sábado, 29 de novembro de 2014

Talibã

"A pontualidade é uma ladra de tempo." 
Oscar Wilde





"O que me cansa, o que me irrita mesmo, são as desorganizações, o não se cumprirem os horários marcados, os imprevistos que não me é possível controlar."


  Francisco Sá Carneiro








Amor , uma cabana e uma catraia a tiracolo...  um começo pouco auspicioso para uma dupla de ostracizados da moral e dos bons costumes, que quis cortar com as parcas de tesouras afiadas e línguas ainda piores e rumar para outras paragens, distantes o suficiente para não alterar radicalmente a ordem das coisas mas o bastante para nos encontrarmos um ao outro, juntos os três, sem ruído de fundo.
Escolher o Cacém foi ingénuo . Visitar a localidade distante  20 minutos de carro e 15 de comboio  dos nossos locais de trabalho, num belo Domingo de Setembro à tarde, foi ingénuo. Comprar o apartamento  solarengo, num doce 4º andar a contar vindo do céu, de onde se via um ribeiro, que corria entre ervas , árvores e cabrinhas a pastar, foi muito, mas muito ingénuo.
Não demorou três anos para que o pequeno paraíso boçal  se transformasse pelas artes de uma qualquer desconhecida Medusa, na maior selva de pedra da Linha de Sintra, onde a poluição atmosférica , sonora e humana era tão asfixiante e densa que quase se podia cortar à faca.

Se há algo que o meu pai me ensinou e que raramente quebro , é dar valor à pontualidade.
Eu sou o exemplo vivo de um talibã da pontualidade, sou fundamentalista nesse ponto. Não faço ninguém esperar. Não me atraso. Não sou condescendente para quem falha , principalmente para com os contumazes.

Nunca , mas nunca me esquecerei que, recém casados, fomos de lua de mel para Amsterdam. Devido a um acidente na 2ª Circular, que esteve mais de duas horas intransitável, perdemos o avião. Como é possível perder-se um avião? Hummm??  A lição que retirei deste facto, foi que , independentemente de onde me encontre, chego SEMPRE ao local de embarque no transporte escolhido, duas horas mais cedo do que nos é indicado no título de transporte. Há sempre um livro que ajuda a manter viva a eficiência da pontualidade.
A TAP entendeu e reemitiu o bilhete para o dia seguinte graças à simpatia da KLM, e lá fomos a caminho  do frio, dos moinhos, dos tamancos, das flores, do gouda... e do haring, cru, odoroso, intenso ... uma semana e já era uma iguaria.

De volta ao Cacém, retomámos os nossos hábitos diários, tentando contornar situações complicadas e exasperantes que, se ainda o são em 2014, como o não seriam em 1980 ... Estoicamente , sobrevivemos durante 19 anos à custa de muita abnegação.
Foram tempos muito difíceis, mas deixaram recordações maravilhosas e inesquecíveis e uma imensa saudade, principalmente no que toca ao  respeito entre as pessoas, termo já descontinuado nas mentalidades de última geração.

Só a partir 2000, a  talibã da pontualidade conseguiu adquirir para si um pouco de um dos bens mais preciosos do mundo e que tão dificilmente se encontra disponível. Dá pelo nome de tempo e é raro não estar esgotado.



Tempus fugit navi fieri velis et vita ad eam




             

domingo, 23 de novembro de 2014

Σωκράτης

"O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis."

Platão em "Apologia de Socrates"


"É preciso que os homens bons respeitem as leis más, para que os homens maus respeitem as leis boas."

Socrates








( Elpida, Eurovisão 1979)



A rose... a rose... a rose... a rose in the fountain 
A rock... a rock... a rock... a rock in the mountain 
Alone... alone... alone in your desolation 
You met... you met... you met your extermination 
Socrates, first superstar 
Dressed in a gown, you walked through the town 
Socrates, first superstar 
Teacher of love and of reason, you only could understand 
The words that you spoke still hurt and provoke 
Socrates, first superstar 
For this you were seized and imprisoned 
And killed by your poisonous hand 
A rose... a rose... a rose... a rose in the fountain 
A rock... a rock... a rock... a rock in the mountain 
Alone... alone... alone in your desolation 
You met... you met... you met your extermination 
Socrates, first superstar 
A rose... a rose... a rose... a rose in the fountain 
A rock... a rock... a rock... a rock in the mountain 
Alone... alone... alone in your desolation 
You met... you met... you met your extermination 
Socrates, first superstar 
Superstar 
Superstar 
In front of your grave, so peaceful and brave 
Socrates, first superstar 
You talked and your students would listen to every word that you said 
But people above don't care about love 
Socrates, first superstar 
Your teachings, they said, were indecent 
So they wanted you dead 
A rose... a rose... a rose... a rose in the fountain 
A rock... a rock... a rock... a rock in the mountain 
Alone... alone... alone in your desolation 
You met... you met... you met your extermination 
Socrates, first superstar 
A rose... a rose... a rose... a rose in the fountain 
A rock... a rock... a rock... a rock in the mountain 
Alone... alone... alone in your desolation 
You met... you met... you met your extermination 
Socrates, first superstar 
Superstar 
Superstar

(Traduzido do grego... raio de letra, hum ?)


               


Hoje deu-me para seguir a moda... e o mote do dia é... tcharããããããã! escrever um post sobre Sócrates.~

Eu cá, é como dizia o outro, Só sei que nada sei e conheço apenas a minha ignorância ....


Nota: Superestrela : A super-estrela, após a fase de gigante vermelha, explode numa supernova podendo ou não restar um "caroço" no centro. Se a massa do caroço após a explosão de supernova tiver massa maior do que 2 Mꙩ, este colapsa a um buraco negro


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Counting Out Time ...

"Apesar de tudo, a loucura não é assim uma coisa tão feia como muita gente julga. Há tantas loucas felizes!"

Florbela Espanca



Já que não tenho, tal como preciso, 
A felicidade que esse doido tem 
De ver no purgatório um paraíso... 
Direi, ao contemplar o seu sorriso, 
Ai quem me dera ser doido também 
P'ra suportar melhor quem tem juízo

António Aleixo




( buçozinho e tudo, olaré !)


Atravessar a adolescência na década de 70, foi uma corrida, um susto , um espanto , um pavor e uma das mais belas e loucas recordações da minha vida.
Foi como atravessar um deserto de intolerância, repressão e medo, e desembocar num oásis luxuriante pleno de cor, ritmo, palavras soltas e êxtase desmedido. 
Abraçar a liberdade sem limites nem imposições, embebedar-se nela , mergulhar de cabeça até perder o pé ... foi a época de todas as loucuras, de todos os excessos e de todos os desencantos.

Gratas são as recordações de ver pela primeira vez um concerto ao vivo : Os Genesis , no Dramático de Cascais , a arte cénica do Peter Gabriel , os back vocals do Phil Collins, tão colocados, colados, indistintos, mágicos, como todos aqueles minutos que terminaram cedo demais, no meio de uma multidão ululante que não conhecia bem "The lamb Lies Down on Broadway" , mas a quem a música falava mundos de entusiasmo e vocalizava em unissonãncia tudo que fazia sentido na vida de quem era jovem.

Gratas são as minhas recordações politico-partidárias, que depois dos percalços do PREC, abracei com ímpeto voraz, como se não houvesse amanhã. Como naquele sonho juvenil em que somos sempre o herói no seu alazão de pau, eu fiel às minhas convicções, quando as palavras se envolviam, revolviam e por fim pisavam e feriam, não desejava nada mais do que abarcar uma boa escaramuça, dar o corpo ao manifesto,arranhar, morder,  rasgar um par de camisas, por gelo num olho azul... valia tudo para fazer valer um credo, um valor , um dogma, uma religião.

A memória mais acalentada, a de encontrar a alma gémea, experimentar pecados loucos, sentir os sentidos a revolver as entranhas enquanto o coração martelava nos ouvidos e saía pela boca em suspiros de perdição. A pele em pelo ansiava pela frescura da lama onde deslizava como veio ao mundo, aquela felicidade que brotava no cabelo em flor daquele Woodstock passado, que só então pudemos visionar.

Depois retornaram os que viviam além mar. trouxeram outra alegria, outros ritmos,  despiram convenções, ofereceram ilusões em forma de verde , que rapidamente inundaram as ideias e os ideais. Depois foi o princípio do fim do conto dos heróis e ninguém viveu feliz para sempre.

Mas foi bom enquanto durou

Às portas de um novo ano que se prevê radical em  promessas de vida, registo esta confissão de lembranças felizes, para que o meu futuro possa um dia saber sobre o meu passado e sorria com a lembrança de que os velhinhos já foram, numa época distante, aquele pequeno ser desarticulado que cabe na cova de um braço e que revela em nós a maior emoção que algum dia poderemos sentir.






                          

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O alquimista da vida

"O amor tem a virtude, não apenas de desnudar dois amantes um em face do outro, mas também cada um deles diante de si próprio."
Cesare Pavese





[...] E abraçam-se de novo, já sem asas. 
Homens apenas. Vivos como brasas, 
A queimar o que resta da inocência. 

Miguel Torga







Acordou indisposta e ansiosa. Quem sabe nem tenha sequer dormido. Estava cada vez mais pesada e os enjoos e as tonturas atacavam quando menos esperava. 

Como ansiava que aquele dia terminasse... 

Para quê tudo aquilo, tanta preparação, tanta gente, tanta confusão? 
Bastar-lhe-ia ele, ambos de mãos dadas, olhos brilhantes e fé no futuro.

Mas não. Não podia sair-se assim tão airosamente depois do infame pecado da luxúria. A vergonha, o desrespeito, a rebeldia... A família olhava-a de soslaio, balançados ainda na decisão da letra escarlate ao peito. Não fora o receio de que o estigma da infâmia os alcançasse também, certamente a marcariam ostensiva e garridamente,  para poderem lavar a honra na praça pública, na boca das comadres, dos alcoviteiros e alcoviteiras profissionais, dos que dizem cobras e lagartos e dos outros que, por não terem o que fazer, tecem teias de vulgaridade, onde a ignomínia e a maldade pura e simples se entrelaçam em pontos laboriosos e intrincados e onde a vida dos demais ganha a forma que as línguas viperinas moldam no asco das mãos que gesticulam imparáveis, apontando a dedo todos os caídos em desgraça.

Deixou que a levassem no torvelinho da insanidade. Fez-se formosa e segura, afivelou um sorriso complacente e deixou-se guiar pelo braço do pai, ingénuo pai aquele, que a olhou com a adoração que só a ignorância poderia permitir.

Ele esperava, traído pelos nervos, olhos brilhantes com lágrimas mal contidas, igualmente desejoso daquele ocaso. Ouviram surdos todas a palavras, repetiram-nas como sorridentes bonecos de corda a quem se puxara a argola presa ao fio  que lhes pende das costas. Trocaram juras mecânicas. Sorriram-se cúmplices. Sorriram-se cúmplices durante todo o tempo em que a luz brilhou, até aquele momento em que a lua rasgou as nuvens e se perderam nos braços um do outro, sem fingimentos, nem falsidades. Eram  finalmente eles próprios, finalmente sós, os três. Finalmente felizes. 
Passaram 34 anos. Ela sorri com aquela conformação agridoce, à falta que lhe fazem os que já não estão. Pensa nos que virão e aí o sorriso rasga-se com o brilho fulgente de milhares de sóis.
Jurou nunca julgar, criticar, amesquinhar quem pecasse por amor. Até porque amar não é pecado, é a suprema alquimia, a única criação do homem que vale realmente a pena.




                                

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Torn Curtain

"Cresce junto o que foi criado para estar junto"

Willy Brandt



“Havia uma palavra no escuro. Minúscula. Ignorada. Martelava no escuro. Martelava no chão da água. Do fundo do tempo, martelava. contra o Muro. Uma palavra. No escuro. Que me chamava.” 


Eugénio de Andrade







Nasci em ti
Vivi para ti
Respirei a tua voz
Bebi cada mandamento com a sede da convicção.
Dei-me a ti
Dei-me a mim
Dei-te os frutos da minha árvore
Pensei os teus pensamentos
Foi sempre tua a minha vontade
Obedeço-te porque te pertenço
Porque me enclausuras ?
Porque me amordaças com as farpas do arame que me cerca?
Porque me agrilhoas ao betão que me empareda?
Porque não me amas como sempre a ti  amei?




O Braço de Ferro que mantinha firme a cortina psicológica, a mesma que serpenteava abjecta, infame e obscena por mais de 65 quilómetros de agonia, como um corte pútrido, uma fissura longa e inflamada que dividia a alma de um povo, começou a ceder.
Foi Schabowski, sinónimo de a partir de agora, quem sem querer abriu um rasgo, uma pequena fresta que  alargou pela força do perfume a liberdade que a aragem fresca transportava do lado de lá. 
E as asas presas em décadas de opressão , encontraram espaço e voaram exultantes e libertas.
Foi ontem, há 25 anos atrás



                               

sábado, 1 de novembro de 2014

The Russians are comming , the Russians are comming !

"Uma das grandes lições da vida é que os tolos às vezes estão certos." 

Winston Churchill



"O erro está nos meios, bem mais do que nos princípios." 

Napoleão Bonaparte






Não sei o que pensareis vós acerca destas notícias sobre as incursões russas a oeste. Até porque nem as entendo bem:  a oeste já faz tempo que não há nada de novo.

Estarão seguramente a cumprir ordens, estes filhos de um Putin que pariu este novo conceito de passeio de MIG à zona exclusiva da NATO? Em assim sendo, para quê o bombardeiro ? Não estaremos nós cansados de ser incessantemente bombardeados com notícias como esta, verdadeiras, sem dúvida, mas canibalizadas até à medula para conseguirem  suscitar o alarmismo necessário que eleva fracas audiências à potência máxima?

"Às armas! Às armas! sobre a terra e sobre o mar..." subentende o decrépito General, o maior especialista militar do rectângulo, do tempo em que as buchas e a estopa eram de carregar pela boca dos mosquetes, que agora estão às moscas.
Quedei-me a ouvir, sem saber o que pensar. A história sustenta-lhe as palavras criteriosamente escolhidas, que desencadeiam a desenfreada produção da adrenalina imperiosa ao alerta vermelho que desponta em todos e cada um de nós.

Em segundos, passamos do alerta laranja em que apascentamos vai para quatro anos, directamente para o alerta vermelho que indefine o porvir, atentos, advertidos, vigilantes. Se já aconteceu vai para 75 anos, numa conjuntura deficitária, obra de um insurgente alienado e do seu séquito de fanáticos, é absolutamente legítimo pensar que a história se possa repetir mais uma vez, em circunstâncias de idêntica fragilidade.

Conforta-me o irónico pensamento que, de casa arrombada,   rotos ,  esfomeados e praticamente despidos de riqueza, não seremos decerto presa cobiçada por pretensos invasores,  seja qual for a sua cor.

É a guerra ! É a guerra !... ou é chegar, ver e fugir?