sábado, 31 de maio de 2014

Linhas Tortas

"Mas a realidade é esta: não temos um projecto de país. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. As pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto. "

José Saramago



Um País de Canalhas

"Pensar Portugal. Nós somos um país de «elites», de indivíduos isolados que de repente se põem a ser gente.
 Nós somos um país de «heróis» à Carlyle, de excepções, de singularidades,
 que têm tomado às costas o fardo da nossa história.
 Nós não temos sequer núcleos de grandes homens."

Vergílio Ferreira





Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta sim o que poderás fazer pelo teu país e obterás resposta igual para ambas as perguntas : nada.
Não esperes nada do teu País pois ele já nada tem para te dar.
Deu-te um berço, uma língua,  uma identidade, a noção de pertença a algo grandioso que transcende éticas individuais. Deu-te a vã  glória de integrares a história e as histórias daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando. Deu-te liberdade e democracia. Deu-te valor.

E tu retribuíste, com o teu percurso de inclusão social, com a tua aprendizagem , com o teu estudo, a tua qualificação,  o teu trabalho, com o teu suor , até com as tuas lágrimas. É chavão, é cliché, é legítimo.

Poderia dizer-se que se igualaram no dar e no receber, não fora a oligarquia que escolheste para te guiar e formular as leis que regem cada minuto do teu dia ditar cada vez mais e o ditado ser cada vez mais draconiano e os mandos dos ditantes cada vez mais ditadores.

Olhas em volta e num hemiciclo de eleitos, não encontras um rosto que exprima rectidão, experiência, solução... tampouco honestidade cívica. Cada palavra é subliminar, repleta de sinónimos que são  hiperónimos , hipónimos que são parónimos, antónimos que são homónimos.

E tu olhas mas não vês, escutas mas não ouves, tocas mas não agarras, falas e nada dizes, porque te perdeste dos sentidos e já não consegues sentir mais nada. Até o desespero ou  a raiva já se conformaram e segues com o rebanho, sem pastor nem pastagem, sem bússola nem compasso, indiferente aos pontos cardeais, porque afinal o que és tu senão mais um ponto colateral perdido nestas linhas tortas que ninguém sabe endireitar.





               

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Asas

"Disse a flor para o pequeno príncipe: é preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas." 

Antoine de Saint-Exupéry


Gosto da Noite imensa, triste, preta, 
Como esta estranha e doida borboleta 
   Que eu sinto sempre a voltejar em mim! ... 

Florbela Espanca








Quem nunca sonhou ser belo ? 

A beleza não é essencial à vista, diz o escritor, mas também é certo que o povo é sábio quando afirma que os olhos também comem... aliás as primeiras impressões, nem sempre são as mais correctas , mas são as que se encontram em primeiro lugar no pódium das considerações que tecemos durante a fugaz lonjura dos dias da nossas vidas.
Os teóricos do caos falam do efeito borboleta como o princípio de um encandear de situações que poderá levar à aniquilação total e de como a  fragilidade de uma simples variável adaptada a sistemas dinâmicos e complexos pode influenciar as não-linearidades do conhecimento.
Eu falo do efeito borboleta num constante procurar pela exaltação do sublime, numa transformação do grotesco no belo, na apoteose da leve magnificência de um ser efémero que só deixa a suave marca da sua infinita beleza,  num mimetismo polifórmico num mar flutuante de cor.
Qualquer um é a lagarta que tece o casulo e se resguarda , que espera pacientemente na crisálida que da pupa  aconteça o imago, que aguarda resignadamente a lenta metamorfose, para num apoteótico clímax de fascínio, mostrar ao mundo o  encanto e a majestade em todo o seu esplendor.
É com borboletas no estômago e alegria na alma que nos deslumbramos com a grandiosidade do frágil encanto. Prende-se-nos o olhar e a respiração, sentimo-nos sufocar e deixamo-nos ir,  desvanecendo com os sentidos, enquanto uma voz do fundo dos tempos nos ecoa e aturde, como um alfinete embebido em éter " Quid pro quo, Clarice, quid pro quo".






                                       

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Madrugada


"A primeira hora da manhã é o leme do dia."
Harriet Beecher-Stowe






Em tudo que alvorece há um sorriso d'esperança, 
          Candura imaculada!... 
E quer seja na flor, quer seja na criança 
          Sente-se a madrugada. 


Guerra junqueiro





   (Foto de MD Roque- Da janela da minha Valhalla do sono , no meu Carelo no ar)


O meu quarto está virado para nascente e o bichinho laborioso que habita o meu ADN todos os dias à mesma hora me faz abrir os olhos e esperar pelo sol. 
O meu sol não nasce no esplendor de mares ou montanhas . Rompe tímido, gota a gota, um pequeno raio aqui, outro mais ali, iluminando fracamente as silhuetas escuras dos telhados e imprimindo ao céu tonalidades de contos de fadas. É um ritual prodigioso,  saudar a luz, ver o negro tornar-se cinzento, o cinzento cor de rosa fogo e por fim o astro-rei despontar em toda a sua plenitude espalhando milhões de diamantes de cor ao seu redor.
Depois de noites escuras passadas em viagens de barco, de comboio, em zeppelins prateados, sempre em  correrias, em aflições, em lutas e apertos,  à conversas com conhecidos, desconhecidos e imaginados, deitada em repouso  nos vinte metros  quadrados do meu pequeno salão dos mortos de sono nesta Asgard do meu castelo no ar, ver a luz no fulgor máximo do permanente renascer da claridade, é um privilégio.
São diferentes os dias em que o sol se despe e se mostra limpo e dourado contra o azul intenso dum céu sem nuvens. Podem ser dias como todos os outros, mas os tons brilhantes que a luz áurea transforma em cor radiante, transformam também tristes despertares e sombrias melancolias torturadas em arremedos de sorrisos risonhos.
O nascimento é o princípio. O nascimento do sol, recorrente de uma beleza sempre diferente e diariamente igual e justa, confirma a crença da humanidade na luz que a ilumina , lhe mostra o caminho e lhe dá o saber, assevera que para lá de todas as diferenças temos uma convicção comum : adoramos o sol porque  somos todos iguais sob a sua luz.



                                 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Fonte

"Leva muito tempo tornarmo-nos jovens."  Pablo Picasso




Estar Assim, Assente na Saudade

Estar assim, assente na saudade, 
com todo o peso repousando em si, 
a prende à luz da sua antiguidade 
parando na de aqui. 


Fernando Echevarría










Estou cansada e o desalento começa a apoderar-se insidiosamente do pensamento, minando o alicerce inabalável onde fundamento as minhas convicções.
 Depois de tantos milénios de buscas incessantes, de estudo e investigação, de leituras de tábuas, papiros,  livros, cartas, clipping até... compilando apontamentos ditos pistas, escrevinhados em tudo em que letra pudesse prantar, ordenando febrilmente  por uma ordem de importância e cronologia vital e codificada,  que pulsava como um coração latejante e me falava e me convencia que sim , que era agora, que estava quase, que iria ser bem sucedida , que o mundo iria ouvir falar de mim e do feito que consagraria à humanidade.
Tantos anos em que sob o pretexto da busca pelo conhecimento supremo, segui safaris exploratórios,pelo ar,  sobre a terra e sobre o mar, Batesda, Al- Khadir, terras de Prestes João, Artico junto ao círculo Polar, banhando-me em poços de géisers vulcânicos, mornos e sensuais no toque, veludo macio sobre minha pele encarquilhada que adquiria um tom precioso de esmeralda sob aquele luar mandingador de sedução.
Muitas vezes disfarçada, outras tantas escondida, a maior parte  vendendo o que tinha e o que não tinha para poder financiar e  acompanhar as  campanhas, vigorosa, corajosa, enfraquecida, ansiosa, febril, feita ruina numa enxerga imunda onde só vultos e ruídos sem nexo me recordavam de mim...
Mas desta vez foi diferente em Bimini. De Leon estava certo, era ali.
Fui pela calada da noite, como um animal de presa,  com um fino estilete cruamente dissimulado junto ao peito. O homem que montava guarda dormia, mas insana e ansiosa, não quis arriscar. Senti o sangue quente borrifar-me nos olhos e escorrer-me viscoso pela face ardente, mas nem a ignomínia me parou. A fonte estava ali à vista, cristalina e borbulhante e eu bebi e bebi quase até rebentar. Passei água no rosto e no corpo e vi a pele tornar-se alva e acetinada. O meu reflexo no espelho de água clara era maravilhoso, era o eu que fui e que pensava perdido para sempre ... Finalmente conseguira! 
A exultação de ter mergulhado na alegria da felicidade e parado o tempo,  não me deixou realizar que afinal Cronos dera uns passos atrás e que, divertido, ria da minha catastrófica regressão. O tempo não parara para mim, só regredira e tão intensa e rapidamente como  sede  eu tinha de juventude.
O meu ser corpóreo desvanecera-se na involução e ali estava eu, uma incrédula intenção de algo ou alguém sem vida, consciente de si , mas encarcerada num limbo imutável para toda a eternidade.




                           

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Da Cor Negra

"Embrulho-me em tudo isto como uma capa no frio"

 Alvaro de Campos





Capas negras de estudante,
São como asas de andorinha
Enquanto dura o Verão.
Palpitam sonhos distantes,
Alinhados nos beirais
No palácio da ilusão.

( Popular)






Hoje

Como há 11 anos atrás 


...e sempre

















Diz-se que o negro é a ausência total de luz.
Diz-se que a luz é a fonte de todo o conhecimento.
Diz-se que o conhecimento não ocupa espaço no tempo.
Diz-se que o tempo e o espaço caminham de mãos dadas como gémeos siameses inseparáveis, indissociáveis, intrínsecos.
Diz-se que o tempo e o conhecimento rasgam infinitos,  oceanos, tempestades, rochas e glaciares e fazem desabrochar metáforas, sementes de génio que formam pensamentos, caracteres , personalidades, que dão animo e alma ao invólucro breve e perecível  que embraça o ser consciente.
Diz-se que a criatura consciente é luminosa, pequena, dependente, hesitante , um grão de poeira, um gâmeta fecundado em branco, aberto como esponja ressequida a todo o conhecimento que sorverá sequiosa, sempre, mais e mais.
Diz-se que mais é bom, diversifica, estimula, faz crescer.
Diz-se que o crescimento acontece, lento e faseado para alguns, como um brilho dum raio, para outros e outros há, os mais felizes ou mais desventurados, que nunca chegam a crescer, a saber o saber de quem realmente é douto e sábio nestas coisas da sabedoria.
Diz-se que há alturas na vida em que o negro é luminoso e alegre, que projecta a fibra, que é apanágio de circunstância, daquele micro átomo de glória que celebra e coroa o triunfo da abnegação, do trabalho árduo e do alcançar de objectivos, metas de luz negra, que como asas ao vento pontuadas de cores , tiras alegres em farrapos de júbilo incontido, enchem o espaço e a alma da alegria da profunda satisfação duma etapa ganha, dum dever cumprido.
Diz-se que o breu que os traja é o indício do começo, da busca continuada  da luz do saber que guiará todos os os seus passos em cada encruzilhada tortuosa e escura da sua existência.



                              

( Capas Negras, 1947)

domingo, 11 de maio de 2014

Tecelão

"Os nossos actos só aparentemente são efémeros. Por vezes, as suas repercussões perduram por séculos. A vida do presente tece a do futuro." 

G. P. Bona




[...]O que do futuro ignoro é 
maior que o tempo que vivo, 
é palavra de cega língua, em 
mim calada por jamais lida. 
A vida é a voz, a que tece e 
resgata, a que rende e cerca 
— ardil da névoa, objecto 
oco da memória. 

Orlando Neves










As agulhas clicam insistentes, imparáveis. Um ponto rendilhado, duas malhas, uma laçada.
Uma carreira e logo a seguir o ponto alto de todo o enredo cuidadosamente tecido pelas minhas mãos inquietas e laboriosas. 
Como uma Defarge jacobina, intrinco habilmente a mensagem que segue indelével, implícita, incógnita. 

Qual moira afadigada, meço enleio e teço  fios de vida, com pontos, nós e tamanhos diferentes e desiguais. Sigo um esquema milenar de que não abranjo a totalidade, mas cuja continuidade reside na destreza com que entrelaço linhas em padrões complexos, na presteza com que faço e desfaço até fazer o com que o que faço seja o feito que a todos nos aguarda e cujo fio condutor se prende à meada como um cordão umbilical que aguarda a lâmina afiada duma parca milenar.

As agulhas não sossegam nas minhas mãos rudes e cansadas de tecer as malhas, os pontos, os nós, os pontos sem nós, as laçadas, as carreiras... teias e teias de vida emaranhadas. Olho para a roda. A fortuna é caprichosa e ninguém a controla. Nem as sortes ou os acasos podem ter a veleidade de querer ditar os altos e baixos de todas as realidades, enquanto eu puder ser o tecelão do meu futuro.


                              

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Corpo Celeste

"Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela ? Põe-na lá "
Vergílio Ferreira




Mil Anos Há que Busco a Minha Estrela

Mil anos há que busco a minha estrela 
E os Fados dizem que ma têm guardada; 
Levantei-me de noite e madrugada, 
Por mais que madruguei, não pude vê-la. 


Francisco Rodrigues Lobo 








Na minha estrela há uma luz que brilha diferente. Gigantes azuis encandeiam sombras anãs vermelhas e fulgem intensa e pesadamente ... são tão crédulos da fugacidade da sua existência ... 
Pequenos corpos anões explodem em colossais supernovas de genialidade e maravilham a claridade com o seu prisma de cores caleidoscópicas e loucas. Pontuam no breu como velas, candeias brilhantes, ardentes clepsidras geladas de luz que marcam o compasso  dos milénios.

Na minha estrela há uma luz que sara, que aconchega, que afaga numa carícia áurea de caramelo como uma cefeida na nuvem de Magalhães, referência de caminhos e distâncias a percorrer.

Na minha estrela estou eu, inebriada de brilhos e cores, embalada pelo cintilar e pelo ardor intenso  que me acaricia a fantasia e a transporta em caudas de cometas empurrados por ventos de muitos sóis para reinos de névoas distantes em luz e em cor, vagando de constelação em constelação sempre em busca dos infinitos porquês da existência do infinito.

Na minha estrela estão os meus amores, que me sorriem todos os dias e me mostram o caminho para que eu possa escolher  atravessar os dias da vida com a mesma serenidade que um dia me elevará do buraco negro até à minha estrela.




                  

terça-feira, 6 de maio de 2014

Delirium

"E narro-me prolixamente sem sentido, como se um parvo estivesse com febre" 

Álvaro de Campos





[...]Hora em que os doentes de corpo e alma, 
Pedem ao Senhor para os sarar... 
Hora de febre e de calma, 
Hora em que morre o sol e nasce o luar... 
Hora em que os pinheiros pela encosta acima, 
São monges a rezar...[...]

Saúl Dias







Paris à noite, visto do topo da Torre Eiffel é magnífico, mas o calor atrofia a capacidade de inspirar profundamente tanta beleza. Olhei na direcção da estrela e debrucei-me para ver melhor. Sirius é sem dúvida a mais luminosa e o seu brilho enfeitiça-me e estico-me para a poder alcançar. " Deixa-te de ver estrelas e vamos embora" diz-me Napoleão puxando-me rudemente para trás " Amanhã falas com o Icaro e pedes-lhe que  te leve ao Canis Major, mas agora tens que entregar os lençóis de banho ao Marat, bem sabes que ele morre por uma boa ensaboadela".
Ao atravessarmos a Ponte Carlos carregados com sacos de papel da IKEA, comecei de novo com os acessos de tosse :" Respira fundo e devagar, que não é consumpção, que disso caiam em Eylau como tordos. É uma pulmoeira e as pulmoeiras passam, o Morengo teve umas quantas e ficou sempre fino. Bem que eu te avisei que é preferível um exército pela frente do que uma corrente de ar pelas costas, mas tu tinhas que mergulhar vestida no Mar do Norte em Maio à procura de Havfrues ... as mulheres e os calores... Bem sei que é a imaginação que nos governa, mas tu abusas..." 
Entregue o recado, ficou-se Napoleão pelo Deux Magots para explicar Guernica ao Sartre que tinha sérias questões sobre a existência do massacre. 
Ia já a meio das Ramblas, quase a chegar às Cibeles quando vislumbro a figura amorfa de Dupin e me volta a ideia de que tanto lhe vejo parecenças com o Paul Newman, como com o Dustin Hoffman, mas nem uma sequer com o George C. Scott. Apesar de chevalier, deslocava-se a pé, vagaroso e sorridente, a saborear a noite. Ficámos à conversa sobre nada em particular num banco sujo em Unter den Linden até os sinos de Marienplatz dobrarem doze vezes. O Glockenspiel continuava um poderoso marcador de vidas.
A Golda manda trancar o kibutzim cedo... velha danada de rija, vai fazer-me dormir ao relento outra vez.
Sem sono e a expelir ar aos solavancos, entrei para o ferry e tentei engolir o ar do Bósforo  às golfadas; era agridoce e prometia mil delícias... há quem diga que o ar do mar faz bem às tosses.  Hagia Sophia sorriu-me no escuro. Preparava-me para ali encontrar a aurora, quando um gladiador ordinário me fez levantar com a desculpa de que o Coliseu não é lugar para pedintes ou sem-abrigo, que fosse para o asilo por detrás do Castel Sant'Angelo... Tossi-lhe todos os impropérios do meu vocabulário e fui-me dali. Já estava cansada e a cidade deserta; Bernini aproveitava para tirar medidas à volta da basílica... ele e a ideia megalómana duma piazza monumental ... sinto-me prostrada e febril. Dou comigo em frente ao Hotel Lawrence e conto os trocos. Uma cama cheirosa , um chá quente e dois Ben U Rons... que mais pode uma mulher desejar para ser feliz ?




                                   

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Da Prima, a Vera...

"Não sabe o que sente dentro de si que a importuna de bem estar"

José Sobral de Almada Negreiros




Primavera

Ah! quem nos dera que isto, como outrora, 
Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera 
Que inda juntos pudéssemos agora 
Ver o desabrochar da primavera! 

Olavo Bilac








Um antigo provérbio judaico diz que devemos ter cuidado com o que desejamos, pois podem os nossos desejos ser atendidos. Eu , pessoa simples de espírito e fraca de ambições, ansiei pela Primavera, farta de frio, de chuva, de vento de cheiro a mofo, de dias tristes e cinzentos onde a luz era baça e o nevoeiro reinava sobre o despontar das auroras.
E o Universo, que tudo cria, que tudo vê na sua imensa sabedoria de entidade infinita, eixo de mundos, equilíbrio de toda a existência, dignou-se escutar a minha voz e constatando que até em termos de  espaço o tempo não para e que já há algum tempo deveria ser tempo de Primavera, enviou-a, detonando-a em toda a sua glória e esplendor para deleite de todos os seres vivos.

E então veio o sol, o calor e a luz afagar-nos o acordar com um sorriso, chegam as andorinhas, o divino chilrear do passaredo, as flores desabrocham, as abelhas afadigam-se de estame em estame, há musica nas cores que brilham e competem pela resplandecência , cheira a verde e a doce,  há alegria no ar e pó, muito pó.

E eu, pessoa simples de espírito e fraca de ambições, que ansiou ardentemente pela Primavera, de Primavera me encontro acometida, na imponência da minha cama, com o calor do sol dentro dos olhos feitos nascentes pedregosas de águas cristalinas, tossindo os pruridos transportados de flor em flor, ouvindo nos brônquios mil chilreados alegres, destilando alegremente alergias em gloriosas gotas nasais que recolho na alvura de sucessivos kleenex... Ardo em crepúsculos vermelhos,  delirando entre esternutações violentas com maçãs verdes, galopes de muitos cascos, homens robustos e bestas, sempre com a abertura da carga ligeira, martelando pesada na minha bigorna auditiva.
A Primavera que ansiei entrou em mim com a força dum tornado e tornou a minha existência miseravelmente  primaveril, mas eu pessoa simples de espírito e fraca de ambições, entre sufocantes e violentas expulsões de ar por um diafragma molestado e tenso, ainda anseio ser o dente de leão que a brisa do entardecer carrega levemente consigo, sem destino, como num sonho tranquilo.