quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A Alice ainda não mora aqui...

"Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era,mas acho que já mudei muitas vezes desde então"
Lewis Carroll



 " - Quanto tempo dura o eterno?"
"- As vezes apenas um segundo!"

Lewis Carroll








Quero contar-te de mim, enquanto tens a pureza necessária para ouvir dos idosos e das suas excentricidades de velhos.
Ainda não chegaste, por isso o mundo ainda não te atingiu, não foste tocada pela dormência do consumismo, da falsidade, da intransigência e da desinformação informada. A falta de moral e de compaixão, a vaidade e o egocentrismo ainda não estenderam a pata negra e vil na tua direcção. 
Vai acontecer. Acontece sempre. É a realidade... Podem tentar, podem, conseguir é que eu duvido.

Deixa que me apresente: Eu sou a avó D. Sou mãe da tua mãe.
Adorei-te desde o momento em que soube que do zigoto se fez gente pelo milagre do amor.
Estas coisas do amor são difíceis de explicar, mas garanto-te que a tua mãe e o teu pai se querem tanto bem, que decidiram criar a mais bela extensão que pode existir desse bem-querer e que essa criação és tu, minha flor.

Confesso que no princípio queria um neto homem. Não fiques triste, porque é uma daquelas excentricidades de pessoa antiga, de que falei acima. Sabes, esta tua avó teve duas filhas, duas meninas lindas, não tão lindas como tu, mas bonitinhas, vá. Gostava de ter um neto homem, para o ver crescer a ensinar a marcar golos, como o pai, ou a deslumbrar os alunos com a sua beleza e oratória, como a mãe, mas principalmente para lhe transmitir os meus valores de velha avó sobre as coisas da vida, para lhe ensinar que os olhos nem sempre vêm o essencial e que as mulheres são a oitava maravilha do mundo e que como tal devem ser tratadas. 
Há uma regra fundamental que faz funcionar o universo : Mãe é a palavra sagrada, o ventre que gera, a fonte da vida.
Todos somos filhos do cálice da concepção e como tal ligados no nascimento pela dor e pelo sangue. Sofremos igual, não precisamos infligir mais sofrimento.

Tu, quando te juntares a nós, já trarás toda esta informação gravada no teu ADN; é assim com as mulheres, sabemos as coisas que ninguém nos ensinou porque somos tão especiais,  mas a tua Mãe, a tua  avó D,  a tua avó M e a tua bisavó I tratarão de te ensinar a aplicar bem toda a sabedoria feminina  que  o teu genoma traz na bagagem.

Pronto, pronto, não bocejes mais, que termino azinha, piquena apressada! Eu sou muito teimosa, muito mesmo. Chata também, e refilona, e mandona, e barulhenta... mas no fundo sou mole como o mel e doce como uma nuvem grande e fofa, que está lá no alto, sempre vigilante. Tenho dois braços em concha e um colo grande; sempre que precisares de aconchego, a avó está aqui para ti, desde o primeiro segundo até à eternidade.

Quero também informar-te que te vou estragar com mimos, mas suspeito que já sabes. As mulheres tem um faro especial para estas coisas.


"A única forma de chegar ao impossível, é acreditar que é possível."
Lewis Carroll


Acredita, Alice, acredita sempre, minha princesa!


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Guerra em Paz

"Da escola de guerra da vida - o que não me mata, fortalece-me."  
Nietzsche



"Os que ignoram as condições geográficas - montanhas e florestas - desfiladeiros perigosos, pântanos e lamaçais - não podem conduzir a marcha de um exército."
"O verdadeiro método, quando se tem homens sob as nossas ordens, consiste em utilizar o avaro e o tolo, o sábio e o corajoso, e em dar a cada um a responsabilidade adequada."

Sun Tzu






Hoje é dia de desenterrar o machado que tão laboriosamente pus em repouso sob os tradicionais sete palmos, a que o meu esquecimento o tentou votar.
Não que conseguisse olvidar, porque, digam o que disserem não é de todo possível.
Nem pondo um oceano de separação entre nós e o objecto da nossa devoção, conseguimos tirá-lo do pensamento, porque, como um filho que não foi desejado mas aconteceu, traz-nos constantemente prenhe de cuidados e emoções, mesmo quando pensamos que conseguimos cortar o cordão que nos amarra, que cria esta simbiose, esta relação amor-ódio, esta dependência que não nasceu connosco mas que nos alterou o genoma como uma tatuagem indelével.

Hoje é dia de voltar para a Guerra. Cheirar o campo de batalha, o sabor almiscarado da azáfama, o odor da babel de muitas vozes, o som dos perfumes inebriantes e agridoces que me aguçam os sentidos, me despertam e me fortalecem a decisão.

Hoje é dia de voltar a alfombrar a armadura que me proteje e me couraça contra intempéries e investidas.
A Minha Guerra vive, respira, tem pulsação própria com uma cadência muito peculiar que qualquer sismógrafo detectaria como o embate violento de placas tectónicas a grande profundidade, cuja onda de choque mal se sente à superfície, mas permanece num constante latejar, como numa ferida aberta e palpitante.

Hoje é dia de voltar. Sofro por antecipação. Rejubilo também. Vou voltar a entrar em mim e deixar de sentir a letargia da dormência que me assaltou e amoleceu. Vou para a Guerra fraca de gana, mas plena em determinação.Vou em paz.


                                  

sábado, 6 de setembro de 2014

Na Fábula, para me perder e te encontrar.

"Todas as paixões passam e se apagam, excepto as mais antigas, aquelas da infância."

Cesare Pavese




"Em Veneza há três lugares mágicos e secretos: um, na Calle Dell'Amor Degli Amici, o segundo junto da ponte delle Maravegie, o terceiro na Calle Dei Marrani, perto de San Geremia, no velho gueto. Quando os venezianos se cansam das autoridades, dirigem-se a estes três lugares secretos e, abrindo as portas ao fundo desses pátios, partem para sempre para países fantásticos e outras histórias."


Hugo Pratt in "Corto Maltese - Fábula de Veneza"








Conheço-te desde sempre.
Contigo chorei e ri, senti ódios e paixões, conheci lugares e tempos estranhos, gente ainda mais bizarra, viajei por todos os mares em exóticas embarcações, enfrentando todos os perigos, sem medo e com a bravata que a inocência dos 12 anos traz fresca na guelra, como um narval turbulento e irrequieto, formidável e inconformado, mas tímido e enamorado.

Cresci contigo sempre presente.
Toquei-te, folheei-te, li e reli páginas e páginas, em preto e branco, em cores, em êxtase, sempre debaixo do teu encantamento mestiço, que me tomou de amores, como um vendaval de emoções e sensações que antes nunca sentira.

Foste o meu primeiro amor.
Imaginei e acariciei o meu primeiro beijo,  com o sabor à maresia e o cheiro ao sal da tua pele tisnada, rasgada por dois lagos claros e límpidos onde mergulhei e me perdi.

Os anos levam-nos a candura, trazem responsabilidades e a realidade vai amadurecendo as ideias e esbatendo os sonhos.

O ocaso aproxima-se- Penso em ti. Procuro-te nas sombras , nas pedras, em cada ola, em cada vaga, em cada reflexo de prata na lagoa. 
Sei que não vou ter medo, porque tu estarás lá, irónico, despreocupado, com a mesma magia e sedução  que me derreteu a alma. Contigo vou sem receio para onde me levares: às profundezas mais negras das fossas marítimas, aos mais altos e alvos picos, a heteróclitos céus  ou aos insignes infernos . Contigo partirei.


Encontrei-te







































































Jamais alguém conseguiu esquecer o primeiro amor.


                                

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Viver a Fábula - Parte 5 - Navegamos ?

"As paixões são como ventanias que enfunam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveria viagens nem aventuras nem novas descobertas."
Voltaire



Eu hontem passei o dia 
Ouvindo o que o mar dizia. 
Chorámos, rimos, cantámos. 
Fallou-me do seu destino, 
Do seu fado... 
Depois, para se alegrar, 
Ergueu-se, e bailando, e rindo, 
Poz-se a cantar 
Um canto molhádo e lindo. 


António Botto


Não nasci com costela de mareante.

Adoro o mar, a sua força, a sua cor, a sua beleza, a bipolaridade do seu carácter, o embalo do seu marulhar... O sal, as marés e as maresias são filhos adoptivos do meu código genético e coabitam pacificamente com os restantes segmentos do meu genoma.

Adolescente, larguei amarras de Lisboa na véspera de completar 16 primaveras, a bordo de um navio de cruzeiro com destino a Southampton. Nessa noite vivi mil vidas e morri mil mortes.
A meio do Golfo de Viscaya, uma inesperada  e violenta tempestade jogou o paquete como a pequena bola prateada de uma máquina de flippers e abriu de par em par as portas do Inferno a todas as personificações marítimas do medo.
Diz-se que o terror pode ser belo; é a mais pura das verdades. O negrume das vagas pontuadas por alvos picos como lâminas de prata contrastava com um céu antracite-arroxeado, rasgado incessantemente por raios que bailavam ao som violento do ribombar e da chuva que fustigava violentamente  a embarcação. O pesadelo durou infinitamente e, num instante, como num passe de magia,  um brilhante e radioso sol nascente saúda-nos, risonho e límpido, como se nada se tivesse passado.

A minha relação com barcos, até então aventureira, sinbadesca e sonhadora,  nunca mais foi a mesma. Até o ronhoso cacilheiro me dá calafrios.

Mas alturas há em que we have to do what we have to do, e pronto.
Ao som duma voz forte que interpretava muito convenientemente "Volare", partimos à descoberta do mar, numa verdadeira casca de noz.

As ondas saudaram a minha decisão, resolvemos as nossas diferenças e ficámos em paz, o mar e eu.


Navegar é preciso...
























                                

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Viver a Fábula - Parte 4 - Reencontramo -nos

"É a cidade dos espelhos, a cidade das miragens, ao mesmo tempo sólido e líquido, em vez de ar e pedra."
Erica Jong



"Toda vez que eu descrever uma cidade,
 estou dizendo algo sobre Veneza- disse Marco Polo"

Italo Calvino



Desponta o sol e as águas conferem às pedras milenares cores  alegres com formas dançantes, que oscilam com os movimentos das ondas e o ritmo das marés.

Ouves murmúrios, sussuros doces, suaves sibilos... Encostas o ouvido à boca... as pedras falam-te baixinho, cada uma conta uma história e todas as histórias erguem construções sólidas, maravilhosas memórias de pedra, naquela ilha da lagoa , morada de espelhos, exploradores, aventureiros e mar.

Reencontramo-nos na solidez ampla onde desemboca o labirinto de sombras e vielas estreitas , teias mágicas, dédalos de sedução. 
O bater de muitas asas escurece a luz e os pombos chegam às dezenas, saúdam-te e escarnecem da tua pequenez, perante a grandiosidade que te rodeia.

Sorris e avanças à descoberta, também tu te aventuras no conhecimento, sem receio do desconhecido.

E quando o sol se vai, a luz ganha o brilho do mistério e do amor, daquele amor de perdição.