segunda-feira, 28 de abril de 2014

Do Prazer do Som

"Descansa do som no silêncio, e do silêncio digna-te tornar ao som."
 Victor Segalen



Da Música

A musica derrama-se 
no corpo terroso 
da palavra. Inclina-se 
no mundo em mutação 
do poema. 

[...]

A música rompe um rio de lava 
por si mesmo criado. Lágrima 
endurecida 
onde cabem o mar 
e a morte.


Casimiro de Brito









É já depois de amanhã.
Depois de  quase 20 dias em travessia neste deserto repleto de gente, ruído, confusão, problemas, tristezas e alegrias, chega finalmente avalon. 
Eu sei que estou a ser precipitada, que estou a salivar por antecipação, que estou a criar demasiadas expectativas, mas pensar nesse porvir tão perto, tão alcançável, tão apetecível e precioso ,torna-me mais leve, mais alegre e bem disposta. 
Hoje ouvi música.
Oiço música todos os dias. As falas são música, os motores são música,  o tinir do vidro que choca levemente, os cliques dos obturadores que fecham e abrem... passos apressados são música, o som do vento que sopra, o cristal da água que corre, o crepitar do doce aroma  fervente, tudo é beleza, som e música... Leio música nas palavras e oiço palavras na música que folheio e que sigo religiosamente dia após dia.

Hoje ouvi a minha música, aquela que me fala aos sentidos e provoca sentimentos e que tomo como minha, porque me pertence, me preenche e me faz vibrar. Deixo o som invadir-me, elevar-me o espírito, tomar-me nos braços e falar-me de mansinho tudo aquilo que eu quero ouvir. Fecho os olhos , vejo o filme da minha vida a preto e branco, sinto o a luz refractar-se , cheiro a proximidade da cor que me cobre, como um bálsamo e expludo em lágrimas de cansaço e sorrisos de gratidão.
Mais poderoso que o som do silêncio, só o som da tua vida. 
É já depois de amanhã que soltarei  notas ao vento e inalarei profundamente os acordes que a luz do sol fará entrar por aquela fresta minúscula,  onde num rodopio  as claves tensas dedilharão cordas insanas e eu, esfomeada de mim, mergulharei no frenesim do prazer dos sons e  serei una outra vez.




                                

OMD- Souvenir

sábado, 26 de abril de 2014

Soledad...

"Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém – é a isto que é preciso chegar." 

Al Berto




[...]A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade.
 Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade.
 Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.[...]


Arthur Schopenhauer









Irrompem com a fúria da madrugada que se torna manhã,  vêm às catervas, aos  bandos,  dezenas,  centenas, milhares, turbas alacres  numa arrazoada  constante, numa babel de sons e tons, dialectos , cores e formas.
São a música de fundo da minha vida, a trilha sonora do filme no qual sou a actriz principal e eles, os actores secundários que todos os dias me invadem o olhar e o ouvir, são como anti-corpos  batalhadores,  travando constante e feroz combate contra o antígeno da calmaria, até o conseguirem erradicar por completo.
É neste mar revolto em ondas de caos organizado que passo os meus dias, é aqui que o tal tempo que me acompanha tem lugar cativo e sorri para mim, desdenhoso da minha azáfama, do meu cansaço, da minha confusão.
Despida a couraça que me cinge e avara de paz, busco  o meu soldo  para correr à locanda mais próxima e me embriagar com solidão. Tomo-a avidamente, encharco-me nela,  em goles fartos,  sequiosa, apressada, temerosa que não me chegue... quero mais e mais, até deixar de sentir, até me invadir aquela dormência sonolenta da inconsciência que chega. As pessoas são vultos borrados e escuros, as luzes, pequenos pontos que se desvanecem e o som, lento e desfasado,  enrola-se  na ressonância do silêncio e desliza num mutismo de acordes surdos até calar por completo a voz.
É no entorpecimento que me encontro ; oiço a minha voz e abraço-a com força, com aquela saudade de quem se sente distante e só no meio dum dilúvio de indivíduos ecléticos e cacofónicos,  todos os minutos dum tempo que ainda é seu.
Como um naufrago à deriva, agarro a tábua que flutua e deixo-me levar com a maré, ansiando a hora em que a letargia chegue, me embale e me traga consigo para me poder reencontrar na minha solidão.


                                   

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Falar Liberdade

"Ser pela liberdade não é apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros."Nelson Mandela



Dizer Não

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Vergílio Ferreira






"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado.
 Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos.
 Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos!
 De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto.
 Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui! "


Por onde andava MD Roque naquele dia,  há quarenta anos 


Não era a Nini, mas tinha quinze anos. Bonita e recatada que só eu, vivia num ambiente engraçado cheio de frases à boca pequena e segundos sentidos que eu nem sempre conseguia alcançar. O Pai e a Mãe trabalhavam e eu e os mais pequenos desempenhávamos o melhor que podíamos e sabíamos a nossa função na sociedade: éramos  estudantes obedientes,  lentes doutos e subordinados, nas nossas filas indianas aos pares, nas nossas canções com dezenas de bocas a uma só voz, com os nossos fatinhos onde despontava o emblema da mocidade que representávamos tão bem, a de Portugal, a patriótica, que enchia o concelho de ministros de orgulho, um bando de ditadores velhos carunchosos, manobrados pelo maior e mais inteligente de todos, que nos presenteavam com a sua visita nas escolas, onde os professores se desfaziam em gentilezas de ocasião, vazias e tristes, e éramos quase sempre agraciadas com uma festa na cabeça, ou em dias especiais, uma beijoca repenicada na bochecha. Lá íamos, cantado e rindo, tão indiferentes à realidade que nos rodeava, como nos encontramos ainda nos dias de hoje, mas isso agora não vem ao caso.
Naquele dia de Abril, o sol amanheceu fresco e um tanto envergonhado, comi a torrada com o Ovomaltine e fui para o Liceu a pé, para poder gastar os dois escudos dos transportes em guloseimas no Confeiteiro.
A aula das oito horas era de Ciências da Natureza e a professora não apareceu. Passámos meia hora num forrobodó daqueles inenarráveis,  que só acontecem quando ninguém está a observar.
Uma contínua com olhos de choro veio à sala e mandou-nos ir para o ginásio, onde uma directora a tremer como varas verdes nos informou que não teríamos aulas, mas só poderíamos sair do Liceu se nos fossem buscar. A mãe foi buscar os mais pequenos e um vizinho foi buscar-me a mim.
Em casa, a mãe estava lívida e chorava sem parar. Não sabia do Pai, que era um pachola inconveniente e já tinha tido espírito santo de orelha por mais de que uma vez.
O Pai demorou a chegar; vinha vermelho e eufórico. Agarrou-nos aos quatro num abraço sentido e falou " agora já podemos falar à vontade ! Nem mais um soldado para o Ultramar"
O telefone fartou-se de tocar, juntou-se imensa gente lá em casa e eu fui ler para o quarto as "Viagens na Minha Terra " e  o "Frei Luis de Sousa" que eram matéria do teste sobre Garrett marcado para o dia seguinte. Escusado será dizer que não acontecu.

Assim chegou o advento da democracia, da liberdade, do socialismo. 
E foi lindo ver marés vermelhas agitadas pelos ventos da mudança, cantar em plenos pulmões músicas de intervenção que estavam acorrentadas a sons mudos , sentir asas e poder deixar a imaginação voar.
Que emoção indescritível, para uma miúda de 15 anos, rato de biblioteca e pouco habituada a cavalarias altas...
Durou pouco e como tudo o que se toma  em demasia, causou uma ressaca bruta e brutal.
Embriagados pela liberdade, esquecemo-mos que só somos realmente livres se o nosso conceito de liberdade não colidir com os ideais dos demais.
Foi nessa altura que li Animal Farm  e 1984 e tive o meu primeiro vislumbre do que é realmente a política. 
O desencanto não demorou. Já o contei e cantei...
Na alvorada de uma nova realidade, madrugou-me o pensar, acordei para a vida e vi.




                                         

sábado, 19 de abril de 2014

Pessach, a passagem para lugar algum....

"E Cristo? É um anarquista que teve êxito. O único." André Malraux


[...]Neste sentido, estou a falar de uma religião do medo. Isto, apesar de não ter sido criado, é em alto grau estabilizado pela criação de uma casta sacerdotal especial que se institui a si mesma como mediadora entre as pessoas e os seres que elas receiam e ergue uma hegemonia assente nisso. Em muitos casos, um líder, um governante ou uma classe privilegiada, cuja posição assenta noutros factores, combinam as funções sacerdotais com a sua autoridade secular, de modo a garantirem mais firmemente a primeira, ou os governantes políticos e a casta sacerdotal defendem a mesma causa para defenderem os próprios interesses. 

Albert Einstein







Desde que perdeu o precioso significado férias, que a pascoa deixou de ser uma época especial apesar de, por hábito,  civismo ou simplesmente educação , nos continuarmos a desejar pascoas felizes.
Mesmo em garota só não detestava a pascoa por puro interesse e gula, amêndoas confeitadas de todas as formas e sabores, frutas cristalizadas num caleidoscópio de cores, rios de chocolate doce e morno, sabores, aromas e cores... memórias felizes duma infância tranquila.
Bem lá no fundo nunca consegui ultrapassar o medo da dor do calvário e da crucificação de um homem, feito deus pelos seus semelhantes e morto pelo medo da revolução de ideais cuja olfação pairava no evangelho como uma corrente no ar e se preconizava breve. E os homens são criaturas de hábitos e criam dogmas que querem imutáveis, e as religiões vivem da imutabilidade dos dogmas e tendem a destruir o que não entendem e temem que lhes possa aniquilar o poder. Medo é poder e vencer o medo é destruí-lo. 
Por isso e só por isso, mataram o filho do homem , feito deus pelos homens, cruel e viciosamente.
Esqueceram-se de que os ideais vivem para lá da morte física e que o símbolo máximo da expiação no calvário, se tornou um símbolo de fé na vida.
Esqueceram-se que a justiça tarda, mas não falha.  Como os ídolos pagãos que detestavam, tornaram-se monstruosas criaturas com pés de barro, que se estatelaram entre urros e convulsões, por não praticarem aquilo que durante tanto tempo intransigentemente pregaram.

E depois há o coelhinho da pascoa, rechonchudo, fofo, alegre e carinhoso, figura ternurenta que tem a ver com nascimento e vida. Reproduzir-se como coelhos é um notável sinal da vida em progresso. Até a associação pagã do coelho à lua, cuja contagem das fases determina a pascoa é prenúncio de vida nova, mas não necessariamente da ressurreição da carne, que volta ao pó e só germinará sementes de vida quando a vida lhe permitir novas raízes para poder voltar a florir

ביצה טובה




                                

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Momentos de sal


"Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou estendido à sua sombra, recordando. " Pablo Neruda




Gastámos tudo menos o silêncio. 
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 
gastámos as mãos à força de as apertarmos, 
gastámos o relógio e as pedras das esquinas 
em esperas inúteis.

Eugénio de Andrade






O tempo passa segundo a segundo e cada segundo é um momento que já passou.
Não me lembro de nascer. Acredito que não tenha sido um momento particularmente feliz para mim, aquele em que me sufoquei de ar pela primeira vez e me engasguei com o fluido que deixei de respirar. Tudo seria estranho, frio e doloroso, por isso gritei. Por isso grito ainda quando me sinto estrangulada pela turbulência que me acompanha desde então.

O tempo corre lento minuto a minuto e cada minuto é um momento a menos na contagem regressiva do tempo que ainda conta. 
Lembro-me de ser feliz, do calor dos carinhos, da ternura dos beijos, da doçura dos abraços e das cores que cintilavam no prisma da minha retina. Lembro-me principalmente dos cheiros que sabiam a mel e diospiros e que me afloravam a pele como beijos   meigos, ternos e saborosos.

O tempo voa de hora a hora, naquelas horas cujos momentos não quero relembrar, a dor da mágoa, a tristeza,   os prantos, momentos que dissolvo em rios de lágrimas salgadas e que reluto recordar.
Gasto o tempo que me resta numa réstia de tempo que me devolva um momento, um só , que me traga de volta aquele eu que ainda ontem me amava, que me queria tanto que não continha no peito a felicidade e grita-a aos mil ventos do infinito.





                                     

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Bleeding for all.... e uma dica importante.

 "Mais vale agir na disposição de nos arrependermos do que arrependermo-nos de nada termos feito." Giovani Bocaccio




"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós."


 Jean Paul Sartre





O sentimento de perda é a pior percepção da realidade que alguma vez poderá existir, principalmente quando aliado ao não retorno do que se perdeu.
A dor é imensa e insuperável por qualquer dor física de que haja memória. É um misto de raiva, impotência, revolta e agonia.
Perder um ente querido, um animal de estimação ou até o trabalho duma vida é desesperante e quantas vezes tão difícil de ultrapassar. Nuns casos, o tempo ajuda, outros há em que o tempo é crucial e exíguo.

Segundo a  terceira lei de Newton, ou Princípio da Ação e Reação, toda a acção corresponderá a uma reacção. Então o que dizer daquelas acções, que de tão graves , destruidoras e ignóbeis nos deixam sem reacção ?
Quando a razão tem vontades irracionais e destruidoras, e  só porque pode ser razão deixa de ter razão e se torna irrazoável?

Não sei se conhecem o Heartbleed

Como todos os vírus, é criado para ser uma arma mortífera e para deixar o criador em vantagem perante todos os que não tem acesso a um antivírus que minimize os efeitos devastadores da primeira vaga.
A segunda vaga já não é surpresa, já se tomaram algumas precauções, mas consegue ser quase tão devastadora como a primeira.
Com H1N1, por exemplo, esperava-se um outbreak que felizmente não aconteceu.
Com o Heartbleed esperava-se conter o vírus antes do outbreak, o que infelizmente não aconteceu.
O Haeartbleed é um serial killer de contas, páginas, blogs, websites, que já atinge números astronómicos na ordem dos 70% ...
Como o Chesapeake Ripper, destrói pelo prazer de destruir e devora pelo prazer de devorar.
Ninguém está a salvo e começar do zero requer uma grande força de vontade e capacidade psicossomática.

Saber que os nossos espaços muito nossos aqui e ali, as nossas fugas, as nossas histórias, as nossas memórias,  as nossas pequenas confissões, os nossos alter-egos e heterónimos são emporcalhados para puro gozo de alguém com muito tempo e pouco trabalho, dá-me vómitos.

Diz quem sabe que a solução é alterar continuamente palavras passe, como um  Kimble qualquer, sempre a mudar de passeio e de aparência,  como se quem se andasse a esconder fossemos nós.

Nunca foi do meu feitio cruzar os braços, sentar-me e esperar que passasse a tormenta... antes vir para fora, para a rua, para a chuva e gritar impotente contra a tempestade, mas de modo a poder fazer-me ouvir.




                  

Hoje é a dobrar, porque vale a pena, ok ?


                   


IMPORTANTE

Instruções para backup do blog AQUI



Então é assim

The cracking chrispmouse bloggywog award



A doce e simpática Chris Henriques entendeu colocar o meu blog entre os seus 15 favoritos nomeados para The cracking chrispmouse bloggywog award , prémio com que o seu blog "O Que o Meu Coração o Diz" também já foi agraciado.

Eu, que só recebo presentes pelo Natal e pelo meu aniversário, dos quais frequentemente conheço o conteúdo e raramente sou surpreendida, fiquei um tanto desconcertada, mas muito feliz e  honrada com a distinção.





O prémio, que mostro acima, obedece a quato regras que passo a enunciar:

1.- Mostrar o prêmio
2.- Anunciar o prêmio com um post no seu blog e agradecer o blogger que o nomina (incluir o link do blogger).
3.- Nomear 15 blogs para este prêmio
4.- Fazer um comentário no blog que nominou, indicando que o nomina a este prêmio e que ele deve seguir as instruções aqui citadas.
Dentro da categoria de literatura e poesia, esta é a minha lista de nomeados :
2 - Xilre
4 -    Porta-te Mal
12  -     A Viagem
15 - Poesia

E pronto ! Vou festejar com Veuve Clicquot e Cantar Carly Simon.
Obrigadao à Cris Henriques , que tornou este momento possível.


                

sábado, 12 de abril de 2014

O pensamento... foi-se...

"Um pensamento, quando é escrito, é menos opressor, embora às vezes se comporte como um tumor maligno: mesmo se extirpado ou arrancado, volta a desenvolver-se, tornando-se pior do que antes." Vladimir Nabokov



"'O que fazer?', é o que se perguntam, em unanimidade, os poderosos e os subjugados, os revolucionários e os activistas sociais, entendendo sempre com essa questão o que os outros devem fazer;
 ninguém se pergunta quais são as suas próprias obrigações."

Lev Tolstoi







A Praça Vermelha estava cinzenta, naquele dia pardo de Abril . Ameaçadoras nuvens  de chumbo tapavam o céu e a luz dos relâmpagos conferia à fortaleza ferrosa um  esbranquiçado e fantasmagórico tom que destoava na grandiosidade aparente do local. O som do trovão, esse estava tão distante como a memória das paradas do orgulho vermelho, apoteóticas e grandiosas, mas tão vazias como as ogivas de fachada, que desfilavam imponentes.
 Até St. Vasili, sempre tão animado e colorido, parecia um corroussel enferrujado largado a um canto,  projectando sombras de outrora já apagadas no tempo.
Saí dos Gum com um saco cheio de géneros, riqueza em forma de mantimentos, tão diferente daquele dia, já vinte anos passados, em que a fila na Beriozka para comprar quatro laranjas fora longa de mais de duas horas.
Passei pelo lugar do morto e não pude deixar de pensar no haj de milhares que adoraram uma imagem como se fosse um deus, naquela caaba de carrara cor de siena  que feria o espaço como uma peça defeituosa numa montagem bem elaborada.
 Agora adoram uma aberração ao melhor estilo dos freaks do Barnum Bailey Circus , que vai caçando vitórias, um tigre de cada vez, ou quiçá uma baleia, qual Teddy Roosevelt das estepes geladas.

Varykino estava fora de questão. O tempo não aquecera o suficiente e os Urais são belos mas traiçoeiramente álgidos. Yalta  deixou de ser opção por estar quente demais para  se ir a banhos.
Atravessei a cidade até ao parque do escritor, desejando ardentemente não dar de caras com faces sem rosto em corpos mortos , yankees sociopatas e interesseiros ou zibelinas protegidas,  e desci a abrupta ingremidade da boca escura que levava ao Metro, com os seus quilómetros de escadas rolantes e linhas cruzadas, rumo à Komsomolskaya . O Flecha Vermelha tornou-se cosmopolita, mais rápido, confortável e agradável ao olfacto. Devem arejá-lo entre viagens, pois os patibulares companheiros do reservado continuam a cheirar a queijo podre, couves cozidas, suor e anestesia alcoólica. Podem tirar o povo das comunas, mas as comunas continuam entranhadas no povo, desde os dedos dos pés até às pontas do cabelo gorduroso. Fazer o quê ? ... Fui lendo e sonhando .. Lara, Dolores, Anna, Natasha Romanov ...
Cheguei ! Continua a cheirar a agua choca e esgoto, mas o sol é radiante, as pessoas são alegres e a cidade tem cor, magia, mar e um céu sem noite. O Palácio de Inverno do Czar brilha como uma esmeralda na margem do Neva, que cintila na sua mansidão prateada. Diz-se que quando há noite  escura, o fantasma de Rasputin  se manifesta amaldiçoando os seus algozes, mas perdeu qualquer credibilidade depois da Sibéria... como diz Boca Dourada e muito bem, “Quando um adulto entra no mundo das fábulas não pode sair dele.”

Diz-se que nunca devemos voltar aos sítios onde já fomos felizes, mas não ligo muito ao que se diz e Pushkin é já ali a uns passos de corrida e é sublime.



                                 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Jornada em Absurdia

"A vida está cheia de uma infinidade de absurdos que nem sequer precisam de parecer verosímeis porque são verdadeiros."L. Pirandello





"Há bastante deslealdade, ódio, violência, absurdo no ser humano comum para suprir qualquer exército em qualquer dia. E o melhor no assassinato são aqueles que pregam contra ele. E o melhor no ódio são aqueles que pregam amor, e o melhor na guerra, são aqueles que pregam a paz.[...]

Charles Bukowski






Larguei as rédeas do tornado tornado brisa, e desci bem no fundo da escadaria da Cidade Proibida, deserta aquela hora crepuscular , onde a luz e a sombra se misturam num bailado grotesco de sede e cupidez, desmembrado pedaço a pedaço pelas trevas cuja chegada se previa para as horas mortas duma tarde que já passou.
Estava alerta e resoluta, com os humores flutuantes de excitação e expectativa, pronta para a luta , mãos nuas e o coração palpitante na garra do leão que nunca deixei de ser. A armadura de lata escudava-me do medo e os sapatos de rubi esmagavam os restolhos que teciam a rede de palhas que me envolvia com o desalento dos dias amargurados, intuidos em cada gota de orvalho, em cada onda do mar, em cada pingo de luar, em cada brasa de sol, em cada grão de poeira barrenta.
Procurava-os. Sabia que me esperavam.
A primeira regra do clube de combate, diz que não se fala no clube de combate; a segunda regra do clube de combate, diz que não se fala do clube de combate.  Parti na senda do oponente, com o poente nas minhas costas.
Virando à esquerda na primeira encruzilhada da saída Noroeste de Beijing, depois de dois dias de caminhada e passado  o grande desfiladeiro da lua crescente, vislumbrei Xian pela primeira vez.
Tremia. Acendi um dos charutos do faraó que o homem da marca amarela me tinha dado em troca de dois passos de tango, numa terreola sob o signo de Capricórnio nas fossas de Absurdia.
Dentro da minha cabeça, a mesma voz repetia incessante ,"chegou ao seu destino", "chegou ao seu destino". Maldito GPS! Resolveu reviver o passado ali, com Brideshead tão distante.
Rebusquei na mala e encontrei o saco de berlindes que tinha surripiado do sótão do velho Barrie, enquanto procurava pó mágico e nada encontrei a não ser bolor e teias de aranha. A Charlotte seguramente passara por lá.
Soberbos e enfileirados , como matéria viva e palpitante, os homens de terracota estavam prontos para o combate. Tiveram milhares de anos para planear estratégias, preparar, manobrar, antecipar e saborear a minha derrota.
Entrei, senti que a força estava comigo numa barra de cereais. Encarei-os,  mal encarados. A recompensa esperava-me debaixo do ídolo dourado. O homem da tatuagem da borboleta pisco-me o olho. Parei, peguei uma mancheia de berlindes coloridos,  respirei fundo e mergulhei convicta,  agarrada a uma saca cheia de cocos, nas águas revoltas que circundavam a Ilha do Diabo.





                                      

Genesis - Fly on a Windshield/Broadway Melody of 1974



[...]All that we see or seem

Is but a dream within a dream.

domingo, 6 de abril de 2014

Boas intenções

"A intenção é o princípio da acção."
 Textos Judaicos



Esta inconstancia de mim próprio em vibração 
É que me ha de transpôr às zonas intermédias, 
E seguirei entre cristais de inquietação, 
A retinir, a ondular... Soltas as rédeas, [...]

Mário de Sá Carneiro






O que mais me espantou, foi olhar incrédula em meu redor e não ver nenhuma equipa de filmagens !
Terei que dar razão a quem diz que vivemos acima das nossas possibilidades cinematográficas e não sabemos aproveitar os nossos recursos naturais?
 Que maravilhoso filme classe B não se teria filmado ontem ! Tinha todos os ingredientes para um bom thriller, uma boa Spilbergada ao melhor género "Duel", ou um espectacular remake do Twilight Zone, com som natural de pneus a chiar. 
Luzes, todas acesas, a Câmara, era um quilómetrozeco e pouco mais abaixo, a acção, nós gostaríamos que fosse boa, porque o País anda sequioso de boas acções.
Somos mesmo um povo sem visão ao Sábado, que não sabe aproveitar as oportunidades, caramba... quando as coisas nos caiem do céu, ignoramos e depois queixamo-nos de tudo e passamos a vida a fazer filmes.
Não faz mal, o que conta, é sempre a intenção, e nós sabemos o que se diz das intenções, principalmente das boas. 


Bom Domingo



                                     

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Pensamento de um dia de folga a chegar ao fim

"Descansar demasiado é oxidar-se." - Padre António Vieira



Aqui Onde se Espera


Aqui onde se espera 
- Sossego, só sossego - 
Isso que outrora era, 

Aqui onde, dormindo, 
-Sossego, só sossego- 
Se sente a noite vindo, 

E nada importaria 
-Sossego, só sossego- 
Que fosse antes o dia,[...] 







Diz-se que ser activo é um anti-oxidante natural... diz seguramente quem não tem nada que fazer, porque pela parte que me toca depois de dois dias non-stop posso ter desenferrujado as artérias e avigorado o somático, mas a psique embruteceu de tal modo que mal me sento, a ladina trata logo de me fechar os olhos e compassar a respiração de tal jeito, que dou por mim a ressonar como um barítono !
A solução é preparar um G&T e sentar-me à janela com uma música de fundo a tocar alguns decibéis acima do meu normal e cuja letra saiba de cor, antes que os "comensais", exigentes e barulhentos entrem e lhes cheire ao repasto. 




                                          

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Nevermore

"Cada um descobre o seu anjo tendo um caso com o demônio." - Mia Couto



A Nossa Vontade e o Nosso Pensamento


Anjos ou deuses, sempre nós tivemos, 
A visão perturbada de que acima 
De nós e compelindo-nos 
Agem outras presenças. 
Como acima dos gados que há nos campos 
O nosso esforço, que eles não compreendem, 
Os coage e obriga 
E eles não nos percebem, 
Nossa vontade e o nosso pensamento 
São as mãos pelas quais outros nos guiam 
Para onde eles querem 
E nós não desejamos. 

Ricardo Reis






Chegaram em bandos. Eram às centenas,  tantos que escureceram o sol  como uma nuvem cinzenta, uma praga de gafanhotos negros devoradores de consciências. Podiam ser insectos, parasitas invertebrados, não fora as caras de anjo em maravilhosos corpos andróginos e assexuados. As asas, essas eram negras." Asa de corvo" pensei, com o brilho e a dureza tão peculiares à antracite de azeviche e a crueldade necrófila duma ave de rapina.
Eram os arautos dos deuses, daqueles que foram e cuja essência se perdeu num passado sem futuro. Era a  cimeira dos outrora poderosos, louvados e adorados nas três américas, em todos os recantos misteriosos do berço da civilização, para lá daquela babilónia onde o Tigre e o Eufrates produziam demónios como se de ratos se tratasse. Foram os deuses que perseguiram Moisés, que protegeram Alexandre Magno, que guiaram as campanhas de César, que velejaram em barcos com cabeças de animais, manobrados por ferozes guerreiros, deuses que se acobardaram pela chegada dos espanhóis e fugiram, abrindo de par em par as portas ao extermínio de impérios... foram grandes num tempo próprio que se perdeu no próprio tempo. Agora esquecidos e renegados, pontuam em acontecimentos locais, onde cultos insanos e sangrentos os repescam em arcas poeirentas e prateleiras rancidas e os invocam para meia dúzia de acólitos fanáticos que espumam  e se retorcem em ritos de hosana e raiva. Levam a miserável vida de quem perdeu o mundo e não tem lugar no porvir, mantendo as aparências de grandeza apenas pelo aparato dos mercenários celestes que lhes guardam a existência vazia.
Esses, nunca foram guerreiros de um só deus. Eram mercenários que abraçavam sempre a causa mais onerosa do momento. Afinal, eram pagos em almas que incrustavam nos punhos das espadas como de diamantes se tratassem, porque eram poder, delas lhes advinha a força, a jactância e a beleza.
E se eram belos. O olhar hipnotizava, arrepiava, arrancava gritos roucos, gemidos, convulsões de indescritível deleite. Estendi os braços e implorei que me tomassem a alma , que eu não queria ser mais nada senão escrava daquela atracção e dos arroubos do meu corpo. Foi num momento, um lampejo num olhar de safira num segundo efémero no tempo, e vi. Vi as larvas da maldade e do vício do sangue, vi  a crueldade e a alma desabitada, vi que como os seus patronos, não passavam de fachada, belos, sensuais e desprovidos do escrúpulo duma consciência. Fugi. Chorei, chorei por mim que caí na tentação do sublime e quis, ou não fora Lúcifer o mais belo dos anjos.

Sentei-me no cume daquela montanha junto a Davos 
Vi com olhos limpos o que se desenrolava ao meu redor
Vi a beleza negra da perfídia
Mas a razão gritou mais alto"- Nevermore"!