sábado, 25 de outubro de 2014

A volta ao Medo em trinta e tal dias ou mais

"O nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo"

Bertrand Russel




[...]Faz como os outros fizeram 
Quando chegou o momento 
De perder o medo à morte 
Por ter muito amor à vida.

Raul de Carvalho








Não é fácil amares o medo.
O medo é devastador, esconde-se no toque húmido de uma carícia, numa lágrima que rola, num beijo molhado, na troca de prazeres selvagens e desprotegidos, numa folha de papel afiada que faz verter uma gota carmesim.

O medo destrói. Mergulha nos teus fluidos ondulantes, insidioso e vil, acoita-se e desenvolve, cresce imundo e letal no teu seio. Aniquila de dentro para fora, mudo e traiçoeiro, até ser tarde demais.

Então ficas só. Isolada do mundo no mundo do medo.

Tens medo, aquele medo que não tem panaceia nem cura. Queres fugir, mas o medo não te permite sair do casulo de clausura a que foste votada, aquela cela estéril onde vives só, só tu e o teu medo. A humanidade lá fora, ficou dentro de uma bolha hermética cujo toque não te toca, por não lhe poderes tocar.
O desespero enovela-se-te nas cordas de onde a voz não desata nem sai. 

No fogo da tua memória, sessões contínuas do filme da tua vida fogem da palavra fim.

O medo levou-te a força, mas a vontade resiste. Até quando, não sabes. Sentes a  dissolução da carnadura, mas o espírito, esse lutará sempre aferrado com unhas e dentes ao medo que o quer destruir, porque aprender o medo é poder amá-lo e sobreviver.




                               

domingo, 19 de outubro de 2014

Mrs. Brown

"A infância é como a água que desce da bica, e nunca mais sobe."


Camilo Castelo Branco


"E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós"

Alvaro de campos








Arde-me nos olhos o aroma inconfundível das castanhas assadas no carvão. Tusso com o fumo e salivo ao mesmo tempo por gulosa antecipação. Sou louquinha por castanhas.

O meu Avô , trajando um robe de chambre verde ervilha, sentava-se à mesa da cozinha com uma imensa malga  cheia de castanhas fumegantes que tinha acabado de assar naquela ânfora de barro com buracos no fundo. Despia-as cuidadosamente, fazendo estalar a casca enfarruscada sob a suave pressão dos dedos , abria-as com desvelo pelo golpe transversal e colocava um pedaço loiro de manteiga, daquela quarta que a avó tinha trazido da leitaria embrulhada num papel vegetal. Repartíamos. "Toma" dizia, "Prova assim, é muito bom". E era, era delicioso e fantástico aparar na ponta da língua  gotas divinais de manteiga derretida e apressar-me para que o calor da castanha a não dissolvesse por completo.

Depois, depois chegava a Bisavó Júlia a arfar de cansaço,  com um enorme pão escuro dentro dum saco de pano que tinha um bordado a ponto de cruz e que ainda cheirava a quente. Cortava uma fatia que barrava com o doce de tomate que a Avó Adelaide tinha naquele armário escuro, o da enorme porta de madeira amarela, sempre cheio de frascos com letras, e então era um toca a lambuzar.

A Mãe era mestre em castanhas cozidas, com sal, açúcar e muita erva doce e costumava pô-las já sem casca na minha cestinha da merenda, dento de um saquinho de guardanapo com uma flor e a letra D bordadas a azul e amarelo. Adorava sentar-me num banquinho debaixo da pérgula grande no Jardim Botânico da Ajuda, com o fraco sol outonal a brincar-me com as pernas, a merendar o pãozinho com marmelada e as castanhas da minha Mãe. A água gelada no repuxo do bebedouro completava aquele festim sempre tão reconfortante.

 Perdeu-se a mística dos magustos de S. Martinho onde o Pai era presença emblemática , sempre com a sua acompanhante preferida. Perdeu-se mesmo a tradição das castanhas no dia 11 de Novembro , acompanhadas pela prova do vinho novo, ou da água pé, ou até mesmo da jeropiga na qual que me deixavam por o dedo gordo e provar o ardor.

Provavelmente a minha cada vez mais próxima mudança de estado  - sim, porque ser avó é seguramente  o supremo estado de graça na vida de uma mulher resolvida- faz-me recuar no tempo e regressar aos dias mais felizes da minha vida. Recordo-os com muita frequência, muita saudade, nostalgia e alguma tristeza. Pelos que foram, pelo que eu fui, pelo que se perdeu.

Passei metade da minha vida num correr constante onde o tempo nunca me deixou tempo para parar.
Cadenciarei o passo. Impõe-se um abrandamento. Não posso deixar o tempo continuar  a correr  veloz como um pé de vento tornado furacão,   que me desenraíze de vez . Quero poder mostrar à Alice que as coisas que são como são, nem sempre foram assim. Ja foram diferentes, e boas, e felizes.

Acredito que a minha neta irá gostar de viajar na máquina do tempo das minhas memórias.





             

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Carrossel

"A  coisa  mais impressionante  que existe são os olhos dos cavalos  de carrossel , olhos  que parecem estar gritando  " avante ! " -  enquanto  eles ,nos  altibaixos  do galope , jamais podem sair  do mesmo círculo ." 
Mário Quintana




Todos os dias os encontro. Evito-os.
 Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles.
 Já não me confrangem.
 Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer.
 Vençam lá, à vontade.
 Sobretudo, vençam sem me chatear. 

Alexandre O'Neill










A música não é sequer musical, não é melodiosa, não flui no ar como bolhas de sabão que reflectem rostos contentes e arco-íris de satisfação. É mais um som de ruidoso contentamento, misturado com tinir de vidros e porcelanas, risos e choros de crianças, gargalhadas e reclamações de indignação.
A luz é doce e difusa, entrecortada permanentemente pelas sombras dos que sobem e dos que descem, sombras grandes, pequenas, largas, estreitas, amargas ou confortadas. 
É a magia do carrossel, no seu esplendor centenário, que atrai as idades como insectos para luz , em filas intermináveis e ordeiras, todos expectantes e entusiasmados, todos contando os minutos ao segundo, todos desejando chegar rápido a sua vez de subir no carrossel.

A velha que carrega no botão olha-os a todos já sem os ver. São tantos, tantos anos, , tantas caras, tantas vozes, tantas e tão diferentes auras de emoção. Vão entrando e ocupando os lugares , a cavalo num alazão de madeira, numa girafa ou num leão, numa carruagem sem corcel, numa chávena de chá que rodopia incessante. A velha faz soar a buzina e começa mais uma volta. São minutos de deleite em que a realidade fica à porta e a fantasia se segura pelas rédeas daquela crina de palha. São momentos para saborear, para degustar com a sensibilidade e a pureza da infância, que se intromete por um instante e abafa a acrimónia da soberba e a alienação da existência.

A velha não precisa de ver para saber. O carrossel é antigo , mas é sólido. Como qualquer carrossel que se preze, ondula pelos altos e baixos do seu percurso fixo naquele mastro central, transportando os seus passageiros num arrebatamento de doçura e emoção, com pequenos objectos espelhados,  reflectindo trejeitos mélicos de bulício colorido e adocicado.
A velha sabe que os tempos são outros e que todos querem a atenção dispensada a monarcas, sentar-se em tronos de reis,  que as vénias não demorem e que se lhes afague o ego com aquele unto repelente que segregam e os torna semi-deuses no seu feudo particular.

A velha sabe que não há tronos no carrossel. É para todos, para todas as bolsas, para todas as cores, para todas as greis. Mas a velha também sabe que a ilusão da felicidade se obtém em dando a todos o que cada um pensa que o faz feliz. É por isso que a velha murmura, sorri e inventa tronos em montes de pedras.

Dias há em que os auto-reis se crêem sentados no carrossel em cadeirões magistrais de veludo bordado a ouro. Então a velha sabe que esteve bem,  apesar de não poder deixar de pensar no quão ocas e tristes de viver serão aquelas  vidas arrogantes.