui estou, a olhar o infinito na parede crua meia dúzia de palmos à minha frente, presa a um pincel de tinta escura,  a criar profundidades tristes como abismos vagos de ideias.

Ping !

Então? Então? 

Ainda entorpecida pela inação noto que um pingo negro se desprende displicente mas veloz do pincel que equilibro relaxadamente nos dedos.

Olho, procuro, vasculho... nada !

Atento na coluna da direita, onde estão os magos das letras e noto uma sombra sobre o Delito. Pode ser só opinião minha, mas o marafado do pingo fugiu pelo link . Esperto que só ele, pensou que poderia esconder-se naquela floresta densa e colorida de ideias, ideais e opiniões, megalómano como ele só, cogitou no seu íntimo que uma mancha poderia ascender aos píncaros da cultura em toda a sua magnitude. Que mesquinhez querer elevar um borrão ao estrelato!

Encontrei-o anichado entre o Pedro Correia , a Francisca Prieto e o Rui Rocha, a tentar acinzentar-lhes a prosa, não fosse para tal necessário muito mais do que uma simples nódoa. Esmaguei-lhe a intenção com a manga da camisa. Não causara dano.

Foi então que a ideia entrou de rompante, como aquele pé de vento naquele Domingo à tarde que virou tudo de pantanas e ninguém deu por ele:
Vou pintar esta ideia sobre a ascensão e queda de um borrão egocêntrico, insolente, prepotente e atrevido, sobre uma nódoa de alma de sombra negra em todas as suas nuances e tonalidades.


Grande ideia esta!

Até já lhe sinto as cores ! 

Aposto que nunca na história da humanidade surgiu ideia mais original !