quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Ditos e Feitos

      "Fim - o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa."

Agustina Bessa Luis




     "Uma vida só tem história do princípio para o fim, se a tiver do fim para o princípio."

Vergílio Ferreira




O Começo e o recomeço




Após mais 365 dias de translação em torno do astro rei, 2014 está já a balões de oxigénio e pouco falta para se finar.


 Le Roi est Mort! Vive le Roi!


2014 passou sem grandes sobressaltos, embrenhando-nos nesta dormência apática à qual  tão bem nos habituámos.

Foi o ano  dos crimes de colarinho branco, dos crimes de roupa suja, dos crimes contra a humanidade, dos crimes contra a palavra escrita. Facínoras conhecidos, facínoras desmascarados, facínoras encapuçados, todos réus, muitos acusados, poucos condenados.

Pessoalmente, não tive grandes sobressaltos.
Fiz tudo o que me propus fazer.
Disse tudo o que propus dizer.
Perdi o Sam e ganhei a Sally. 
Recebi a notícia de que iria ser avó.
Vivi o meu sonho de adolescente.
Li muito, emagreci uns gramas aqui e ali.
Não operei a malvada hérnia cervical.
Conclui que há exercícios que aprimoram a psique, mas não se processam ao nível do intelecto, tem que se puxar também pelo cabedal.
Continuo a ter um bom emprego, o que é muito melhor do que ganhar a lotaria.
Continuo velha, chata, stressada e rabugenta, requisitos fundamentais para poder vir a tornar-me uma avó de truz.

2015 está a galope e não tarda. Se caminhar semelhante ao ano que se esvaece será seguramente um ano bom, pois se não morri, não poderei de maneira alguma ter razões de queixa.
Basta-me igual

Faço votos.
Votos de saúde, alegria e paz. Votos de muito amor, para quem carece do afago ternurento e macio de uma mão carinhosa. Votos positivos. Votos bons. Votos alegres. Votos em consciência lá mais para as nonas do décimo.


BOM 2015


                                                                                                                                                                                                                              

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Solstício

"O sol que morre tem clarões d'auroras,  / Águia que bate as asas pelo céu! "

Florbela Espanca



Das bandas do poente lamentoso 
Quando o vermelho sol vae ter comtigo, 
- Nada é mais grande, nobre e doloroso, 

A. Gomes Leal 



Quando a Terra , os Céus , o Sol e o Mar, se juntam num poema para nos saudar.


























He takes his seat upon the cliffs, the mariner
Cries in vain. Poor little wretch! that deal’st
With storms, till heaven smiles[...]

William Blake


                                                   


sábado, 20 de dezembro de 2014

Festas Felizes

"Nenhum dia é festivo por ter já nascido assim: seria igualzinho aos outros se não fôssemos nós a «fazê-lo» diferente."

José Saramago




Não precisamos de muito para viver bem – para ser feliz basta uma família e pouco mais. 

A família é a casa e a paz. O refúgio onde uma vontade de chorar não é motivo de julgamento, apenas e só uma necessidade súbita de... família. 


José Luis Nunes








O ar é festivo. O ar de quem passa e o próprio ar que se condensa no afadigar de passos apertados, punhos cerrados sobre sacos, palavras alinhadas em listas sem fim. O frio confere à época aquele toque tão especial que sobressai nas roupagens, camadas várias, quentes e impermeáveis ao ambiente, ao climatérico, ao urbano e ao humano também. 
Riscam-se palavras num papel. Riscam-se nomes. É muito bom saber que já se foi riscado duma lista. É bom pertencer à lista de alguém.

É tradição e as tradições são para se manter, principalmente  aquelas que conseguem reunir pessoas à roda daquele fogo de chama já quase apagada, que é o desejo de pertencer. 
É a isso apenas que se resume a festa da família, pertencer, porque há laços de sangue, mas principalmente porque há laços. Apesar de nascermos integrados numa genealogia, familiares são aqueles que nós escolhemos e que nos escolhem, são o fundamento de sentimentos fortes que ultrapassam  nomes e linhagens, são a quem nós queremos e quem nos quer bem.

É por isso que em Dezembro, independentemente da comemoração que a crença de cada um poderá impor, celebramos principalmente a união, a amizade e a paz, o que para muitos é toda a acepção da palavra família. É tradição. Tradições são importantes, fazem parte da nossa  cultura, da nossa identidade como povo. Que nunca se perca. Que se repita todos os anos e de preferência , mais do que uma vez por ano.


Festas Felizes

Beijos para todos os amigos que me visitam. Paz e Felicidades para 2015.





             

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Insatisfação

"A arte do descanso é uma parte da arte de trabalhar."
John Steinbeck




Exausto

Eu quero uma licença de dormir, 
perdão pra descansar horas a fio, 
sem ao menos sonhar 
a leve palha de um pequeno sonho. 
Quero o que antes da vida 
foi o profundo sono das espécies, 
a graça de um estado. 
Semente. 
Muito mais que raízes.

Adélia Prado







Quem nunca deu de caras com o ponto G da ruptura emocional e psicológica, que atire a primeira pedra. 

Não me digam que se resolve com uma boa noite de sono. Desconheço o conceito há bastante tempo. Talvez nunca o tenha verdadeiramente conhecido. Muitos são aqueles cujo espírito sossega durante as horas de descanso, mesmo que poucas  sejam , vá. 
Eu sou da raça que passa esse mesmo tempo em bolandas e correrias, em diversos e estranhos lugares, sempre com muita gente e em situações bizarras, algumas tão reais que me empurram para um acordar desnatural , extravagante até. Creio que foi sempre assim. 

É claro que é absurdamente fácil alcançar o estado de oblívio total, mas tornamo-nos tantas vezes tão convencidos,  desleixados e auto  indulgentes  quanto à   habituação aos meios que nos conduzem aos fins, que criamos aquele ouroboros de continuidade : não descansamos enquanto não abraçarmos o descanso e  nunca alcançaremos o almejado descanso se não pudermos descansar.

Não há dia que passe, que num qualquer momento, a uma qualquer hora, um qualquer acontecimento não me leve a vegetar pelo delírio das improbabilidades. Olho para as mãos, conto os dedos pela enésima vez e tento convencer-me que afinal já não falta muito, falta é chegar lá.

Uma vez estabelecida a meta, o pódium de toda uma vida de trabalho, o tempo, que sempre correu célere sulcando profundamente o rosto com a marca da sua passagem, esse mesmo, sempre tão apressado em nos carregar a experiência com anos em cima  de anos, dá-se ao desfrute do remanso para nossa exasperação. 

Enquanto aguardo remetida à desvantagem e ao desfavor, cogito sobre os prodigiosos anos dourados ainda no reino do porvir, mas que suscitam ânsias e impaciências sem fim. Irei finalmente poder colher os pomos das hispérides plantadas e cuidadas por minhas mãos durante anos de labuta, e cujo néctar me libertará enfim para realizar os prodígios globais que sempre me motivaram a prosseguir com o meu caminho e a carregar a cruz dos meus dias maus.

Atentando bem na realidade,  todos os meus objectivos são simples, por serem fruto de uma mente simples e pragmática. Coisa para três, quatro anos... 
Cuida-me que em tendo realizado os meus propósitos, ainda me ouvirão lamuriar de insatisfação por não saber o que fazer com o tempo que me sobra e que qual saco sem fundo, nunca consigo preencher a meu contento... 

Não fazer nada é a felicidade das crianças e a infelicidade dos velhos.

V. Hugo

                                

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Heroína

"Feliz aquele que não se condena na decisão que toma."

Textos Bíblicos




"O verdadeiro herói é sempre herói por engano; sonhou ser um cobarde honesto como todos os outros."

Umberto Eco







Não,  não vou falar de cavalo, pó, castanha, merda , H... ou de qualquer outro termo pelo qual é vulgarmente conhecida a heroína, um opiáceo viciante depressor do sistema nervoso, nem da excitação, euforia ou  prazer a que eleva a psique de quem consome, tampouco do infortúnio , da miséria ou das fatalidades que lhe são associadas.


A propósito da morte confirmada  por decisão da família da jovem Tugce, uma alemã de origem turca agredida com violência após ter interrompido uma situação de abuso e assédio a duas menores num restaurante de fast-food em Offenbach, donde resultou traumatismo irreparável, coma e morte cerebral, repenso a minha noção de heroína. 

É certo que são as ocasiões que revelam o melhor e o pior que há em cada um de nós. São tantas as trivialidades do dia a dia que expõem as nossas forças e fraquezas, que nos passa praticamente despercebida a qualidade da nossa vertebração.

A minha profissão, stressante, enervante, gratificante, mirabolante, todos os dias diferente, não é isenta de risco. Passados  mais de trinta anos e alguns milhões de pessoas, já vi muita coisa, ouvi demasiado e intervim algumas vezes. Mediei diversas situações de agressão física, muitas mais de agressão verbal, mas nada que possa sequer almejar alcançar o patamar do heroísmo.

Verdade seja dita, nunca registei qualquer acontecimento verdadeiramente dramático, em que fosse necessário uma decisão rápida,  cirúrgica e eficaz. Mas penso nessa eventualidade. Penso muito, demasiado até.
Os tempos são conturbados e as pessoas imprevisíveis. O que é hoje , amanhã pode não ser. O que é agora, pode esfumar-se em segundos. Ninguém pode prever ninguém.

Penso principalmente no que eu faria se,  ou no caso de... a avaliação, o discernimento, os reflexos, a capacidade de resposta... ou então a paralisia total, o medo, a incapacidade...
Assusta-me pensar que  uma decisão tomada a quente possa ter consequências trágicas e nem estou a pensar na forma em como me atingiriam fisicamente, mas sim em como conseguiria conviver o resto da minha vida com quem me aconselha todos os dias e que conheço pelo nome de consciência desde que me entendo como gente.