quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Abanhada ...


Olho do alto o gêlo, ao gêlo me arremesso...  
                 Tombei... 
         E fico só esmagado sobre mim!...


E eu que sou o rei de toda esta incoerência, 
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la 
E giro até partir... Mas tudo me resvala 
Em bruma e sonolência.
Alteio-me na côr à fôrça de quebranto, 
Estendo os braços de alma - e nem um espasmo venço!... 
Peneiro-me na sombra - em nada me condenso... 
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

( Mário de Sá Carneiro)





Não há noticiário nem jornal, revista cor de rosa ou página da internet que não fale dos célebres banhos gelados, em que todos os que se crêem de importância neste mundo se desafiam mutuamente  a  despejar baldes de água gelada pela cabeça ( o premiado Ice Bucket Challenge) em nome de uma causa meritória desse sacrifício de proporções bíblicas e que é  a angariação de fundos para a ONG que combate a Esclerose Lateral Amiotrófica.
É assim que os Who's Who têm arranjado tema de conversa e alguma acção sem paralelo, que os guie na travessia da Silly Season.
É normalíssimo que depois de o ex basebolista Peter Frates, (diagnosticado com a doença em 2012) ter começado a campanha com um vídeo gone viral no You Tube, todos o tenham seguido, quanto mais não seja para terem o seu próprio vídeo no You Tube, mas desta vez ligado a uma causa humanitária, tal qual o fazem  os seus ídolos.
Digamos que é a moda das Selfies, mas desta vez com gelo, shaken but not stirred.

Eu, que tanto balde de água fria já levei nesta vida, e que na minha OCD me reconheço a IBM ( Ice Bucket Master) de todos os tempos, pasmo em como não tive dois dedos de testa para me lembrar de começar eu própria semelhante movimento de massas !

 Os meus 15 minutos de fama seriam exponencialmente elevados à estratosfera, tornava-me entendida em baldadas, com vídeos virais e frases motivadoras e quiçá o meu próprio programa de TV, qualquer coisa do género Portugal On Ice, a minha presença seria o ponto alto em toda a notícia escrita, filmada ou difundida pelas frequências de qualquer rádio profissional ou amadora...

Mas não, não houve Veni Vidi Vinci... Terei que resumir-me à minha falta de visão e ao pardacentismo que me é tão característico. Nunca poderei ser desafiada pelo CR7 ou pela Jennifer Lopez ( my role model...), nada...zero... finito.

Irei carpir as minhas mágoas elsewhere e voltarei por aqui a partir do início de Setembro... quem sabe ver outras caras, outras pessoas, outras paragens, não mitigue a dor e o sofrimento de não ter sido eu a special one.

A riveder le amici miei

So Long


           

sábado, 16 de agosto de 2014

Solace

Cansa sentir quando se pensa.  No ar da

 noite a madrugar . 

Há uma solidão imensa . Que tem por 

corpo o frio do ar.

Fernando pessoa



A noite trocou-me os sonhos e as mãos 
dispersou-me os amigos 
tenho o coração confundido e a rua é estreita[...]
[...]Sou um funcionário apagado 
um funcionário triste 
a minha alma não acompanha a minha mão

António Ramos Rosa





Já não há cavernas nem buracos no chão.
Não há gente enclausurada que analisa o mundo através de sombras projectadas por uma fogueira, na solidão imensa duma caverna escura e silenciosa.

As pessoas vivem enclausuradas dentro de si próprias. É imperativo fecharem-se, isolarem-se do que as rodeia, se mentalmente lúcidas, ambicionarem manter a sanidade e encontrar alguma paz.

Vive-se à mercê de um cata-vento enferrujado, que gira ruidosamente sem quietude nem trégua, a uma velocidade assustadora, vertiginosa, fulminante, que nos arremete contra nós próprios com uma violência inaudita e aterradora.

Abre-se a janela a mais um dia, e a histeria e a loucura colectiva que se colam à pele das gentes em forma de calor e cheiro a mar e transpiração, entram de sopetão e atordoam como bombas de vogais e consoantes ásperas, rudes e de sílabas mal colocadas, que rebentam sem lógica nem ordem por todo o lado, num espaço onde o tempo teima em não passar, e  o vislumbre de uma caverna ou um buraco no chão onde o efeito da onda de choque possa ser mitigado é apenas mais uma miragem, ou o delírio duma mente torturada.

A luta é interminável e desesperante, principalmente aquela que se desenrola dentro de nós e nos transforma em coisas, em bichos, em seres sem qualquer razoabilidade,  actores secundários de  um genérico, numa  série de ficção de quinta categoria, que de tão eclético é totalmente incompreendido.


                                   

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

The Big Sleep






And then came the Big Sleep



[...] Nesta curva tão terna e lancinante 


que vai ser que já é o teu desaparecimento 


digo-te adeus 


e como um adolescente 


tropeço de ternura 

por ti. 

Alexandre O'Neill





                                                                  Lauren Bacall 1924-2014





Vivian: You've forgotten one thing. Me.
Marlowe:What's wrong with you?
Vivian: Nothing you can't fix.






                                    




Acabei de saber que perdemos também Emídio Rangel, um dos grandes nomes do jornalismo nacional.. tanto na rádio como na TV. De Angola a Portugal, da SIC à RTP, da Comercial à TSF, a sua passagem marcou a informação nacional de um modo isento e positivo.
Este Agosto de 2014 parece determinado a varrer com o vento forte que trouxe,  muita gente boa que marcou uma era e se elevou pela sua acção positiva e galvanizante, acima da vulgaridade que grassa como uma erva daninha que não se consegue exterminar.

Estou a tornar-me numa redactora de obituários e isso é tétrico e negativo, confere-me a aura pardacenta de uma pessoa lugúbre, tenebrosa, cabalística e carpideira.

Nestes tempos conturbados em que nada tem valor, se não chorarmos os valorosos, o que dirá isso mesmo de nós próprios aos do porvir?



                        Emídio Rangel  1947-2014


Apalaudamos a sua vida

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Génio

"Não há regras. Apenas siga o seu coração"         Robin Williams



"Carpe diem. Aproveitem o dia, rapazes. Tornem as vossas vidas  extraordinárias."

( in O Clube dos Poetas Mortos)







Corria o ano de 1993.
A filha mais velha estava a dar os primeiros passos na introdução a uma língua estrangeira, neste caso o inglês. Foi algo que a cativou desde as primeiras aulas e era interessada e incrivelmente bem falante no que tocava a pronúncia.
Em 1993, diferentemente ao que "no meu tempo" se praticava, o Inglês ministrado a nível primário e até secundário, era bastante básico. Os livros eram muito infantis e, no meu parecer, as crianças aprendiam as coisas numa ordem inversa, quando o que interessava mesmo era aprender a comunicar o melhor possível. 
Claro que tínhamos a Buchholz e outras livrarias onde se podiam adquirir livros originais, mas aqui por casa o tempo nunca foi um bem de que se pudesse dispor, nem para apoiar os filhos convenientemente.
Também por esses tempos, estava o Mano colocado na NATO AWACS em Geilenkirchen, perto de Colónia, na Alemanha.
Sendo a base de Geilenkirchen uma base da NATO, o staff era maioritariamente composto por elementos da força aérea americana, sendo a base em si uma pequena cidade dentro da cidadezinha onde estava situada.
Numa das minhas visitas, e porque tinha um aparelho de VHS que lia cassetes em  NTSC, trouxe o acabadíssimo de lançar Aladdin da Disney, o primeiro filme em que quem dava voz aos personagens eram conhecidos actores e actrizes da sétima arte.
O filme foi o primeiro de muitos que adquiri sem legendas nem dobragens em que fossem usados termos que não eram falados em Portugal.
Qualquer uma das minhas filhas pode , em qualquer momento que se lhe peça, recitar de cor o filme que marcou o seu contacto directo com o inglês americano, que não sendo a língua pura, era falado por milhões tal como era falado no filme, diferentemente do que era impingido nas escolas.
Cresceram com o Aladdin e os seus personagens irreverentes e músicas alegres.
Cresceram a ouvir o Génio da garrafa conceder três desejos ao rapazinho da rua, que no fim alcança o seu sonho, não por qualquer passe de mágica, mas  pela sua tenacidade, valentia e honradez, e, altruísta,  usa o último desejo, não em proveito próprio, mas para dar liberdade àquele louco azul, ao fala-barato que nos levou às lágrimas e no fim nos envolveu num terno abraço.
Quem viu Weapons of Self Destruction , chorou como louco e riu como doido,  compreende agora o homem que se escondia por detrás do génio.


Todos os dias , milhares de pessoas tocam a nossa vida duma forma positiva, sem nós de tal nos apercebermos. Podemos considerar-nos uns privilegiados por os nossos caminhos, de algum modo, se terem cruzado.

Até sempre, génio genial, ovaciono de pé


                 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Mais um ano...

"Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece."
Kafka





Os Velhos São os Verdadeiros Rebeldes

Os velhos são os verdadeiros rebeldes. Os jovens, por muiro rasgados que estejam os blusões de cabedal, querem sempre conformar-se com qualquer coisa. Querem fazer parte dum movimento. Querem fazer parte de uma revolução ou de uma comunidade. Os velhos só querem fazer partes. De preferência gagas. Os velhos não têm nada a perder. Podem dizer e fazer o que lhes apetece. É por isso que os velhos, mais do que os novos, dizem quase sempre a verdade. Nós é que podemos não querer ouvi-la. Há-de reparar-se que aquilo que os velhos dizem é que «a vida é uma chatice». Nós dizemos que eles estão senis. Mas eles é que têm razão. 

MEC










Domingo volta o dia dia D.

Gosto deste regresso, é sinal que estou viva e isto é bom.
Desgosta-me este regresso, porque a minha 3ª melhor amiga, a idade, volta para mais uma  visita, para me fazer ter sempre presente que retornará, ano após ano. Assim não tenho como relativizar as coisas e pensar que tenho dezoito anos e estou aí para as curvas, porque dentro da casa forte, com todos os estragos provocados por altas temperaturas, inundações, radiações e choques eléctricos, ainda existem alguns neurónios funcionais que, talvez pela fraca exposição aos raios UV, se apresentam sem as rugas que a minha 3ª melhor amiga  me ofereceu de presente para adornar outras parte do corpo... infelizmente são daqueles presentes que não podemos recusar nem esconder numa gaveta. Há que aceitar a minha condição vintage e envergá-la com toda a dignidade que a conformação, o bom senso e o bom humor desencantarem no baú dos anos.

Depois, Domingo, o Dia D é só dia D para mim. É dia de Dedicação ao trabalho e ir até à Minha Guerra, fazer o que sei fazer melhor há uma catervada de anos.
É dia de Dedicação à família, que por sinal está de férias, por aí à aventura em parte incerta.
É sobretudo dia de Dedicação à D... mas aí já pia mais fino, porque anseio que me Dediquem um passeio ao Santini, à Nosolo Itália, aos prazeres de Campo de Ourique e não é de bom tom para quem vai de férias daqui a algumas semanas e não quer pagar excesso de bagagem nem provocar enchentes na Ria de Alvor.

Não tenho medo de envelhecer. Nem vergonha. Fui criança e adolescente com tudo a se tem direito nessas idades, passadas no tempo da outra senhora, por isso, sempre com pouca margem de manobra, mas uma saudade imensa das manobras que fazia para a conseguir.
 Sempre fui um pessoa correta, liberal nas suas convicções, sei o que gosto e o que quero, nem sempre sei o que digo, quando deixo a minha oratória inflamar-me a razão, mas sou terra a terra, muito irónica e demasiado pragmática para o meu gosto. 
Aqui," what you see is whst you get ". As camadas de gordura só têm a finalidade de assustar os incautos e aquecer no inverno, porque por debaixo está um coração de manteiga, mas congelada, porque não se derrete assim com duas cantigas.




                                        

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O País já está a arder ?

"É melhor um pequeno fogo para nos aquecer do que um grande fogo para nos queimar."
Thomas Fuller


25 de Agosto de 1944. No seu Quartel-General, Hitler, desesperado com as notícias da entrada dos aliados em Paris, enfurece-se e clama que quer ver Paris arrasada, feita "um campo de ruínas". Pergunta, na sua voz rouca:
- Jodl, Paris está a arder?
Um súbito silêncio invade o "bunker". Warlimont observa à sua volta os rostos petrificados dos outros generais.
- Jodl - insiste Hitler desferindo um murro sobre a secretária -, quero que me responda: Paris está ou não está a arder? "




Com o verão chega o calor, a secura, a inércia e o fogo.

Assim que o calor desponta, eclodem também focos de incêndio  de norte a sul, deixando o rectângulo português praticamente delineado  em alertas laranja.

Já não é estranho, nem surpreendente, nem sequer inaudito. O País está em alerta laranja desde 2011, vindo dum desastroso alerta vermelho claro, sequência de vários procedimentos inconsequentes em patchwork multicolor,  que se desenrolaram nas ultimas décadas do século passado e foram herdadas pelo novíssimo e promissor século XXI.

Perguntar se o País está a arder é uma ironia e um pleonasmo. É o mesmo que perguntar se está a chover no molhado ou a esbrasear o queimado.

Digamos que é  como falar de Dimas, o Bom e Simas , o Mau.

Eram ambos ladrões.

"Ah, é ladrão, mas é boa pessoa, o Dimas"... Ou " O ladrão do Simas é mau como as cobras"

Ficaste literalmente de tanga, mas ainda assim fazes juízos de valor...assaltaram-te e roubaram-te tudo, pelo amor da santa ! Só porque um te deu um estalo e o outro te sorriu enquanto te ia ao bolso, tornaste-te imediatamente mais tolerante...

Afinal o que é que define um ladrão? Será o  carácter ou a arte?
No Livro do Êxodo, onde estão enumerados os Dez Mandamentos da lei de Deus, a " não roubarás" foi atribuído o número 8 . Estou em crer que foi muito bem pensado pelo criador, esta atribuição numérica, pois sendo o oito o número que simboliza o infinito, o oitavo mandamento fica assim aberto a uma miríade de interpretações e uma infinidade de pressupostos.
Isto tudo a juntar às mil e uma paráfrases que do provérbio " ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão" se podem conjecturar.

E o rebanho continua a pastar, com os cães a rondar e ladrar-lhe às canelas, mas serena e tranquilamente, como se o alerta de fogo fosse apenas mais um, coisa sem importância, banal... 

O País já está a arder, não é a pergunta que se impõe. Creio que o importante é saber se no meio das cinzas do restolho queimado na terra árida de muitos fogos, ainda poderá germinar a semente da incerteza, uma débil raiz que poderá vingar num futuro distante se a quimera da incompetência der lugar a realidade.
Porque certezas, disso já não há faz muito tempo, foram extintas como os dinossauros e nem foi preciso aquilo do meteoro...

Para além disto pouco mais há para dizer.